Entrecapítulo 4/5

Entrecapitulo-3

Na próxima segunda minhas aulas voltam [sim, uma semana antes do Carnaval, mas é a vida]. Prometi que passaria um fim de semana na casa do meu pai desde que as férias haviam começado, mas eu adiei essa necessidade até o último minuto. Por mais que já esteja com as minha emoções restabelecidas, nem no meu melhor estado consigo engolir inteiramente as maledicências de Yvonne, minha jovem, imatura e má madrasta (saiba mais sobre no Capítulo 2).

Ontem, obrigada pela minha mãe, coloquei uma muda de roupa na mochila e igualmente muda fiz o trajeto de três viagens de ônibus para chegar na casa do meu pai, no Jardim Botânico. Quando era menina, adorava ir para lá, tomar banho de piscina, desfrutar de uma aparência de riqueza e, ao mesmo tempo, planejar a morte de Yvonne.

Veja aqui as instruções de que formas você pode acompanhar a história

“Agora, tudo me parece apenas uma idiotice completa.”

Agora, tudo me parece apenas uma idiotice completa. Estamos apenas cumprindo com nossas obrigações sociais: meu pai me ama, mas não faz questão de me ver; eu até gosto do meu pai, eu cá, ele lá; Yvonne me odeia e, portanto, talvez seja a que mais anseie por esse encontro. Ela adora me ver “grandinha” para jogar na minha cara os atentados que cometi contra ela na infância. Bobagem dela, não me arrependo de nenhum.

Vejamos alguns: 1) Joguei meu tamanco do É o Tchan! na cabeça dela. 2) Coloquei um balde na porta para cair na cabeça dela quando ela entrasse.3) Até coloquei mel na cabeça dela achando que conseguiria atrair abelhas o bastante para ceifarem-lhe a vida. Bom, no fim, já fiz muitas coisas com a cabeça dela.

E foram essas as histórias que ela contou durante o jantar – o que só me deixou com vontade de jogar o prato na cabeça dela. Segui a deixa do meu pai, porém, e fingi que estava me divertindo. Eles dois tomaram uma garrafa de vinho e eu os deixei lá, vomitando gargalhadas sobre a macarronada, e fui dormir no colchão que improvisaram para mim na sala de televisão.

“Eu os deixei lá, vomitando gargalhadas sobre a macarronada, e fui dormir no colchão que improvisaram para mim na sala de televisão.”

Hoje pela manhã, antes que eles fossem para o trabalho, meu pai teve a adorável ideia de me levar a uma papelaria para comprar o material escolar antes do início das aulas. Já sou velha para isso, mas ainda me encanto por canetas coloridas, colas com glitter, bandeiras impressas em lápis e todos esses artífices que a indústria usa para atrair crianças. A parte ruim da ideia: Yvonne foi conosco.

Uma pessoa tem que ser muito desagradável para me tirar o prazer de comprar borrachas e lapiseiras. Ela, porém, jogou mais baixo do que eu imaginava. Fingindo que se afastava do meu pai, mas se certificando que ele ainda estivesse perto o bastante para ouvir, Yvonne me tomou pelo braço e disparou, seca:

– Soraya, você é lésbica?

A notícia me pegou tão de surpresa que furei meu dedo com um lápis. Eu não sabia o que responder, mas ela foi mais rápida do que meu estupor.

– Notei o seu corte de cabelo…

– Você está julgando meu corte de cabelo?

“Eu atirei o lápis que estava na minha mão no chão de tanto ódio. Minha raiva partiu a madeira e o grafite, mas minha vontade era partir a cara dos dois.”

– Não estou julgando, nem teríamos problema se você tivesse essa opção sexual, eu e seu pai temos até uns amigos…

– Cala a boca, Yvonne. Ia ser melhor se você apenas calasse a boca.

– Soraya, respeite sua madrasta – disse meu pai.

Eu atirei o lápis que estava na minha mão no chão de tanto ódio. Minha raiva partiu a madeira e o grafite, mas minha vontade era partir a cara dos dois.

– Respeito não se exige, se conquista, mas vocês são imaturos demais para perceber isso. Eu quero ir no carro buscar as minhas coisas. Agora.

Quando eu cheguei em casa, minha mãe já tinha recebido a notícia. Estava mortificada de ódio e sentia minha raiva se acumular como lágrimas na base dos olhos. Minha mãe me abraçou e disse: “você perdeu uma ótima oportunidade de dar um tapa em alguém hoje.” Eu a encarei surpresa. “Brincadeira, filha”. Só que não era brincadeira.

 

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