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Recorte-11


O feriado da morte*

Por mais prodigiosa que fosse a ciência naqueles tempos, não foi ela a responsável por aquele benefício. Isso se deve, como sabemos, à total dedicação do conhecimento humano aos pequenos fatos, quando as grandes questões permanecem no reino do mistério.  E quem há de dizer em que um dia em que ninguém morre não é uma coisa grande? Na verdade, não só um dia. Até pensou-se tratar de coincidência quando, por dois anos seguidos ninguém morreu em todo o mundo no dia 6 de janeiro.

Bênção dos reis magos, diziam os cristãos, mas eles não eram os únicos beneficiados. Nem gente, nem bicho, nem árvore morria. Despedaçava, feria, explodia, mas nunca morria. E mesmo que a ciência humana fosse incapaz de ver, o feriado da morte se estendia por todo o universo.  Nem ET, nem planeta, nem estrela morria. Nada. Na ocasião do quarto ano seguido sem mortes naquele dia, mesmo os mais céticos já tinham plena certeza: era impossível morrer no dia 6 – e a morte respeitava até mesmo os horários de verão.

Dada a certeza da imortalidade temporária, humanos de todas as partes praticaram os mais tresloucados atos. Dor ainda se sentia, importante observar, mas você se surpreenderia com a quantidade de pessoas a seu lado imediatamente agora que só não desfrutam dos mais terríveis suicídios por conta de sua acentuada fatalidade. Os suicidas, falando nisso, mas os suicidas legítimos, esses se afundavam no sofá e esperavam o tempo passar. Era dia de vida. Os hospitais, a propósito, lotavam. Não só de aventureiros, como de medrosos. Pavor de morrer na maca? esse era seu dia.

Apesar da pontualidade do fenômeno, todo mundo ainda se espantava e a TV e internet só falavam disso. Uma mulher, buscando ser célebre, cortou metade de seu corpo e costurou uma cauda de peixe no lugar. Apesar da dor lascinante e do fedor horrível, ela deu 24 horas de entrevistas e no dia seguinte ganhou uma morte com 8 mil vezes mais seguidores do que tivera em vida. Sua fama foi tanta que no ano seguinte lembraram dela nas reportagens – e tentaram superar. Um casal de canibais, por exemplo, transmitiu ao vivo no ano seguinte uma sessão em que se mordiam mutuamente. Presos, sobreviveram até o ano seguinte quando a repetição da façanha por 24h levou-os a óbito.

A coisa subiu a um patamar mais alucinado quando um doente terminal gravou um vídeo se matando – sem morrer – de todas as formas. Apedrejamento, tiroteio, atropelamento… lembro a vocês, a dor ainda existia. Depois da façanha, a internet rebatizou o dia seis de janeiro de Dia de Thomas. Thomas era, coincidência, o nome do doente terminal e da sereia. No ano seguinte, no entanto, o Dia de Thomas foi o dia com mais mortes em todo o mundo. Havia muita gente fazendo estupidez, pulando de pontes tentando alcançar camas elásticas e essas coisas. Só se foi notar que a morte desistira de seu projeto de férias quando era tarde demais.

Como o conhecimento da ciência é pequeno, satisfaço a curiosidade sobre a razão do fenômeno de seu início a seu fim: os cristãos estavam certos. O que fez os Reis Magos reverterem o milagre, porém, foi trocarem o nome do dia deles. Eles queriam fama tanto quanto o casal de canibais, mas no fim, ninguém deu crédito. Nunca, coitados, conseguiram deixar de ser acessórios do presépio.

* Hoje é dia do leitor e decidi fazer uma homenagem diferente. Esse texto me ocorreu após a deliciosa leitura de ‘Intermitências da Morte’, de José Saramago. Mais que recomendado.

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