Recorte 15

Recorte-16

Hortênsia não costuma nos visitar. Minha prima é mais velha que minha irmã, mas se comporta como uma adolescente mais jovem que eu. Hortênsia mora na casa do pai, que está preso, um homem que eu não vejo há muitos anos e que cometeu algum crime de extrema gravidade e que eu não tenho conhecimento – e tampouco vou perguntar.

Hortênsia apareceu hoje, porém, sem avisar, para um almoço em família – almoço esse que foi eu que fiz e nem estava tão bom. Era arroz, feijão e linguiça. Estávamos, como se vê, despreparadas. Minha prima, que engordou muito nos últimos cinco anos, não reclamou nenhum pouco – ao contrário, foi até elegante.

Ninguém falou nada sobre o por que do desaparecimento dela e todos sabíamos que assim que ela deixasse nossa casa levaria mais uma eternidade para voltar a falar com a mãe. Mas ninguém tentou convencê-la a ficar, não houve nenhuma conversa real, ninguém falou a verdade. Comeu-se, elogiou-se, perguntou-se do tempo do céu e do tempo da vida.

Só a despedida foi real, Tia Rosa abraçou a filha e deu um beijo lambuzado nas bochechas cheias de blush da filha. Elas estavam no portão e eu era abraçada por minha mãe a uma distância um pouco maior, mas ainda assim conseguíamos ouvir o que era dito. Tia Rosa beijou-a mais uma vez e sussurrou: “Perdoa, filha.”

– Eu tento, mãe. Eu estou sempre tentando.

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