Recorte 10

Recorte-9O céu é cinzento, mas a luz, mesmo difusa, entra pela janela circular de meu quarto como se fosse um holofote. Vejo a poeira dançar no ambiente iluminado e me distraio, apesar de estar com os olhos trincados de sono. Não dormi nada. Me levanto, mas me mantenho atada às cobertas. Faz frio, faz tempo. Faz nada. Faz bem.

Minhas orelhas estão arroxeadas, elas sentem mais falta do meu cabelo que eu. Sinto a minha cabeça mais leve do que deveria: como pode um cabelo, coisa tão leve, tão invisível, pesar tanto? Acho que as coisas invisíveis são sempre as que pesam mais. Eu, porém, não sinto peso. Estou exausta, mas leve. Subo na cama e estico os pés para que possa colar a cara na janela e ver o sol que desponta pelas nuvens. Não vejo sol, não vejo perspectiva. Mas isso não me angustia. Não tenho nada para fazer hoje, não tenho ninguém para ver amanhã, não tenho para onde ir nesse mês. Mas estou em paz. Pacífica.

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