Capítulo 4 – Velha lembrança

Post-Capítulo-4

Trilha sonora do dia: ‘Eclipse oculto’ – Cazuza e Barão Vermelho

Eu estava aqui conversando com as minhas recordações e desde que a primeira lembrança decidiu sair do baú da memória, foi como se tivesse aberto a caixa de Pandora. Todos os monstros e neuras que tenho vêm filosofar comigo, me ajudar a analisar meu romance com Luís em busca da falha… Acho agora que o erro não foi o fim, mas o início.

Tudo começou no supermercado. Era – e ainda é – um desses mercados tipo os de cidade de interior, com nomes engraçados como Super Comadre. Um daqueles que só tem um disco de forró que toca ininterruptamente, o que com toda razão deve enlouquecer os caixas. Estava, nem lembro porquê, em um bairro especialmente perigoso de Ceilândia e queria ir embora dali antes mesmo de chegar, mas tinha uma lista de compras para fazer.

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Naquele dia, o dinheiro se resumia ao necessário a uma coca-cola dois litros, uma escova de dente e uma água oxigenada vinte volumes para a minha tia descolorir os pelos e achar que fica mais sensual dessa maneira. Se tivesse troco, um chocolate. O dinheiro, porém, não deu e por isso acabei comprando uma escova de dente de dinossauro que teria que usar por um ano, no mínimo – a recomendação odontológica é uma troca a cada três meses, li certa vez no jornal que minha irmã trabalha, mas quem tem disposição para esse prazo?

Saí de lá de bicicleta. Coloquei meus inseparáveis óculos escuros e o fone de ouvido e fui pedalando distraída e solar até minha casa. Quando virei a primeira esquina, surgiu, não sei de onde, um garoto na minha frente. Girei rápido o guidão com o impacto do susto e, quando percebi, já tinha atropelado o rapaz. Senti o meu cotovelo atingir o moço na altura dos rins e a catraca se esfregando nele. Saltei da bicicleta apavorada, a tempo de vê-la andar sozinha mais uns cinco metros antes de cair. Fui correndo ver o que tinha acontecido com ele. O pedal da bicicleta tinha lhe feito um corte no joelho que me pareceu na hora estar sangrando litros.

“Senti o meu cotovelo atingir o moço na altura dos rins e a catraca se esfregando nele.”

– Moço! Perdão! Eu juro que não te vi, mesmo…

– Tá tudo bem.

– Olha! Me desculpe mesmo. Você tá bem? Quer ligar pra alguém, ir pro hospital, sei lá?

– Você poderia me emprestar o seu celular?

Obedeci praticamente sem tirar os olhos da ferida.

– Meu deus! Eu acho que eu não vejo um celular desse seu há uns dez anos.

– É… Ele é meio velho mesmo.

Ele foi tentar levantar se apoiando com a perna cortada e caiu de novo. Eu segurei as costas dele e passei seu braço ao redor de meu ombro rechonchudo.

– Tá tudo bem?

– Tá. Eu já vou telefonar.

– Não se importe não. Pode demorar o tanto que você quiser.

“Talvez aquele garoto tivesse perdido a memória, ou mesmo não se lembrasse mais de como era usar um telefone que não era smart, não acessava a internet, mal tirava foto.”

Falei isso, mas estranhei, de qualquer forma, a demora. Talvez aquele garoto tivesse perdido a memória, ou mesmo não se lembrasse mais de como era usar um telefone que não era smart, não acessava a internet, mal tirava foto. Enquanto eu me distraía fazendo conjecturas, ele tirou um celular de última geração do bolso (!?) e começou a anotar o número do meu telefone – que eu, burramente, até hoje deixo salvo na lista de contatos como “meu celular”.

– Ei! Quê que você pensa que você tá fazendo?

Ultrajada, tirei o celular da mão dele e fui buscar a minha bicicleta furando o chão com os calcanhares. Para minha surpresa, ele levantou e correu atrás de mim. Correu. Aí o meu ultraje se elevou a categoria de total perplexidade. Foi quase como se um cadeirante se levantasse calmamente e subisse os degraus de uma escadaria carregando a cadeira nas costas e assoviando.

– Ô, menina! Espera aí! Você me atropela e vai embora sem prestar socorro? Eu posso te processar por isso, sabia?

– E eu posso te processar por invasão de privacidade.

Ele sorriu. Ele era realmente muito bonito, apesar de não ser nada parecido comigo. As roupas que ele usava (boné, cordão e camiseta estampada) já gritavam que a personalidade dele era a oposta da minha. Ele estava todo sujo e rasgado, porém, e com um sorriso que dali em diante teria o dom de me desarmar sempre. Resolvi parar para ouvi-lo.

– Não vamos colocar a polícia nisso.

Ele estava todo sujo e rasgado, porém, e com um sorriso que dali em diante teria o dom de me desarmar sempre.

E ele me beijou. Me beijou assim, como se já fossemos conhecidos, como se estivéssemos em uma festa – como as pessoas deveriam fazer mais vezes. Ele puxou minhas costas e me apertou contra ele. Tentei me soltar, mas ele era muito forte (ou talvez eu já não quisesse mais me soltar como antes). Ele descolou os lábios dos meus, mas continuou me mantendo amarrada entre seus braços levemente esculpidos.

– Agora posso te processar também por assédio sexual. – disse eu.

Ele gargalhou de verdade. Não queria rir, mas a risada dele era tão engraçada que parecia um pato rouco. Ele me beijou de novo. E quando eu realmente precisava parar para respirar, ele continuou a pressionar minha cintura e descobrir o relevo da minha boca com sua língua. Pensei que não fosse acabar… Seria ridículo morrer asfixiada assim. “Mas seria ótimo”, me lembro de ter pensado. Ele me soltou, enfim, mas eu não sabia o que fazer a não ser tomar ar e rir. Ele se adiantou estendendo a mão:

– Meu nome é Luís.

Eu sorri sem graça.

– Muito prazer, meu nome é Soraya.

– Prazer não, satisfação. O prazer vem depois.

– É uma cantada péssima. – respondi, ainda que estivesse sorrindo. – Bom… Já que é óbvio que você está bem, eu tenho que ir.

– Satisfação. – manteve ele.

– Se você parar para pensar, vai perceber que é preciso prazer primeiro, e muito, para se chegar na satisfação. – desafiei.

– Você está pegando o espírito!

– Tchau.

–Tchau não, até logo. Eu vou te ligar ainda hoje.

– Ah! Tá bom.

– É sério. Eu tenho seu número.

*

 

Fui pra casa um pouco desnorteada. Nunca tinha beijado antes ninguém fora da escola, da minha vizinhança ou de uma festa. Os meninos eram quase sempre colegas. Poucas pessoas têm a oportunidade de beijar totais desconhecidos e recém-atropelados na rua. É uma coisa que só se espera em comédias românticas, não da realidade. Mas quer coisa mais imaginativa do que o mundo real?

O que mais me surpreendeu, porém, foi o que se seguiu: ele realmente me ligou, ao contrário de todos os desconhecidos e conhecidos anteriores. Tínhamos muito o que conversar, até por não termos conversado absolutamente nada, mas eu desliguei logo porque não me lembrava do nome dele e ele ainda se lembrava do meu.

“É uma coisa que só se espera em comédias românticas, não da realidade. Mas quer coisa mais imaginativa do que o mundo real?”

Nós fomos ao cinema e de fato assistimos o filme! Ele ficou horas tentando passar o braço pelo meu pescoço, mas não tinha coragem. Todos os outros não esperavam nem o trailer! Foi até engraçado ver que ele era inseguro depois do nosso incomum começo. Hoje entendo de forma diferente as coisas, contudo. Ele não era tímido, mas fingia que era. Foi o charme que ele criou para si mesmo e que brevemente cairia por terra – apenas quando, porém, eu já estivesse caída por ele. Na manhã seguinte, vi que ele havia me adicionado em todas as redes sociais que eu tinha conta ao redor do globo.  Não achei esquisito na época. Agora acho.

Ele não gostava de artes, o que era – ou ainda é, sei lá – um grande defeito.  Luís é treze meses mais velho que eu, mas estávamos cursando o mesmo ano já que ele era um colecionador de notas vermelhas. Ele estudava em uma escola particular de Ceilândia, eu numa pública do Plano Piloto – no fim, a qualidade das duas coisas é muito parecida. Foi essa a desculpa que ele usou para se aproximar ainda mais de mim. Quando voltamos a sair, ele disse que pensava em se mudar para o mesmo colégio que eu. Não acreditava que a ideia iria adiante ­– mas foi. Na nossa relação, desde o princípio, tudo acontecia de uma hora para a outra.

Quando as aulas voltaram, fiquei feliz por ele não ter caído na mesma sala que eu. É um saco quando os namorados estudam juntos. Naquela época, ele era muito grudento por que eu era a única pessoa com menos de trinta anos que ele conhecia no centro de Brasília. Até em Ceilândia ele era novo. A família do Luís tinha vindo de um município em São Paulo que era tão pequeno que nem tinha uma página na Wikipédia (por curiosidade fui conferir e, agora, Guararema já tem seu perfil na enciclopédia livre).

“Não acreditava que a ideia iria adiante ­– mas foi. Na nossa relação, desde o princípio, tudo acontecia de uma hora para a outra.”

Nós decidimos com o tempo que estávamos namorando. Não houve nenhum pedido formal, foi uma convenção mesmo. Tínhamos um romance muito nosso, era um carinho mútuo, mas que não era alimentado. Não combinávamos muito em quase nada, muito menos pelo costume dele de fumar maconha todos os dias às quatro e pouco – o que eu vim descobrir só séculos depois que estávamos juntos. Uma das poucas opiniões que consegui manter como inabalavelmente minhas foi a de recusar assistir ou de participar das rodinhas de baseado, não por medo das sanções judiciais, mas por medo de mim. Acho que me viciaria no primeiro trago.

*

Apesar de todas essas adversidades, o Luís e eu nos apaixonamos perdidamente, ou era pelo menos nisso que eu costumava acreditar. Em pouco mais de dois meses, um já completava as frases do outro. Ele conheceu todos meus amigos e eu conheci a família dele. Adorei o Flávio logo de cara. Ele tinha mania de fazer careta pra mim nas horas mais sérias das reuniões familiares deles e eu caia na gargalhada, mas só o Luís e minha sogra que ficavam com raiva. A mãe dele, a propósito, me detestava. Mesmo que jamais tivesse tentado conversar comigo mais do que o “boa tarde”, dizia ao filho que eu me achava e que queria ser a espertona. No olhar dela, via que ela me achava feia e gorda demais para estar com seu primogênito. O pai dele, em oposição, gostava da minha companhia. Ele fazia uns churrascos sem motivos para comemorar e sempre tinha uma nova piada pornográfica pra contar – eu só ria naquela casa, não dizia nada.

Apresentei Luís só pra minha mãe porque meu pai quase comera o fígado fresco da minha irmã quando ela apresentou o primeiro namorado dela. Minha mãe não gostou do Luís, embora ela tenha tentado disfarçar. Me disse que ele tinha cara de bandido, que ela não tinha boa intuição quanto a ele. Achei que minha mãe era apenas espiritual demais. Eu tinha um namorado lindo, que me amava como eu era, não era tempo de dispensá-lo apenas por conta de uma intuição.

“Apesar de todas essas adversidades, o Luís e eu nos apaixonamos perdidamente, ou era pelo menos nisso que eu costumava acreditar.”

Luís, porém, não ajudava ninguém a defendê-lo. Ele não sabia cozinhar e comia tudo da geladeira sem pedir licença; falava abertamente em legalização do porte de drogas – assunto sobre o qual ele se achava inteligente e absolutamente perigoso na minha casa. O Rubens, meu padrasto, detestou o rapaz quando ele falou que sonhava em ser jogador de futebol, essa era sua única ambição. Como eu pude relevar tanto? Gostava muito pouco de mim, acho.

Não posso negar, entretanto, que fui muito feliz. Ele era engraçado, adorava quando eu não penteava o cabelo. Saíamos constantemente. Eu fazia os deveres de casa dele e ele me falava sobre o que pensar sobre a truculência policial. Ele estava a um passo de ser bandido. Eu estava a um passo de ser a mulher dele. E era estranhamente bom. Todas essas coisas que me cegaram. Me sentia desejada pela primeira vez no mundo. Ele foi tão bom que eu fui me vendando quanto ao que havia de mal.

“Não sabia ainda que os relacionamentos não perecem das grandes causas, mas que morrem justamente nos afastamentos do cotidiano.”

Não percebi a infelicidade quando ela bateu à porta. Não sabia ainda que os relacionamentos não perecem das grandes causas – como quando ele descumpriu a promessa de parar com as drogas – mas que morrem justamente nos afastamentos do cotidiano. Com o tempo, conversava mais com o Flávio do que com ele. Não me atentei ao fato do Luís ficar mais tempo no computador do que o tempo que ficamos juntos. O Playstation era uma namorada muito mais presente que eu. Era como se fossemos casados, eu era da família e por isso já não despertava aquele desejo nele. Não do tipo que ele despertava em mim. Não percebia, não admitia, mas tinha vocação para a submissão.

*

Eu hoje o vi. Quando percebi que ele estava saindo da estação de metrô que eu planejava entrar, me escondi atrás da pilastra de um comércio irregular. Ele se preparava para montar na bicicleta. A mochila de roqueiro, a camisa de rapper, o olhar de menino. Me senti ridícula, mas ainda não tô preparada pra falar com ele – ainda mais sem cabelo nenhum na cabeça. Ao menos não estou mais tão depressiva e suicida, mas não estou nem perto de me sentir confiante. Quando ele passou, estava com uns papéis amassados na mão. Acho que ele vai trocar de novo de colégio. Talvez seja melhor assim, será mais fácil esquecê-lo de vez.

“A mochila de roqueiro, a camisa de rapper, o olhar de menino.”

Mas não posso dizer que estou de todo triste. Parei de ficar vigiando os perfis dele nas redes sociais. Assisti todas as temporadas dos meus seriados preferidos. Minha irmã fez brigadeiro para nós e me disse que ia me comprar uma peruca assim que possível. Conversei com ela desarmada dos gritos e ela também deixou as ironias por alguns instantes. A Solange tem um coração por debaixo da pedra e me deu dicas valiosas sobre o que sabe do amor. Talvez o futuro guarde uma boa novidade para eu e o Luís, mas, por enquanto, ele se tornou apenas uma lembrança. Uma má, uma boa, mas uma velha lembrança.

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