Capítulo 5 – Trágica subida

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Trilha sonora do dia: ‘Ninguém é igual a ninguém’ – Vanessa da Mata

Primeiro dia de aula, Dr. Leitor! Rever os amigos, rir um bocado, sacanear os novatos, imitar os professores e todas essas coisas mais que fazemos. Sempre fico desesperada, a ansiedade é tanta que acordo muito antes do despertador tocar. Me banhei às quatro da manhã, tomei café voando e coloquei todas as roupas novas que tinha. Pouco me interessa o calor, finalmente ia sair da masmorra da minha casa e, pela primeira vez em um ano e meio, eu ia fazer isso como uma mulher solteira – era preciso um fino trato. Minha mãe veio me acordar uma hora e meia depois de eu ter levantado.

 

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Leia o Capítulo 4

Leia o Capítulo 1

 

– Você cortou ainda mais o cabelo, menina?

– Nada. Ele só tá bagunçado.

– Tem certeza?

– Eu saberia, mãe!

– Por que eu tinha que ter filhas de tanta personalidade?

– A Solange só é louca.

– É o mesmo que ela diz de você.

*

 

Peguei a minha Polaroid embaixo da cama. As pessoas sempre têm um hobby, mas eu tenho uma paixão: fotografia. Um dos sinônimos da palavra fotografia é instantâneo – essa palavra resume o que me faz adorar tirar fotos, é como eternizar um sentimento que é passageiro por essência. Penso até em ser fotógrafa no futuro, mas meu eu de 2054 tem tantas profissões… Coloquei a câmera na mochila e sai sem tomar café. Pegando o ônibus depois de seis da manhã, não se chega a tempo em nenhuma possibilidade – a menor opção de engarrafamento leva uma hora e meia, e é com sorte.

No meio da avenida e do engarrafamento, ouvia no celular o CD de Vanessa da Mata e, assim, a vida urbana não parecia tão ruim. Em um verso, passaram-se 30 quilômetros. “Trágica subida, montanha-russa. Fino corte sem sangue, desilusão. A morte em vida“, bonito isso, né? Eu achava poético, mas descobri que era profético. Estava a caminho da minha trágica subida sem perceber – e me divertindo nesse ínterim.

 

“Estava a caminho da minha trágica subida sem perceber – e me divertindo nesse ínterim.”

 

Tive mais sorte do que o imaginado, porém, e cheguei meia hora antes – não do horário, mas de abrirem os portões do colégio. Graças a Deus, a V, minha amiga de infância, também já estava por lá. Ela, distraída, olhava para o céu recém-amanhecido sentada no meio-fio do estacionamento. Uma árvore seca estava perfeitamente alinhada com o black power dela, lembrando uma imensa coroa. Não perdi a oportunidade e tirei a foto. Se havia, de fato, uma soberana do Centro de Ensino Médio 1, era a V. Ela só me percebeu quando eu estava prestes a sentar ao seu lado e abriu seu sorriso de clarear a vida.

– Amiga! – disse ela me jogando em seu abraço ossudo – O que você fez com seu cabelo?

– Oi pra você também, V.

– Tá curtíssimo!

– Está.

A-do-rei!

 

“Eu e ela nos sentávamos lado a lado e eu tinha um giz de cera cor-de-rosa mais bonito que o dela. Quando se é criança, isso é mais que motivo para uma aproximação.”

 

E então ela soltou uma das suas risadas retumbantes. A V soava como um pássaro raro, como se tivesse a risada de uma tucano. Tudo nela é especial e encantador. A V é minha amiga mais antiga com a qual ainda mantenho algum vínculo. Nos conhecemos desde a terceira série, quando ela ainda não havia proibido a todos de pronunciar seu nome. Eu e ela nos sentávamos lado a lado e eu tinha um giz de cera cor-de-rosa mais bonito que o dela. Quando se é criança, isso é mais que motivo para uma aproximação.

A V mora em Taguatinga, mas só por determinismo dos mapas – na prática, moro mais perto dela do que do morava do Luís, mesmo estando em regiões diferentes. De tantas trocas de visitas e de pertences ao longo da vida escolar, nos tornamos amigas inseparáveis (sempre que uma muda de escola, a outra acompanha), embora nossos gênios tenham evoluído de formas inversas. Ela é muito linda, modelo desde quando eu posso me lembrar. Dizem que ela tem um: “tipo muito brasileiro” – ou seja, ela é negra dos cabelos cacheados, absolutamente linda e pesa menos do que esse livro.

A V trabalha como modelo desde que somos muito novas – dinheiro extra, na situação das nossas famílias, nunca é demais. Ainda estou decidindo se é bom para meu amor próprio me manter próxima a ela. A cada mês, a V troca completamente de cabelo. Ela já havia usado tranças, lisos, cacheados, verdes, pretos com luzes cinzas, no ombro, no quadril, chanel… E eu aqui, careca. Mesmo com o evidente destaque dela, ficamos tirando fotos juntas na minha câmera.

Enquanto isso, a V me contou dos desfiles que ela fez nas férias, dos saltos maiores que uma escada, de ter visto o Alexandre Herchcovitch, e várias outras coisas que fizeram eu me sentir em um episódio de Sex And The City. Repentinamente ela usou seu velho código e jogou os cabelos para cima – não importa qual o penteado, esse é o sinal que ela está mudando de assunto.

 

“Decidi não contar nada para ela, não por que ela não devesse saber, apenas por eu não querer mexer na ferida recém-cicatrizada.”

 

– Mas eu estou falando demais aqui! E você? Por que não atendeu o telefone as férias inteiras? Eu tinha conseguido um ingresso para você ir no desfile, sabia? Minha tia não tem mais saco para ir, então agora eu estou sem plateia – riu-se.

Também ri e me dei conta de que não tinha feito nada durante as férias. Tentei parecer o mais casual possível quando ela me perguntou aquilo e decidi não contar nada para ela, não por que ela não devesse saber, apenas por eu não querer mexer na ferida recém-cicatrizada. Inventei uma crise de rinite, algo extremamente plausível para o clima de Brasília, e disse que tinha ficado fazendo os trabalhos da faculdade da minha mãe ­– já tinha te falado que minha mãe está fazendo faculdade à distância, Dr.? Pedagogia. Quer dizer, eu estou fazendo mais do que ela, mas não me incomodo, não. Ainda assim, era mentira. Minha mãe também estava de férias no verão, mas eu precisava de uma desculpa. Como uma boa aspirante a poeta, criei os mais diversos casos para ocupar minhas fictícias férias e a V não desconfiou de nada.

Só nesse momento que começaram a chegar mais pessoas no colégio. Minha escola tem todo o tipo de gente, em sua maioria, apenas variações dos tipos de idiota. Como a maior escola pública da região central da minúscula capital, aqui aglomeram-se todos os filhos de pobres que tem alguma esperança de vida de um raio de quarenta quilômetros. Os pais são esperançosos, os jovens vazios e sem ambição. Sonhar não custa, mas é a coisa mais inalcançável para a multidão que me cerca no CEM 01. Aqui nem os professores acreditam quando eu digo que serei uma escritora e compositora um dia.

 

“Os pais são esperançosos, os jovens vazios e sem ambição. Sonhar não custa, mas é a coisa mais inalcançável para a multidão que me cerca no CEM 01.”

 

Quando os portões abriram, pude analisar bem as caras novas. Como diz o nome, nossa escola é só de ensino médio, por isso os novatos do primeiro ano sempre se ferram e nunca conseguem se esconder. Não dá pra disfarçar, você fica de boca aberta olhando a escola inteira por causa do tamanho – um elefante branco: enorme e inútil. A mochila também condena os calouros, que são os únicos que as levam com todos os livros nos primeiros dias (“vai que tem aula de biologia, mãe”), enquanto todo o resto nem leva caneta.

Todos estes novos estudantes ao nosso redor começaram a se organizar para assistir à palestra do diretor no auditório minúsculo e bolorento. Fiquei olhando os que chegavam, umas pessoas realmente estranhas, outras que claramente não eram do nosso estado e em alguns casos nem eram do nosso país. Havia gente de todos os tipos: playboys que ouvem rap, meninas árabes de lenço no meio do calor da seca, os impossíveis de classificar e até os impossíveis de determinar o sexo. No meio da muvuca, vi o Flávio entrando no auditório com um ar de segurança, mas que não disfarçava o medo. Ele estava no segundo ano, mas parece que a mãe dele finalmente entendeu que escola particular onde a gente mora é colocar dinheiro no lixo. Nem sinal do irmão cretino. Dei um animado tchau pra ele, que respondeu com um aceno que beirava o desespero, mas ele não conseguiu se aproximar, tão lotado que estava o auditório.

 

“Havia gente de todos os tipos: playboys que ouvem rap, meninas árabes de lenço no meio do calor da seca, os impossíveis de classificar e até os impossíveis de determinar o sexo.”

 

As caras novas, porém, não eram só de jovens calouros. A escola está cheia de alunos novos, com quase o dobro de estudantes ao qual nos acostumamos, tudo por conta dos riquinhos da escola fechada. Ah, verdade, você pode não saber a história por trás do fechamento da Escola da Cruz de Fogo, apesar de já termos falado dele por alto. A instituição de alto grau de “exigência e excelência”, como dizia o slogan, era vizinha do CEM 01 e as relações entre os alunos quase pobres e os alunos quase ricos divididos por uma grade só sempre foi muito tensa. Cruz de Fogo tinha alunos da nossa idade educados em um regime espartano de disciplina, que alguns dizem, incluía até internato.

No fim do ano passado, porém, minha irmã descobriu de uma amiga dela na delegacia que a diretora da escola estava sendo acusada pelos pais de um dos adolescentes de mandar que ele ficasse nu na presença dela e de ter “tocado” nele. Bastou minha irmã escrever isso no jornal ­que a carreira dela como repórter alavancou – enquanto a escola foi para o buraco. Não levou duas semanas, estava fechada e a diretora foi para prisão preventiva. Os adolescentes de lá foram transferidos, de última hora, para adivinha onde? O meu colégio, claro – feventando as tensões que já existiam antes da queda do muro. Como as matrículas foram automáticas, eles nem tiveram tempo de fugir para outras particulares – até por que as outras eram para ricos de verdade, não para os que acham que são ricos – o que acabou juntando essas duas multidões no mesmo inferno. Já deu para entender por que eu pressinto que isso não vai dar certo.

 

“Feventando as tensões que já existiam antes da queda do muro.”

 

Enfim, auditório lotado e praticamente só eu e a V de veteranas. Assistimos a palestra do diretor Tavares pela terceira vez na nossa vida. O discurso dele não muda uma vírgula de um ano para o outro – o mais impressionante é que todo ano as pessoas batem palmas exatamente nos mesmos instantes, parece até programa de televisão.

– Caraca. – falou V do nada – É o nosso último ano de escola.

– É…

– Dá medo, não?

Olhei para ela e sorri. Demos as mãos e eu disse que tinha certeza que acontecesse o que fosse, ainda seríamos amigas. Ela me esticou o dedo mindinho e eu o enlacei. Nosso gesto símbolo de amizade – que eu nem lembro como foi criado.

*

 

Assim que o discurso do diretor acabou, os meninos chegaram. O Pedro e o Fernando completam o nosso quarteto fantástico. Eu e V éramos amigas e conhecemos os meninos quando entramos nesse colégio. Eles já eram amigos e as duas duplas se uniram em uma coisa só. Até hoje, porém, não entendo o motivo deles terem se aproximado.

 

“Pedro e o Fernando completam o nosso quarteto fantástico.”

 

O Fernando é a versão masculina da V. Ele tem um sex appeal, um poder sobre as mulheres que é sem precedentes e ele, infelizmente, sabe com usá-lo para o mal. Além disso, ele tem uma voz de locutor de rádio, sabe tocar violão e bateria, é vegetariano e tem um cabelo longo… Indescritível. Um Kurt Cobain dos trópicos.

O Pedro (já falei dele no Entrecapítulo 3/4) é o oposto disso tudo, começando pelo cabelo. Preto como os de seus pais – os costureiros bolivianos Sr. e Sra. Sarcos, dos quais só vejo foto –, os fios brilham de tanta sujeira. Pedro é um nerd completo. Usa uns óculos de fundo de garrafa e umas roupas que não seriam adequadas nem para doação em asilo. Estou soando maldosa ao descrevê-lo? É por amá-lo. Me sinto tão próxima ao Pedro que já não posso mais definir a distância espiritual que nos separa. Namoraríamos, sem dúvida, se ele não conhecesse tantos segredos meus. Quem sabe assim, com menina para levar pelo braço, ele fosse mais feliz?

 

“Me sinto tão próxima ao Pedro que já não posso mais definir a distância espiritual que nos separa. Namoraríamos, sem dúvida, se ele não conhecesse tantos segredos meus.”

 

– Meu deus! O que você fez com o seu cabelo, Soraya?

– É, eu acho que vou ouvir muito essa pergunta hoje.

– Mas eu gostei. Ficou bonito.

– Você me pareceu meio sarcástico, Fernando.

– Por que vocês não chegaram no primeiro horário? – interrompeu a V.

– Eu não. Ver essa mesma palestra pela terceira vez? Não, muito obrigado. – respondeu o Pedro como se tivesse narrando um grande evento. Ele tem essa mania de falar como se estivesse em uma tribuna fazendo um discurso para as massas.

– E ai? Vocês já trocaram as listas de lugar? – questionou Fernando.

– Não, a gente tava esperando vocês – eu respondi.

– Massa!

 

“Meu coração voltou ao descompasso.”

 

Vou explicar essa história das listas. Todos os anos a direção da escola remaneja as turmas e, para ajudar os alunos novatos a encontrar as salas no mar de corredores, eles pregam folhas nas portas das salas com o nome da cada um. Quando chegamos nessa escola, no primeiro ano, os veteranos eram bem piores. Ficamos muito bravos na época em que recebemos o nosso trote – cuecões violentos a ponto de rasgar a cueca de Fernando – e, como vingança, nós trocamos as listas das portas. Resultado: os alunos que olharam a folha antes da troca entraram na sala certa, mas depois pensaram que era a errada.

E os alunos que não tinham olhado ficaram pensando que estavam na sala certa mesmo estando na errada. Era gente do terceiro ano misturada com do primeiro, enfim, uma bagunça. Os professores só conseguiram arrumar tudo quando já estava no último horário. Para deixar o processo mais randômico e rápido, na segunda vez nós saímos arrancando as listas e depois embaralhamos tudo e um minuto depois as tabelas já estão trocadas. Mesmo sendo tudo ligeiro, sinceramente, não sei como nenhum professor até hoje não pegou a gente. Talvez nem eles estejam muito afim.

 

“Ela tinha soltado as listas que estavam em sua mão e o vento fazia as folhas rodopiarem a seu redor.”

 

Começamos então nossa última troca de listas. Correndo, desgrudando tudo e trocando bolos de papeis. Estava à beira da diversão. Eu e V ficamos com o segundo pavilhão de salas e estávamos rindo e com uma ótima média de tempo até chegarmos à décima segunda sala.  Quando eu peguei a lista, o primeiro nome que bati o olho me gelou a espinha: “Luís Malta”. Meu coração voltou ao descompasso.

Eu já tinha me convencido que meu ex-namorado tinha mudado de escola, de modo que havia esquecido que isso era só uma hipótese criada por mim. Quando me dei conta do bolo que sentia na traqueia que entendi que já tinha passado toda a mágoa que sentia dele e que eu já estava pronta pra conversar. Meu coração estava transbordando de ansiedade. Pensei nisso tudo em um bilionésimo de segundo.  Tinha que contar pra minha amiga que o Luís estava ali – e por que isso era bom. Olhei sorrindo para a V, mas ela estava com uma cara atônita olhando o portão. Ela tinha soltado as listas que estavam em sua mão e o vento fazia as folhas rodopiarem a seu redor. Eu, então, segui seu olhar.

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