Entrecapítulo 6/7 (parte 2)

Entrecapitulo-5

Trilha sonora do dia: ‘Tudo vai ficar bem’ – por Pato Fu e Andrea Echeverri

Eu estou sem vontade de fazer nada. Tudo é tédio. O Pedro já me ligou umas quinhentas mil vezes e eu tive que desligar o celular. As pessoas sempre querem palavras minhas sobre como eu estou, mas há certas coisas que nem o dicionário compreende. Eu prefiro ficar aqui, parada. Se é drama juvenil, bobagem de adolescente, que seja.

A única coisa que tenho feito nos últimos dias é desenhar. Não tenho a menor aptidão artística, mas me acalma estar em contato com os lápis de cor, ter páginas a preencher sem usar palavras. Pinto cada centímetro das folhas, na horizontal e na vertical, frente e verso, não deixo frestas. Eu detesto o branco.

Leia o Capítulo 6

Leia o Entrecapítulo 6/7 (parte 1)

 

“Ignorei esse aspecto físico, como se minha recusa em admitir que as coisas não são tão bonitas tivesse a capacidade de modificá-las.”

 

Quando falam em branco, quase unanimemente, todos pensam em paz, tranquilidade, felicidade. Eu não. O branco para mim é simplesmente vazio, cor do tédio e da saudade. Lembro de uma experiência que quase todas as pessoas fizeram no jardim de infância. Trata-se de um cata-vento com cada uma das pás pintadas em um tom diferente do arco-íris (em alguns casos usa-se um disco também, depende da criatividade do professor). Quando as pás são giradas, todas as cores se fundem em branco. Do colorido ao apagado.Como a soma de tudo não dava um resultado feliz, tipo o verde? Ignorei esse aspecto físico, como se minha recusa em admitir que as coisas não são tão bonitas tivesse a capacidade de modificá-las.

 

*

 

Acho que nunca mais irei à escola. Não tenho a mínima vontade. Só de pensar que eu teria que explicar para todo mundo a história do fim do meu namoro com o Luís, aturar os olhares dos desconhecidos e os pêsames dos conhecidos, fico enojada. E também não preciso ir à escola. Nessa maré tsunâmica de baixa estima, fiquei lendo alguns dos meus livros (inclusive o de Física, o que é uma enorme vitória) e percebi que estava aprendendo sem precisar de um professor. Fiquei até feliz de não precisar de ajuda para entender genética na Biologia. Eu. Fiquei. Feliz. Como pode? O que explica essa confusão da qual eu só quero sair?

 

“Não estou bem, não estou melhorando, e não estarei normal nunca mais. Normal, puf.”

 

Creio que devo estar tão triste que meu corpo não faz ideia de como se expressar, então assumiu esse estado de morto-vivo apático. Não vou à escola há três dias. Não atendo o telefone e como só as barras de cereal que a minha tia rouba do laboratório de análises clínicas em que faxina. Nesses dois dias aprendi muito, da teoria do campo elétrico a todas as músicas sertanejas de corno que o Brasil produziu nos últimos cem anos. Aprendi muito sobre mim também.

Eu ainda estou acordando no horário normal do colégio e embora a minha mãe saiba que não irei à aula nenhuma, ela vem me perguntar todos os dias se eu já estou melhor e posso voltar. Não estou bem, não estou melhorando, e não estarei normal nunca mais. Normal, puf.

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