Capítulo 3 – Nua e nova

Post-Capítulo-3

Trilha sonora do dia: Espumas ao Vento – Elza Soares

Voragem é a minha palavra preferida. Significa três coisas ao mesmo tempo distintas e sinônimas: pode ser tanto uma paixão arrebatadora quanto aquilo que é destruído em instantes e ainda pode ser o alto de um abismo. Sempre achei que levasse a vida com voragem, mas ontem, quando lia o dicionário, descobri uma palavra que não saiu mais da minha cabeça. “Hórrida”. Significa apenas “coisa muito feia”. Entendi que era assim que eu me sentia.

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Não acordei disposta, mas a primeira coisa que encarei no meu dia foi uma pilha de louças. Minha mãe e o Rubens decidiram fazer uma viagem de fim de semana para Caldas Novas para celebrar as primeiras férias dela em um ano e meio. Fui obrigada, então, a limpar a casa, cuidar das plantas e ouvir as reclamações da minha irmã em relação a mim – ela sentada e lixando as unhas calmamente enquanto eu esfregava o pano úmido entre as frestas manchadas da cerâmica. Foi ela quem fincou as raízes da palavra “hórrida” na minha cabeça.

– Menina, que cabelo é esse?

– Não enche o saco, Solange!

 

“Voragem pode ser tanto uma paixão arrebatadora quanto aquilo que é destruído em instantes – e ainda pode ser o alto de um abismo.”

 

– Se sua chapinha estiver estragada te empresto a minha. – enquanto ela falava, um vento vindo de não sei onde batia no chanel dela e fazia parecer como se estivéssemos num comercial de xampu. Minha resposta foi levantar o dedo médio.

– Olha a grosseria! Tenho que ir trabalhar, querida. Você ouviu falar do escândalo da diretora pedófila? É daquele colégio paramilitar que fica do lado da sua escola, sabe?

– Minha mãe falou alguma coisa.

– Fui eu quem descobriu! – disse ela balançando o cabelo vitoriosa.

– Você espera que eu te dê parabéns?

– É difícil ser irmã de um sucesso absoluto?

– De uma chata absoluta, é.

– Como você é desagradável, Soraya.

– Obrigado. Ah! Minha mãe pediu para comprar pão. Você vai de ônibus?

– Ônibus? – Ela sorriu de um jeito angelical e irônico que só ela sabe fazer. – Jamais.

– Imaginei… Traz o pão?

– Vai implorar?

– Vai se foder.

– Estou indo, baby. Foder os outros. – disse. – Mas como eu sou ótima, vou te emprestar meu pente. Parece que você não tem. E tá precisando – sorriu simpática, deixou um pente de madeira pendurado no trinco e bateu a porta ao sair.

*

Os comentários ácidos da minha irmã em relação à beleza geralmente não tem influência sobre mim – já que temos definições muito diversas dessa palavra. Aquela provocação quando meus cabelos, porém, fez ecoar na minha cabeça a definição de hórrida. Fui ao banheiro e ao acender a luz soltei um berro. Não era meu reflexo naquele espelho. Há dois meses meu cabelo não via tintura. Meu rosto estava sem meus sabonetes de enxofre anti-espinha e elas, aproveitando-se da minha fragilidade, estavam vencendo a guerra contra minha pele.

“Você não tem alma de morena, devia pintar o cabelo”.

A lembrança de Luís dizendo essa frase me arrebatou no meio do caminho para a porta de casa, justamente quando eu estava saindo para comprar a tinta platinada. A memória ainda era fresca, embora fosse do início de nosso namoro. Aquela foi a primeira vez em nosso longo relacionamento em que o Luís me sugeriu uma nova personalidade, uma sutil mudança de comportamento. Depois ele se tornou insistente e acabei me tornando argila, pronta para ser moldada segundo suas vontades imperiosas. Ele passou a sugerir meus gostos, minhas bandas prediletas, minhas posições diante de dúvidas existenciais. Aquele não era o meu cabelo. Era do Luís.

 

“Estava, ao mesmo tempo, nua e nova.”

 

No armário sob a pia encontrei as tesouras cegas, lâminas enferrujadas e um frankenstein composto pela união das três últimas máquinas de cortar cabelo do meu padrasto. Peguei o som, ouvi a voz metálica de Elza Soares entrando em mim e se completando com o barulho incessante do motorzinho. Estava tremendo, mas absolutamente certa da minha escolha. Coloquei a máquina na altura da minha testa e fui, aos poucos, me redescobrindo. Sem resistência, meu cabelo abria passagem – ainda assim, eu colocava força na máquina, apertava as lâminas contra a minha cabeça e sentia vontade de chorar. Mas era choro bom. Os chumaços de cabelo na pia pareciam pesar toneladas. Me senti mais leve e mais louca do que nunca. Percebi que estava deliciosamente feliz por estar careca.

 *

Meus fios de cabelo não ficaram nem cinco com centímetros, estava, ao mesmo tempo, nua e nova. Enquanto tomava banho, sentia os cabelos correrem de minha cabeça para o ralo, tingidos de vermelho pelo sangue das feridas que eu mesma havia aberto. Mas eu nem me importava. Não parecia meu corpo, parecia um corpo novo que me era dado de presente, com algumas cicatrizes, mas limpo.

 

“Percebi que estava deliciosamente feliz por estar careca.”

 

Minha mãe preferiu não comentar minha extravagância capilar, mas foi a única a fazê-lo. O Rubens, ao ver meu novo corte, disse que gostou e me apoiaria em qualquer decisão que eu tomasse, como se tivesse descoberto que eu era lésbica. Tia Rosa desaprovou retumbantemente, disse que eu não devia ter feito aquilo, que achava que ainda tinha jeito para um aplique que ela ia pedir emprestado (já evidenciando aí que ia espalhar a história da sobrinha descompensada para todo mundo).

Minha irmã, por fim, quis me internar em uma clínica psiquiátrica e me disse que eu estava fazendo tempestade em copo d’água, me “multilando” por causa de um namorico terminado. Ela não sabe que não era só um namoro, era voragem. No entanto, não liguei para nenhuma das opiniões, boas ou ruins. Sei que penso de uma forma diferente das demais pessoas. Estou acostumada à polêmica familiar. Sou eu quem voto na esquerda, quem chama biscoito de bolacha. Engraçado lembrar que a última ação minha que havia despertado tanta discussão aqui em casa foi justamente o início do meu “namamorico” com o Luís.

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