Capítulo 6 – Eu, o silêncio

Capitulo-6

 

Seguir o olhar da V me liquefez o cérebro. Atravessando os portões do CEM 01 como se recém-saído da roda da fortuna estava Luís de mãos dadas com a Júlia. Um casal formado pelo meu ex-namorado e outra mulher. Pareciam namoradinhos de filme adolescente americano, ele estava com o braço em volta do ombro dela – só para que eu visse. Veio andando, cumprimentado todos os amigos e ela pendurada nele como uma estrela gorda na árvore de natal, incongruente com o resto, envergando a realidade. Júlia desfilava com um sorriso de orelha a orelha, brilhando mais do que o relógio de falso ouro dele. Mostrando-o para todos. Mostrando-se. Se ele era o troféu, o que dizer de quem o perdeu?

Eu era um fantasma, um átimo de pessoa. Inferior ao cocô do cavalo do bandido. Menor. Diminuta. Eu não queria apenas ser invisível, eu queria ser o silêncio: algo impossível de sentir, que não pertence a esse mundo, que não deixa margas. O simples nada.

*

Veja as instruções de como acompanhar a história

Leia o Capítulo 5

A minha história com a Júlia é longa, mas é necessário contar ao menos o mínimo para você para que o ódio que me implodiu seja justificado – como se a situação em si já não bastasse. Não costumo me dar muito bem com pessoas muito parecidas comigo e a Júlia é igual a mim. Meu clone em versão 2.0. Sei pouco da história de vida dela, o que é genuinamente Júlia. Sei apenas que ela é filha de militar de média patente, o que já é o bastante para ser considerado rico pela população escolar, e sei que, na falta de uma própria, ela adota as personalidades de quem a rodeia como um camaleão.

 

Eu não queria apenas ser invisível, eu queria ser o silêncio: algo impossível de sentir, que não pertence a esse mundo, que não deixa margas. O simples nada.

 

É essa combinação a vantagem dela. Eu ganho uma mochila bonita, mas falsa, não demora para ela aparecer com a original. Eu pinto o cabelo de papel crepom, ela copia a cor, mas usa tintura. Ela nunca briga por uma causa justa do tipo: consertar as carteiras do colégio – só quando eu brigo; Ela é minha sombra, a mais obscura de todas. Com o tempo ela me cansou tanto que deixei de fazer coisas só pra ela não replicar.

A Júlia, no entanto, nunca havia despertado ódio em mim. Era inconveniente, me irritava um pouco, às vezes, mas eu era realmente tranquila com ela. Tinham dias em que nós até conversávamos, trocávamos falsidade na fila da copiadora. Era o tipo de pessoa que você espera uma ovada nas costas, mas nunca o tiro de escopeta na cara que ela me deu.

*

 

Todos começaram a olhá-los. Não havia ninguém ali que não soubesse que eu e o Luís namorávamos, mas ninguém fazia ideia de que a gente tivesse terminado e realmente ninguém (muito menos eu) esperava que ele aparecesse com uma nova menina para compor com sua jaqueta da Seleção Brasileira já no primeiro dia de aula.

Eu estava boquiaberta. Minhas mãos começaram a tremer, incapazes de sustentarem o peso dos olhares que iam pousando em mim. Eu quase podia ouvir os comentários que soavam como um zumbido ininterrupto. Não sabia o que fazer. Ainda não tinha assimilado bem as informações. Só sabia que aquilo era demais para engolir – o que me impedia de fechar a boca.

 

Eu quase podia ouvir os comentários que soavam como um zumbido ininterrupto.

 

O Luís, então, me olhou. Seus olhos eram inexpressivos. Nem ódio, nem amor, nem desafio, nem suplica. Era um olhar vazio, que alguém de bem não usa sequer para mirar alguém na fila do banco. Não desviei os olhos, correspondi sua mirada, mas a minha estava carregada de emoções. Era um furacão de sentimentos, variando entre surpresa, raiva, dor e ofensa.

A Júlia percebeu que as íris dele estavam desfocadas, por isso seguiu a linha do seu olhar. Logo viu que era eu e me olhou também. Ela não mudou de expressão, o sorriso se manteve gélido como o de uma escultura. Os olhos, porém, ganharam faíscas de maldade, como um palhaço assassino. Senti medo dela, mas não desviei o foco. Mantinha o Luís amarrado em meu pensar. Eu precisava de uma explicação.

 

Senti medo dela, mas não desviei o foco. Mantinha o Luís amarrado em meu pensar.

 

Ela se virou para ele e disse, em um sussurro gritado, “vamos”. Aquele “vamos” chegou aos meus ouvidos como uma espécie de atestado, como se naquela pequena frase estivesse subentendido um “meu amor”. O Luís concordou com a cabeça, olhou para o chão e eles seguiram em direção às quadras do colégio.

*

 

Na minha visão foi como assistir um filme surreal, como naqueles momentos de quase-morte em que se vê a vida de novo. Por mais que a cena se repetisse diante dos meus olhos, o espanto seria o mesmo. Olhá-los era como nos ver um ano atrás. Havia doze meses, era eu envolvendo-o com as mãos na cintura, ele com a mesma jaqueta, eu com aquele sorriso. Júlia tinha conseguido. Nunca alguém se sentiu tão substituível quanto eu.

Senti nojo, agonia de mim mesma. Porém, não quis transparecer. Já me bastavam os olhares. Se eu encarasse aquilo tudo com “naturalidade” ninguém ficaria comentando e eu teria o meu tempo para poder procurar ar em todo aquele fedor que me rodeava. Se eu caísse, Júlia saberia, então era melhor fingir ser capaz de continuar de pé.

 

Havia doze meses, era eu envolvendo-o com as mãos na cintura, ele com a mesma jaqueta, eu com aquele sorriso.

 

Eu dei um sorriso disfarçado para a V e me sentei em um banco de concreto do qual sobravam quase só as vigas. Como eu. Ela veio falar comigo, mas balancei a cabeça para que ela não se aproximasse. Coloquei a mão na barriga para melhorar minha respiração sufocante e continuei fazendo a troca das listas, embaralhando o chumaço de papel que eu prendia com os cotovelos. Todos os meus amigos tinham se esquecido do processo.

Minha cabeça parecia um liquidificador de lembranças e emoções, e eu olhava as letras como se não soubesse ler. A V se sentou ao meu lado e passou a mão no meu rosto, com expressão de mãe que educa criança malcriada.  Eu não a ouvia, até respondia, mas não conseguia identificar o que eu mesma estava falando. Entreguei meu bolo de folhas para a V, mas a troca de listas não aconteceu nesse ano. Meus amigos pareciam ter a impressão de que se saíssem um segundo de perto de mim, eu viraria pó.

 

“Se saíssem um segundo de perto de mim, eu viraria pó.”

 

Falaram comigo por uns cinco minutos com uma cara de absoluta preocupação e choque. Meu subconsciente respondia-os e pedia que eles se acalmassem, mas eu de fato não estava ali. Era como se minha mente estivesse passeando como um drone por toda a escola, voando em busca do Luís e da Júlia. O Flávio se aproximou exalando sua bondade natural. O que ele disse foi tudo o eu entendi daquela conversa: “eu sinto muito”. Uma única lágrima rolou em meu rosto. Foi o bastante para que ele não dissesse mais nada e simplesmente fosse embora.

*

 

Com o tempo, voltei a mim. Eu já estava em uma sala de aula. A V entrava na classe com dois pães de queijo quentinhos que ela havia comprado na cantina. Ela se sentou ao meu lado e disse:

– Você caiu na mesma sala que eu.

– Acho que sim. – respondi seca.

Ela apontou para a lista que havia sido recolada na porta certa com um adesivo de caderno em formato de borboleta. Olhei as pessoas que iam estudar conosco de acordo com aquela folha. Da turma, só um rosto conhecido: Tito. Para variar, ele estava sentado na última cadeira se gabando para duas meninas que deviam ser do primeiro ano. Os demais eram quase todos novatos. Se destacavam na multidão os que haviam ido ao CEM 01 transferidos da escola particular. Eles olhavam ao redor com uma expressão que misturava o acanhamento e a soberba.

“Ele parecia detestar a vida. Naquele momento, porém, ninguém ganhava de mim neste quesito.”

 

A primeira do grupo era uma moça morena de traços indígenas que me pareceu familiar e um rapaz magrelo que parecia muito o Salsicha do ‘Scooby-Doo’ e que estava falando com ela. Mas o novato que mais me impressionou foi um esquisito com olhar de psicopata que sentou na primeira carteira e olhava a parede como se enxergasse através dela. Era uma dessas pessoas que só são possíveis graças à miscigenação: pele parda e os olhos verdíssimos. Ele usava uma camisa com um desenho gigante duma banda, que eu suponho ser de heavy metal, e parecia detestar a vida. Naquele momento, porém, ninguém ganhava de mim neste quesito.

Achando tudo um saco, comecei a olhar para a janela. O sol estava a pino e o dia de gloriosa secura estava bonito. Claro que o clima haveria de me contrariar. Da janela da minha sala, dava para ver os ipês e flamboyants que ficavam no terreno posterior ao da escola, verdejantes e reservando suas lindas flores para tempos piores – metereologicamente falando. Há mais ou menos um quilômetro de mim estava o Lago Paranoá. A água tensa refletia a luz amarela do sol como uma infinidade de lantejoulas. É engraçado que sempre quando eu olho para o lago tem alguém remando. Sempre. Deve ser muito gostoso sair para remar, sobretudo nesse horário, quando todos estão cuidando das suas vidas e você cuidando de si.

 

“A água tensa refletia a luz amarela do sol como uma infinidade de lantejoulas.”

 

– Você tá me ouvindo?

– Não, me desculpe. Eu não estava prestando atenção.

– Tem certeza que você está bem?

Como se fosse possível.

– Tô.

Foi mais ou menos por aí que a Júlia entrou na nossa sala. Perguntou ao menino psicopata se aquela era a sala 17 (sendo que há uma placa na porta). O rapaz apenas confirmou com a cabeça. Então, o demônio que tanto cacei em minha imaginação pelos corredores do colégio avançou sobre a sala e sobre mim. Ao entrar, ela estava sorrindo e segurava uma mão masculina que reconheci ser a do Luís. Ele soltou-a e ela disse “até logo” em tom malemolente.

A Júlia andava rebolando e revirando os olhos. Senti nojo e pensei em virar o rosto, mas minha atenção se voltou para o que ela trazia na mão: O meu livro. Quando eu e Luís fomos terminamos, eu estava lendo ‘A Insustentável Leveza do Ser’, de Milan Kundera. Eu tinha dado falta do livro no último mês, mas jurava que estava perdido pela casa, nas coisas da minha irmã, da minha tia… Então era isso que eu tinha esquecido. A memória desanuviou. Quando saí voando da casa do Luís, deixei o livro sobre a cama.

Eu naquele momento devia estar transparecendo mais raiva do que eu estava realmente sentindo, já que a V segurou o meu braço temendo muito provavelmente que eu atirasse a cadeira na minha rival. A raiva que eu sentia era muito mais de mim do que dela. Como eu pude ser tão burra a ponto de deixar o livro no apartamento dele? Será que eu queria que ele percebesse o livro e que trouxesse ele de volta pra mim? (ambiguidade intencional).

 

Será que ela não sabe que ele odeia apelidos? Ou eu que não sabia?

 

– Bom dia, Sol.

“Vai se danar sua cretina ladra de namorados”.

– Bom dia, Jú.

Ela sorriu. Eu me mantive impassível.

– O Lulu pediu para eu te entregar o seu livro que você esqueceu da última vez que você esteve na casa dele.

Da última vez que eu estive lá? Como se eu tivesse ido pra tomar um chá com a mãe dele e, por acaso, saído às pressas. Normal. E Lulu? Que tipo de apelido é esse? Será que ela não sabe que ele odeia apelidos? Ou eu que não sabia? Travei assim que cheguei à conclusão de que não sabia de nada. Foi meu sistema nervoso autônomo que esticou o braço para pegar o livro. Puxei-o da mão dela com uma força maior que esperava. Se fosse um desenho japonês, o animador teria feito questão de desenhar uns raios partindo do meu olhar. Ela não parecia se sentir triste por estar me humilhando.

Eu peguei o livro e me levantei. O meu liquidificador mental ainda não tinha sido desligado, por isso fiquei um pouco tonta. Guardei o romance na bolsa e agradeci:

– Obrigado.

– Disponha, meu anjo.

 

“Vomitei minha alma enquanto fazia que sim com a cabeça.”

 

Sai da sala mesmo percebendo que o professor de física havia conseguido finalmente encontrar a turma que ele deveria dar aulas. Ainda estava um pouco desorientada e, portanto fui me segurando nas cadeiras. A V chegou a se levantar para ir comigo, porém a impedi. Precisava ficar, mais uma vez, sozinha. O professor me perguntou onde eu pensava que ia. Não me dei ao trabalho de responder. Estava já na porta da sala quando a Júlia gritou:

– Ah! Eu já ia me esquecendo, o Lulu pediu para eu te avisar que ele não tem conseguido falar com você no celular. Liga pra ele depois.

Vomitei minha alma enquanto fazia que sim com a cabeça.

Anúncios