Entrecapítulo 6/7

Entrecapitulo-4

Mezzo poema

 

Amor. Palavra pesada. Afiada com faca. Crava-me o seio.

Amor. No cabo da espada. Inscrição dourada. Lê-se: “você”.

 

Leia o Capítulo 6

Sempre falam que não é possível viajar no tempo, que a vida só avança. É mentira. O presente nos serve apenas para dar novas luzes a memórias. É como se a cada experiência importante da vida você ganhasse um novo óculos que te permite uma nova viagem ao tempo. As imagens não são perfeitamente nítidas – o grau certo acho que a gente nunca alcança –, mas elas estão sempre sendo revisitadas.

 

“Sempre falam que não é possível viajar no tempo, que a vida só avança. É mentira.”

 

Mais que uma nova visão, cada óculos, cada trauma, nos dá um novo passado. Revisitamos as lembranças mais fundamentais para preenchê-las com as verdades atuais. Júlia me matou e me deu um óculos, agora peço licença para usá-lo e reescrever uma parte do que já foi dito aqui sobre Luís. Se não quiser ler as elucubrações, Terapeuta Imaginário, fique livre para saltar o capítulo. Nada de importante aconteceu no meu presente, de qualquer forma. Talvez nada de importante jamais tenha me acontecido.

*

Atribuímos falsamente muita coisa ao acaso na vida. Acaso foi eu atropelar o Luís, me apaixonar foi escolha minha. Assim que bati a bicicleta, sabia que ele não tinha se machucado. Não havia nem um corte de verdade em seu joelho, era muito mais barro que sangue.  Fiquei lá por achá-lo bonito, não por estar preocupada. Havia nele uma luz diferente, contagiante que me fez querer ficar lá. Mas o que eu não sabia ainda é que existem pessoas que transmitem seu brilho como um alimento, outras como uma praga. Nem preciso me dar ao trabalho de dizer a categoria do Luís.

Nossa trajetória não foi uma comédia romântica. Pensando bem, a diferença do riso para o choro é só o ponto em que você termina de contar a história – já foi uma história bonita, ou ao menos era no que eu acreditava. Tudo termina. Ele não era inteligente, era malandro. Havia, inclusive, reprovado um ano e por isso estávamos na mesma série.

 

“Mais que uma nova visão, cada óculos, cada trauma, nos dá um novo passado.”

 

Era inseguro, ciumento, dominador. Ele me convenceu de que não pedia nada quando estava o tempo todo me manipulando para a borda do penhasco que lhe fosse mais conveniente. Não houve nenhum pedido formal de namoro por ele jamais ter confiado em nós como uma possibilidade de futuro. É muito fácil destruir o que é tão pequeno que não tem nem classificação. Sabia, admitia, mas não lutava contra minha vocação para a submissão. Espero mudar.

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