Entrecapítulo 3/4

Recorte-14
Trilha sonora do dia: ‘Amigo estou aqui’ – Toy Story

Acordei só no fim da manhã com uma ligação de Pedro. Ele me disse que estava “passando por Ceilândia” e nem me ocorreu de perguntar o que ele fazia passando por ali quando mora a bem uns 20 quilômetros de distância. Mas a gente não presta muita atenção a esse tipo de detalhe quando tem o nosso melhor amigo nos convidando para uma pizza. E eu fui. Conversamos sobre tudo, menos sobre meu presente tristonho. Queria uma tarde de alegria – e foi mais ou menos por aí que nós começamos a falar do começo de nossa amizade.

Converso quase todos os dias com Pedro pelo WhatsApp, mas acho que nunca tinha falado dele pra vocês. Esse capítulo é, então, só para descrever como chegamos até esse ponto de amizade: nos conhecemos no primeiro ano do ensino médio. Ele é meio boliviano ­– quase inteiro, os pais dele são de lá – e ele naquela época ele tinha o cabelo escorrido de semi-índio tingido de papel crepom azul e verde. Eu ainda tinha os cabelos morenos, não havia sido apresentada ao demônio e era um tiquinho mais magra.

Naquele dia que a gente se conheceu, ele estava tentando ajudar o que viria ser nosso amigo em comum Fernando a se recuperar de um ataque de valentões – sim, gostamos tanto de copiar os padrões americanos na minha escola que até as ferramentas de bullying são semelhantes. Cuecões, prática que deveria ser abolida depois dos seis anos de idade, ainda são uma forma de tratamento rotineira por lá (para quem viveu na santa paz da infância e não sabe o que é, clica aqui).

Fernando e Pedro haviam sido vítimas do abuso. Nos conhecemos na fila da diretoria: eu queria instruções de onde era minha sala, ele queria auxílio, mas não havia ninguém para atender. “É um absurdo!”, disse ele pra puxar conversa comigo. “Que porra de escola é essa que tranca todo mundo num pátio e não tem ninguém olhando?”. “Bem-vindo ao presídio”, respondi.

“Gostamos tanto de copiar os padrões americanos na minha escola que até as ferramentas de bullying são semelhantes”

Já fazem quase dois anos que isso aconteceu, então, desculpe, não lembro do diálogo por inteiro. Lembro que ele me contou a história do ataque contra o Fê, lembro que falei para ele do tanto que eu estava perdida. Lembro que ninguém nos ajudou e, principalmente, lembro do fim da nossa conversa. “Se ninguém ajuda a gente nessa merda, acho que deveríamos fazer justiça com nossas próprias mãos”, disse ele.

Nos vingamos dos valentões. Na verdade, não tínhamos meios de nos vingar apenas deles, então tivemos ideia de nos vingarmos da escola inteira. Tentarei resumir o plano maligno: a escola até hoje prega listas na porta de cada sala e diz onde cada aluno deve ficar. Há também uma lista geral no início de cada pavilhão – os blocos de sala não só parecem uma penitenciária, como seguem uma nomenclatura parecida.

“Se não tivesse sido tão divertido, até teria pedido ajuda dele para arquitetar uma nova vingança.”

Nosso plano foi arrancar e misturar todas essas listas, confundindo quem já havia visto com quem tava chegando. A mistura foi tão louca que ninguém teve aula naquele dia e levou-se uma semana para que os alunos tivessem certeza de qual era a sala – ou cela, como preferir – à qual eles haviam sido designados.

Brindamos com pizzas de calabresa esse momento meio vilão de novela de nossa biografia. Lembrávamos do passado como velhos e comíamos de boca aberta como crianças. Se não tivesse sido tão divertido, até teria pedido ajuda dele para arquitetar uma nova vingança. Mas quem precisa de ex-namorados quando se tem amigos?

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