Recorte 16

Recorte-15

Não escrevi ontem. Fui completamente incapaz de pensar em qualquer coisa além disso: “Nós não estamos à altura da civilização que construímos”. Fui assaltada por esse pensamento e roubei ele de uma peça da qual eu não tinha muitas expectativas, mas que arrasou comigo – ‘Projeto brasil’, da Companhia Brasileira de Teatro, no CCBB.

Poderia falar muitas coisas sobre esse espetáculo que usa um espírito pessimista e de fim de festa para falar de problemas pertinentes do brasil que não tem maiúscula. Poderia, mas não sou crítica de teatro e tampouco consegui pensar em muito mais coisas depois de ser tomada por essa frase.

Que frase. “Nós não estamos à altura da civilização que construímos”. Temos smartphones para pessoas idiotas. Temos Google Glass para uma sociedade cega. Temos WhatsApp e ninguém para perguntar como foi seu dia.

Chegay em casa tão assombrada por essa ideia que sequer tirei os sapatos antes de recorrer, ironia das ironias, ao Google. Digitei as palavras como as ouvi e descobri que elas fazem parte de um discurso do ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica (vale a pena ler, achei a íntegra não-oficial aqui). A frase, porém, não me sai da cabeça. Há um ditado que diz que a diferença entre a cura e a morte é a dose. Isso não se aplica só a remédios.

“Temos smartphones para pessoas idiotas. Temos Google Glass para uma sociedade cega. Temos WhatsApp e ninguém para perguntar como foi seu dia.”

Não sou contra a internet, não sou contra a tecnologia, é usando ela que eu me comunico com você. Mas isso não me desautoriza a pensar sobre ela. Você já parou para pensar sobre a quantidade de coisas que fazemos melhor dentro dessa tela do que fora dela? Melhor, você já pensou na quantidade de coisas que existem só nessa tela?

Há uma coisa engraçada: vivemos dizendo “como as pessoas viviam sem o Facebook? Como se conhecia alguém sem o Tinder?” Talvez não precisássemos de nada disso, até 20 anos certamente não precisávamos. Havia outros meios, menos eficientes, menos individuais, mas nem por isso menos úteis.

Ademais, qual a parcela de coisas úteis que fazemos com essas ferramentas? É muito bom poder saber como é que baleias amamentam, mas não é necessário. Sobrevivemos até aqui, mas e daqui em diante?

O físico é, por definição, limitado. É obsoleto ser humano, portanto. Há ferramentas para tudo no hoje, há novos tipos de olhos e membros nos aguardando nos horizontes. Ser carne e osso é perene demais para acompanhar a moda.

Almejamos ser imortais, tanto quanto a internet, a nuvem, os bits. Queremos estar em todos os lugares, como as fotos, a diversão, a música. Nós queremos estar à altura daquilo que nós criamos – mas, para chegar lá, ainda temos que criar muito, muito mais.

Não entendo muito de matemática, mas arriscaria dizer que estamos entrando em uma progressão geométrica – quem sabe não vivamos para acompanhá-la.

 

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