Capítulo 2 – A Paradoxo

Post-Capítulo-2


Trilha sonora do dia: ‘A História de Lily Braun’ – por Maria Rita

Gostaria de ter começado este livro de maneira diferente. Não assim, tão depressivo. Gostaria de ter começado daquele jeito típico: “Em uma certa manhã fria de outubro, Soraya Temperança acordou e percebeu que a primavera estava chegando…”. E por aí vai. É o tipo de narração que faz você faltar a escola só para saber como continua, tudo conciso e estimulante. Mas minha vida não é assim. Ninguém se importa. Eu finjo que há uma trilha sonora, que há sempre uma câmera escondida a procura dos meus melhores ângulos. Sonho com o dia em que haverá um poema com meu nome. Mas isso é só uma das minhas bobagens de menina. Há muito pouco de interessante na minha vida. É por isso que sonho, que escrevo. Para fingir que há vida onde só há rotina.

Olha lá, a depressão voltando. Vou começar do começo, me apresentando. Mas antes, um aviso. Não sou o que se espera de uma adolescente suburbana. Meus pais são separados, mas ele não me abandonou quando eu era recém-nascida. Por aqui, a maior parte dos meus amigos de infância não tinha nem o nome paterno na certidão. Hoje em dia, já não sou mais amiga de nenhum deles. Eu também não me encaixo aqui, eles me acham uma privilegiada. Nunca passei fome, nunca corri de polícia. Não sou miserável, tampouco burra. Nunca sofri abusos sexuais. Não estou doente em um estado terminal. Não enlouqueci até agora. Não tenho inimigos mortais. Não sou uma menor infratora (no máximo, cúmplice), tampouco sou uma drogada irrecuperável. Não sou um caso comovente. Sou como você.

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Ironicamente, talvez se eu fosse alguma dessas coisas, as pessoas teriam me aceitado melhor e a minha história seria mais interessante. Ela seria o que você, pessoa imaginária que lê, espera de mim, uma adolescente que quer “cruzar as barreiras sociais”, como apontam as ONGs que trabalham na vizinhança. Não quero cruzar, quero por abaixo. Mas não escrevo para essa causa. Nem para contar a mentira que você quer ouvir. Escrevo para mim, a pessoa imaginária que tenta virar realidade. Percebi que lapidar a sua própria história é enriquecedor. É uma terapia individual para quem não pode pagar uma de verdade – e estou precisando tanto disso.

 

“Não escrevo para essa causa. Nem para contar a mentira que você quer ouvir. Escrevo para mim, a pessoa imaginária que tenta virar realidade.”

 

Perdão, Dr. leitor fictício, acabou que eu nem me apresentei. Meu nome é Soraya de Carvalho Temperança. Falando em dar nomes às coisas, está ai mais uma influência do sol na minha vida. Até gosto do meu nome, só sou eu mesma por tê-lo. Talvez fosse uma menina diferente se me chamasse Tatiana, talvez fosse mais feliz se eu fosse Juçara. Ainda assim, quando penso em Soraya logo me vem o sol na cabeça e eu realmente não sou o que se pode chamar de jovem-veraneio. Além disso, acredito, embora nunca tenham admitido, que só me chamo Soraya porque minha mãe é Verônica e minha irmã é Solange – o sol como uma espécie de sina familiar.

Mas as palavras depois de conferidas não são passíveis de devolução. No fim, sou essa coisa meio brilhante (Soraya), meio dura (Carvalho) e meio maleável (Temperança). Não sou só uma metamorfose, sou um paradoxo ambulante [essa frase eu tinha guardada desde o tempo do diário em papel]. Enfim, meu nome é Soraya, tenho dezessete anos, nasci em Brasília, mas me criei e moro até hoje em Ceilândia – que, ao pé da letra, é apenas um bairro da capital federal, mas que, na realidade, fica em uma dimensão completamente oposta. Passei minha vida transitando por esses dois universos, sem, como disse, me encaixar perfeitamente em nenhum deles.

 

“Pensando na dança, talvez se ainda fizesse balé não teria esses cinco quilos a mais que me acompanham desde aquela idade, quando eles não importavam, até agora, quando eles me rotulam.”

 

Devo ter um metro e sessenta, mas não sei com exatidão. Eu não me meço desde quando fazia aula de balé em um desses projetos sociais que aparecem e desaparecem por aqui e esse projeto acabou quando eu tinha uns 12 anos, mas não cresci muito desde então. A forma que a sociedade interpreta minha altura, porém, mudou muito nestes cinco anos. Na época do balé, as colegas me chamavam de “girafa”, hoje em dia sou a “tampinha”. Pensando na dança, talvez se ainda fizesse balé não teria esses cinco quilos a mais que me acompanham desde aquela idade, quando eles não importavam, até agora, quando eles me rotulam. “Tampinha redonda”.

Falando em rótulos, tenho os cabelos naturalmente cacheados num tom castanho claro, que ganha mechas loiras quando queimado no sol, mas me acostumei a usá-lo pintado de preto e alisado – condiz mais com minha personalidade obliqua. Sempre que nos vemos, meu pai fala que meus olhos são lindos, o que há de mais bonito em mim, castanhos com algumas pintas verdes, como os de um gato malhado. Eu discordo dele. Acho que o mais bonito em mim é o meu cérebro. Não que eu seja uma nerd como minha irmã, Solange, mas acredito que eu tenho uma capacidade incrível que vem se tornando rara na humanidade: pensar.

Por fim, fisicamente não sou feia, mas também não sou bonita, acho, inclusive, que estou mais pra lá do que pra cá. Poderia facilmente enumerar páginas e páginas de defeitos, mas acho que o diário ia ficar cansativo mesmo para você, Dr. leitor. Basta dizer que meus dedos têm quase o meu tamanho, que tenho o queixo quadrado, o que é incomum em mulheres, e algumas espinhas ainda insistem em habitar a minha bochecha apesar de todas as pomadas e unguentos preparados por minha tia Rosa. Faltou algo? Ah, sim. Trago uma cicatriz na nuca.

A história da ferida é boa. Ganhei essa cicatriz quando eu tinha quatro anos e ainda tínhamos uma piscina. Naquela época, a casa era outra, embora seja até hoje a mesma. Tínhamos um quintal enorme e muros pequenos, hoje a situação se inverteu. Naquela época, eu e minha irmã dormíamos no mesmo quarto, minha tia não morava conosco e meus pais ainda eram casados. Na nossa casa tinha uma piscina dessas de plástico, montada em uma base de ferro, que meu pai comprou com o dinheiro de um abono do trabalho. Eu apenas era pouco mais alta do que a piscina, o que obrigava minha mãe a ficar me vigiando enquanto eu nadava. Um dia, porém, nem vesti o biquíni, tirei a roupa e fui sozinha.

 

“Do fundo da água manchada de sangue, gritei e vi a sombra da minha mãe parada, desesperada pensando que eu tinha ficado paralítica. “

 

Assim que estava entrando na piscina, escorreguei e bati com a nuca em uma das conexões. A estrutura se manteve intacta, eu não. Do fundo da água manchada de sangue, gritei e vi a sombra da minha mãe parada, desesperada pensando que eu tinha ficado paralítica. Ela não queria que ninguém encostasse em mim, mas por Deus meu pai estava de folga e pulou na piscina para me salvar. Estava chorando e cortada, quase inconsciente, mas estava feliz por meu pai ter me salvado. Essa é a última lembrança verdadeiramente feliz que tenho da minha convivência com ele ­– o dia em que quase morri afogada por omissão de socorro. Mais do que a lembrança, ficou a cicatriz reta e horizontal, semelhante ao corte de uma faca (seria mais legal se fosse um raio, não seria?). Gosto de inventar histórias para ela, dizer que um assassino em série atentou contra a minha vida, que sou marcada e perseguida por bruxas das trevas…

Olha eu, já me dispersando. Seguindo com as apresentações: como disse, não sou nerd, mas sou uma aluna exemplar. Só tirei duas notas vermelhas na minha vida, ambas em matemática. Até hoje não sei fazer uma conta de divisão no papel seguindo as normas ensinadas na quarta série. Gosto de tudo que envolva arte, isso eu aprendo fácil. Música é a minha coisa preferida no mundo. Não tenho muita aptidão para fazer, sou uma negação no violão, mas escutar é a melhor coisa que há. Vi um vídeo na escola que dizia que as sociedades antigas acreditavam que a combinação de melodias nos aproximava dos deuses. Eu acho que, na verdade, música nos aproxima de nós mesmos, quando quase entendemos quem nós somos.

 

“As sociedades antigas acreditavam que a combinação de melodias nos aproximava dos deuses. Eu acho que, na verdade, música nos aproxima de nós mesmos, quando quase entendemos quem nós somos.”

 

Foi a minha paixão por música que me faz gostar de línguas. A forma cancionada que as palavras se combinam em poemas, seja em português, inglês, espanhol, ou qualquer coisa, essa forma é tão bonita que é difícil acreditar que é produto da humanidade. Faço poemas de vez em quando, Dr., mas não quero mostra-los a você por hora. Ainda assim, sou refém da poesia. O dom de iludir com as rimas agressivas do rap, poesia moderna, foi, inclusive, uma das coisas que mais me encantou no Luís. Foi ele que me ensinou a tocar violão, ainda que eu não tenha aprendido. Ele ficava com raiva quando, depois dele tocar, eu falava que a música tava boa. “Bom é nada”, dizia. Então ele me ensinou o básico da teoria para eu poder responder com coisas do tipo: “aqui ficaria melhor um lá sustenido”. Era o objetivo dele, mas eu nunca alcancei.

*

Minha vida, porém, claro, começou muito antes do Luís. Nasci como você já deve ter notado, em uma família pouco estruturada, mas tive ao menos uma família. Os mistérios cercam a minha árvore genealógica não só com relação ao conflito entre meus pais, como de todos os demais parentes. Meu pai tem três irmãos, todos homens, mas só conheci um, que foi com quem meu pai morou por alguns meses depois do divórcio. Tio Tonico vivia em uma roça do interior de Goiás e lembro de ter mais apreço pelos belos bezerros mamando do que por ele. Jamais o revi. Os outros irmãos e meus respectivos primos eu só conheci por foto e pela internet – afinal, não é difícil achar pessoas com o sobrenome Temperança. Já minha mãe tem uma irmã e um irmão, conheço os dois, mas o tio Sérgio vive em Manaus e nos visita muito pouco. Dizem que ele é rico e esnobe, mas se for levar como padrão nossa renda para definir quem é bem de vida, o critério acaba ficando muito baixo. A irmã de minha mãe é a tia Rosa, que mora conosco há uns seis anos, desde que se divorciou também – e de maneira muito mais conturbada e truncada do que meus pais.

 

“Direi as coisas como eu me lembro que elas aconteceram, até por que isso é mais importante do que a verdade dos fatos.”

 

Não vou me alongar, porém, ao menos agora, nas misteriosas histórias dos meus parentes e sobre o que eu ouvi falar deles. Vou falar de meu núcleo familiar, que é a mesma coisa de falar de mim. Direi as coisas como eu me lembro que elas aconteceram, até por que isso é mais importante do que a verdade dos fatos. O que me recordo mais fortemente é que, quando era criança, eu e minha irmã nos odiávamos. Minha memória mais antiga é de nós duas discutindo por causa de gizes de cera. Solange é seis anos mais velha que eu, então, já estava acostumada a ser filha única quando eu cheguei – a ET. Os pais sempre dão mais atenção para os filhos caçulas quando eles são pequenos e isso desperta o ciúme dos mais velhos – e o ciúme dela era manifestado com violência. Todos os dias nós nos estapeávamos e me envergonho em dizer que isso acontece de vez em quando até hoje. Porém nossa relação já melhorou muito. Hoje ela é apenas irônica boa parte do tempo.

 

“Todos os dias nós nos estapeávamos e me envergonho em dizer que isso acontece de vez em quando até hoje.”

 

Solange também é muito inteligente. Ela estudou com bolsas integrais por mérito escolar desde muito jovem. Passou sem dificuldades no vestibular para comunicação social, que na época era um dos mais concorridos cursos da UnB. Ainda hoje, ela segue competindo com os colegas de redação como fazia na escola, para ver quem ganha mais elogios. O pior é que ela não é apenas nerd, como também seu direto oposto: é linda. Uma cópia jovem e bem cuidada da minha mãe. Sempre renegando suas origens, porém, e o cabelo crespo, a cada dia ela se aproxima mais da dimensão de Brasília e se afasta da nossa. Eu, no entanto, adoro lembra-la de que saímos do mesmo buraco.

E pensar que, apesar das brigas, houve dias em que vivemos praticamente na mesma realidade. Na época das minhas tenras memórias, casa era toda branca, com janelas e portas verde pastel. No quarto da minha mãe tinha uma única parede vermelha que eu amava, acho que foi ai que me apaixonei por essa cor. Certa vez gastei um batom dela inteiro todo pintando a parede do meu quarto e da minha irmã “pra ficar igualzinha a da mamãe”. Apanhei de havaianas – essas também eram vermelhas.

*

Meus pais se separaram quando eu ia completar sete anos. Não tenho lembrança nenhuma de meus pais se beijando ou se abraçando, ainda assim, lembro que ficava enchendo o saco perguntando pra minha mãe pra onde ele tinha ido.

Na realidade, nem foi meu pai quem se mudou, como é costumeiro que ocorra, foi minha mãe que saiu de casa. Fomos morar com a Tia Rosa, em um barraco qualquer perto do Sol Nascente, a maior favela do Brasil. Essa foi uma das piores fases de grana da nossa vida. Minha mãe quando se casou tinha parado de trabalhar e é bem difícil para copeiros parados por uma década voltarem ao serviço ­– há uma espécie de máfia de empresas que comanda o setor – e, pra piorar, quando ela se separou não aceitava nenhum centavo do meu pai. Eu, porém, quando ligava para ele já ia logo perguntando sobre minha mesada.

Só compreendi bem o que aconteceu anos depois. Meu pai tinha se envolvido com a estagiária do agência bancária que ele trabalhava e largado minha mãe para ficar com a doce, jovem e peituda Yvonne – grafado com y e dois ns, note-se bem. O relacionamento entre eles ­meu pai e ela vivem até hoje de idas e vindas – é para mim a prova de que homens não pensam com o cérebro. Embora meu pai não esteja nem perto de ser rico, acho que ela só está com ele pelo dinheiro (e já deixei isso claro em um jantar familiar faz alguns anos).

 

“Embora meu pai não esteja nem perto de ser rico, acho que ela só está com ele pelo dinheiro (e já deixei isso claro em um jantar familiar faz alguns anos).”

 

De qualquer forma, com o tempo meus pais foram aturando mais a presença um do outro e nós voltamos para a casa onde vivi toda minha vida – tudo devidamente desinfetado após a saída de Yvonne. Daquela vez, trazíamos a chorona Tia Rosa conosco. Tio Gastão, marido dela, ficou para trás no barraco e até hoje eu não entendi bem o que aconteceu com eles dois. Suponho que ele batia nela, mas nunca entendi a verdade por completo. Com a pensão e os salários de minha mãe e de Tia Rosa como camareiras, conseguimos passar a nos sustentar com alguma facilidade. Nesse meio tempo, meu pai se mudou com minha madrasta para a casa do Jardim Botânico. Eu passava os finais de semana na casa dele enlouquecendo a esposa ­­– engendrei vários planos, alguns deles mortalmente perigosos, para me livrar de Yvonne, qualquer dia espero poder contar passar a limpo alguns deles a você.

Mas acho importante, de qualquer forma, que você saiba que eu não era uma dessas crianças tranquilas. Eu adorava liderar a turma do parquinho. Gostava de estilingues, de perturbar as velhinhas da vizinhança e tudo mais. As reuniões do condomínio do meu pai nessa época eram sempre com o mesmo tema: “O que vamos fazer com sua filha, Lázaro?” Depois foi a vez da minha mãe se casar com o Rubens, o meu padrasto, que faz um pouco de tudo quando o assunto é computador. Ele é um cara muito legal e eu e minha irmã nem fomos crianças mal-educadas com a chegada dele. Na verdade, estávamos deslumbradas de ver minha mãe sorrir de novo e a felicidade dela apaziguou um pouco as minhas reinações. Foi quando comecei a preencher o meu diário de menina.

 

“Eu, porém, fui buscar meu primeiro amor a uma longa distância.”

 

A grande verdade, porém, é que fui mais um menininho do que uma menina quando criança. Só tive meu primeiro contato o sexo oposto aos treze anos, quando as meninas da minha rua já sustentavam anos de relacionamento sob a proteção da casinha da árvore do parquinho.  Eu, porém, fui buscar meu primeiro amor a uma longa distância. No primeiro dia que eu tive de aula em uma escola pública do centro de Brasília, fiquei imediatamente e totalmente apaixonada por um garotinho lindo, loiro e arrumadinho que se chamava Tito. Por meses, suspirei com a sua entrada na sala. Um dia, eu falei para ele dos meus sentimentos, com as pernas mais bambas que duas varas verdes, e ele foi atencioso comigo e me beijou na bochecha.

Tomei aquilo como meu primeiro beijo, principiante que era no jogo do amor. No dia seguinte eu escrevi uma carta de oito páginas de “eu te amo” para ele, frente e verso, com direito a cola com glitter e brocais dourados. O Tito riu da minha cara, na minha frente, quando eu lhe entreguei a minha declaração. Ele mostrou os papéis para todos os amigos dele se referindo a mim como “girafa baleia” e eu fui, por semanas, a piada da escola. Aprendi muito sobre os homens naquela ocasião. Até hoje, o Tito é uma sensação, mas seguimos caminhos diferentes. Ele virou o pagodeiro pegador e eu a maconheira com cara de lésbica (embora não seja uma coisa nem outra). Mas daquele dia em diante eu prometi que não ia gostar de mais ninguém na vida, numa dessas promessas malucas que criança faz o tempo, tipo “nunca mais eu vou falar com você”. Porém, até que mantive essa minha determinação por muito tempo. Mas isso foi antes de conhecer o Luís.

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