Recorte 21

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Na minha rua havia um bosque. Um “matagal”, diriam os pessimistas, mas eu e minha mente de menina dizíamos que era um bosque. Era mato nas canelas, árvores retorcidas e o  melhor esconderijo no pique-esconde.  Éramos tão bons nessa coisa de esconder que escondemos o bosque inteiro. Um dia, cercaram. No outro, derrubaram a casa do vizinho do “beco”, como corrigiu minha mãe. Era um beco para o crime, um atalho para os pedestres e um reino para mim. Virou um prédio para todos nós. Prédio pequeno, cinza, sem graça. Só há uma coisa nele que eu gosto: no terceiro e último andar, um morador pintou a varanda de cor um roxo quase preto, cor de amora. Amoras como as que davam no pé em que eu, princesa infantil, governava.

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