Capítulo 1 – Tristeza alegre

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Trilha sonora do dia: ‘Samba da bênção’ – por Bebel Gilberto.

Depois de tudo, só consigo pensar em uma coisa: quando foi a última vez em que me perguntei se eu era feliz? A resposta me parecia óbvia demais até para justificar a pergunta. Hoje sei que não era. Agora me questiono e não chego a lugar nenhum. Após a internet se reestabelecer de mais uma queda, ouço baixinho Bebel Gilberto voltar a cantar numa playlist on-line dizendo que “é melhor ser alegre que ser triste”. No momento, discordo. Como ela mesma diz, uma mulher tem “qualquer coisa de triste”. Talvez seja muito jovem para ser mulher, mas não há idade para ser amarga.


Enxugo uma lágrima que rola atrasada pela bochecha e relembro cada uma das muitas que chorei ao longo do dia. Volto o caminho relembrando tudo o que me aconteceu e, enquanto isso, colho as lágrimas que derrubei. Eu vou guardando esse choro na alma e na memória. Não quero preservá-los numa gaveta, mas numa estante: quero me lembrar da decepção para sempre ­– e aprender ao menos o mínimo com ela.

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A internet trava novamente e eu desvio meu olhar para a janela do tamanho de um pneu que deveria iluminar meu quarto. A tarde cai belíssima, mas o muro chapiscado me impede de ver a mistura completa de tons de laranja e rosa que dançam no céu. Mesmo vendo só parte da paisagem, capto a ironia dela por completo. Deveria chover cinza, fazer frio, mas o mundo não está nem aí para o que nós sentimos.

 

“Uma mulher tem “qualquer coisa de triste”. Talvez seja muito jovem para ser mulher, mas não há idade para ser amarga.”

 

Então eu entendo que ninguém está nem aí. Ninguém é feliz. Se houvesse um ranking mundial que medisse a alegria de cada individuo, eu teria, até a manhã de hoje, a ousadia de chutar que estava entre os 100 melhores. Agora estou certa de estar para lá dos 6 bilhões. Se eu um dia voltar a subir de posição, espero ser sábia de não avançar tanto. Até por que se alguém ficasse estacionado nas primeiras posições, essa pessoa não seguiria viva muito tempo. Nós a suicidaríamos. Definitivamente, é melhor ser triste que alegre.

*

Quando eu entendi que não era uma brincadeira, faltou o ar e o chão. Me senti como um corpo que cai tão rápido que o espírito não consegue acompanha-lo. Estava oca. Tive a estranha sensação de ter vivido uma mentira, como se tudo fosse uma peça de teatro em que eu estava tendo uma péssima atuação sem nem saber.

 

“Como se tudo fosse uma peça de teatro em que eu estava tendo uma péssima atuação sem nem saber.”

 

O diretor levantou da cadeira e gritou o “corta” antes da última fala. Eu fiquei parada vendo o cenário desmoronar, sem entender nada. Até que entendi. Entendi que dali em diante não teria mais aquela pessoa de confiança, que ria das minhas piadas, mesmo das mal feitas; que brigava com a própria mãe por mim e que ia de guarda-chuva na parada de ônibus me buscar quando tava chovendo.

– O quê que você disse?

– Sol… É que eu não acho que as coisas estão legais com a gente, tendeu?

Pausa prolongada. Ele olhando pro chão, eu olhando pra ele e o chão me engolindo. Não sabia o que fazer então fiquei encarando-o, não para intimidá-lo, mas para achar alguma direção, para me reconectar. O Luís estava desconfortável com a situação, mas não estava entristecido. O desconforto dele era a minha presença, a minha reação – não o fim. De amor para a vida inteira, eu fora reduzida a uma simples pedra no sapato.

– Pra mim, a gente devia dar um tempo. – ele completou, engolindo seco.

 

“Pausa prolongada. Ele olhando pro chão, eu olhando pra ele e o chão me engolindo”

 

Na minha cabeça passava um turbilhão de coisas. É claro que era o fim de tudo entre nós, mas de uma maneira eufemista e hipócrita. Ele estava me demitindo da vida dele, mas não tinha coragem de dizer. Nós convivemos diariamente por um ano e meio e ainda assim ele não teve coragem. Pensei em tudo que minha mãe me disse sobre o Luís, que ele não parecia ser boa gente, que eu estava praticamente casando – e que eu não fazia ideia do que isso era. Agora eu entendia o que era amar por completo: da paixão à separação. Amar é doido e doído.

– Ok. – foi tudo o que eu disse, arranhando a garganta até que as letras saíssem como navalhas.

Me convenci a não fazer um escândalo. Queria ter forças para ser uma das pessoas que pulam no pescoço do amado implorando uma migalha de sentimento. Se fosse assim, talvez eu o convencesse. Mas não sou disso, sofro na minha e não contamino os outros com minha raiva. Deixei o ódio estender suas raízes púrpuras apenas no meu coração – e hoje ele ali se alastrou com facilidade.

 

“Deixei o ódio estender suas raízes púrpuras apenas no meu coração – e hoje ele ali se alastrou com facilidade.”

 

Senti meu corpo sendo tomado, os tentáculos massacrando meus pulmões, me deixando sem ar. Tinha que dar o fora dali. Eu já conseguia ver as lágrimas formando pequenos diamantes nos meus próprios olhos e não queria dar ao Luís o gostinho de me ver chorar por ele.

Peguei minha bolsa e saí do quarto. A alça direita que já estava com o couro gasto, porém, se arrebentou pela violência com que eu a manuseava (como se aquilo fosse hora!). Caíram pelo corredor algumas coisas da minha bolsa, mas não pude me virar para pegar. Luís vinha em meu encalce tentando me parar e eu não tinha vontade do olhar para ele e ver o alívio que ele sentia em assistir à minha partida. Segurei a bolsa contra o peito e saí da casa dele o mais rápido que pude – e reconheço que estava até lenta, imobilizada pela tristeza. Enquanto descia correndo as escadas, tive de me segurar na parede para não cair com a tontura que a vontade de chorar me causava.

– Soraya, espera. Vamos conversar.

Quando ouvi a voz dele retumbar nos meus ouvidos, passei a pular os degraus de quatro em quatro. Minhas pernas gorduchas não estavam acostumadas ao impacto e se balançavam como as gelatinosas patas de um elefante. Nunca me senti tão feia, tão mal quista. Como tudo aquilo estava acontecendo tão de repente? Como eu fui rebaixada ao status de fugitiva sem ao menos perceber? O bolo de lágrimas (por Luís, por mim, pelo mundo) veio de uma só vez à minha garganta seca e saiu como um grito. Me nariz escorria e eu escorregava pelas escadas infinitas do prédio de 10 andares.

 

“Minhas pernas gorduchas não estavam acostumadas ao impacto e se balançavam como as gelatinosas patas de um elefante. Nunca me senti tão feia, tão mal quista.”

 

Ele mora em um condomínio fechado, desses que viraram moda em Ceilândia quando as pessoas entenderam que era mais fácil garantir segurança quando todos moravam em uma mesma torre do que vivendo em casas. Como era muita gente deixando suas respectivas casas, no caso do condomínio de Luís não era apenas uma, mas 20 torres. Eu morava do outro lado da cidade, em uma casa que se defendia com um muro semi-desmoronado. As habitações eram perfeitas metáforas de como cada um de nós estávamos nos sentindo.

Quando finalmente desci todas as escadas, ele já me esperava no térreo. Foi de elevador. Me senti tão idiota que preferia ter morrido. Ele tentou segurar meu braço no hall, mas me desvencilhei e fechei os olhos para fingir que eu era invisível. Desculpe, não sei ser adulta. Engatei outra disparada e com um chute na porta corri em sentido a portaria. Luís ainda me seguia e naquela hora também chorava – ou será que ria?

 

“Me lembrei de que li em algum lugar que é possível morrer de vergonha de verdade. Achei que fosse ser minha hora.”

 

Na quadra poliesportiva ao lado do prédio, vários garotos jogavam vôlei, inclusive o irmão mais novo de Luís, Flávio. A pessoa que melhor me tratou nos últimos meses não podia me ver daquela maneira. Peguei meus óculos escuros na bolsa enquanto amarrava a alça no cotoco que sobrou dela. Enfiei a cara dentro da bolsa para fingir que estava ocupada e dei por falta de alguma coisa que até agora não sei o que é. Achei que aquilo bastaria para ele não vir, mas não adiantou nada. O Flávio perdeu um ponto dado que fecharia o set para poder me socorrer

– Quê que aconteceu, Sol?

– Nada meu bem, imagina. Volta lá pro seu jogo!

– Não, claro que não. Vou lá em casa buscar um copo de água com açúcar pra você e aí você me diz o que está acontecendo.

– Não faça isso! Por favor! É sério vou para casa e fica tudo bem.

Não dei nem oportunidade para ele continuar, só saí andando. Foi nesse momento que Luís se juntou a nós, andando calmamente e disparando ordens:

– Flávio! Segura ela aí.

O irmão de meu ex-namorado não chegou nem a fazer menção de tentar me deter, mas ainda assim o empurrei e voltei a correr. A alça da bolsa arrebentou mais uma vez e eu tive que jogar meu joelho no chão para frear a minha marcha e conseguir catar meus pertences o mais rápido possível. Senti o calçamento áspero desfazendo as fibras da minha calça jeans puída e revelando minha pele.

 

“Em um instante, meu joelho ficou em carne viva e eu, sangrando e chorando, me senti ainda mais patética.”

 

Em um instante, meu joelho ficou em carne viva e eu, sangrando e chorando, me senti ainda mais patética. Enfiei de volta na bolsa o caderninho e as maquiagens que caíram. Sentia os olhos dos dois times de vôlei posados sobre minha nuca, a gordinha ridícula. Me lembrei de que li em algum lugar que é possível morrer de vergonha de verdade. Achei que fosse ser minha hora.

As lágrimas foram ficando mais fortes, os soluços do choro faziam um barulho bem alto e eu voltei a correr. Corria por querer sumir. Corri até alcançar uma velocidade em que tudo virou um borrão de formas indefinidas, belas e alheias à minha infelicidade. Não conseguia enxergar quase nada, a visão turva pelas lágrimas e pelas lentes escuras. Tentei ignorar o fogo nos meus pulmões e corri movida pelo ódio até o metrô. Ouvia uma moto se aproximando de mim e pensei que pudesse ser o Luís, então entrei na estação correndo e, por Deus, havia um trem lá parado. Nem era o meu, ia no sentido Brasília, mas tudo bem. Eu só precisava de um meio para sumir.

*

No meu vagão só havia eu e uma senhora que também chorava. Não perguntei a ela por que ela sofria, não me interessava, afinal. O destino só havia colocado nós duas juntas ali para isolar-nos do resto do planeta, que estava vivendo seus momentos felizes e esperançosos de fim de ano. Tudo aconteceu às quatro horas da tarde faltando três dias para o ano novo. As demais pessoas do planeta estão contando nos dedos os minutos que faltam para ouvir o barulho dos fogos para ter um recomeço, afinal! Eu, no entanto, preferia que tudo tivesse continuado como estava. A senhora desconhecida desceu do trem – e sorriu para mim antes de desembarcar.

 

“As demais pessoas do planeta estão contando nos dedos os minutos que faltam para ouvir o barulho dos fogos para ter um recomeço, afinal! Eu, no entanto, preferia que tudo tivesse continuado como estava.”

*

Enquanto pegava um metrô no sentido contrário, me lembrei de um filme de terror que assisti em que a líder de torcida tropeçava em uma raíz de árvore no justo momento em que o assassino estava perto o bastante para esfaqueá-la. Não lembro qual era o filme, até pela falta de originalidade da cena, mas senti uma fisgada no joelho e me coloquei no lugar da mocinha. Tentei entender o porquê de Luís me perseguir, o que ele queria me explicar que eu já não houvesse subentendido? Talvez quisesse me desejar “boa sorte”. Eu ia precisar.

Tive que andar quase um quarteirão inteiro para chegar em casa. Minha mãe estava dormindo no sofá, não tinha tirado nem o sapato de seu uniforme. Geralmente eu a acordaria, mas não queria conversar, não queria que ela me visse. Cheguei no meu quarto e no corredor vi que minha tia também não estava em casa, nem meu padrasto, nem minha irmã. Estava, ao menos, só. Sentei na minha cama e fiquei assistindo à tarde virar noite. O meu computador velho tentava me acalmar com uma seleção de músicas brasileiras, mas a internet não ajudava.

 

“Tentei entender o porquê de Luís me perseguir, o que ele queria me explicar que eu já não houvesse subentendido? Talvez quisesse me desejar “boa sorte”. Eu ia precisar.”

 

Então lembrei de uma coisa que um dia, há muitos anos, me ajudou. Peguei meu diário de menina que estava guardado em uma gaveta da cama e escrevi as duas primeiras partes desse texto ainda com lágrimas nos olhos. Reescrevi em seguida no velho computador de mesa. Parei quando vi brilhar na tela do celular um aviso de vinte chamadas perdidas do Luís. O impressionante é que realmente não havia ouvido tocar. O número dele ainda tava gravado como ‘Meu Amor’. Nas redes sociais ainda éramos um casal “em relacionamento sério”, mas agora duvido de que isso exista. Senti asco dessas definições, mas também fiquei com preguiça de alterá-las. Abri meu armário e notei que pelo menos metade dele estava cheia de presentes dele, roupas que comprou para mim com dinheiro de origem duvidosa – até meu celular foi ele quem deu.

O meu quarto é um puxadinho – bem pequeno – à casa original, construído sobre um pomar que minha mãe deixou secar. A parede direita tem quase o dobro do tamanho da esquerda e é lá no alto dela em que instalei os dois quadros de cortiça que comprei e enchi de fotos. Há um para meus amigos e família e outro para fotos do Luís. Desde quando ele passou a ocupar metade da minha vida? O vejo tomando sorvete. Nos vejo no aniversário do irmão dele, no colégio, deitados na minha cama, na piscina do prédio dele, na cachoeira emaconhada dos amigos dele. Revejo nas últimas três fotografias: a gente se beijando, se beijando e se beijando.

 

“Fui até o banheiro e peguei a lixeira de metal. Coloquei tudo nela, algumas roupas, todas as fotos, até o celular. Não contente de jogar fora, coloquei fogo.”

 

Fui até o banheiro e peguei a lixeira de metal. Coloquei tudo nela, algumas roupas, todas as fotos, até o celular. Não contente de jogar fora, coloquei fogo. O cheiro de fumaça acordou minha mãe, que veio correndo tentar me acudir. “Boba, não há como me ajudar”, pensei. Minha mãe brigou comigo por ter estragado a lixeira, mas não brigou muito também – era visível a minha desesperança. Minha tia apareceu no quarto logo depois oferecendo o ombro amigo e, claro, os ouvidos de fofoqueira. Recusei polidamente.

Sentei no computador e passei o texto inteiro a limpo. Sempre li que aspirantes a compositor precisam de um diário para anotar os tormentos da mente e não há melhor hora para eu começar o meu. O computador de mesa velho e cansado ganhou nova vida quando eu apaguei dele todos os arquivos fotográficos. Talvez um dia eu também fique mais leve após apagar um ano e meio de história. Talvez um dia.

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