Capítulo 7 -Eu traía eu

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Trilha sonora do dia: ‘Sangue latino’ – por Secos & Molhados

 

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Leia o Capítulo 6

Leia o Entrecpítulo 6/7 (parte 2)

Relembre o começo da história, leia o Capítulo 1

 

Que ódio! Hoje, para a minha surpresa, quem veio me acordar foi o meu padrasto.

– Faltam cinco minutos pras sete horas, você vai acabar se atrasando. Bom… Pelo menos você já está de uniforme, só vai precisar tirar esse casaco horrível. O café já está na mesa.

Só foi ai que eu reparei que eu não tinha tomado nenhum banho desde segunda-feira e que eu estava com o casaco que meu padrasto detesta porque parece roupa de velha e fede a naftalina.

 

“Hoje é o dia do São Nunca Mais, por que você vai à escola.”

 

– Eu nunca mais vou para aquele maldito colégio.

– Eu acho que então hoje é o dia do São Nunca Mais, por que você vai à escola.

– Não vou.

O Rubens deu uma daquelas risadinhas de “não me responda” e saiu do meu quarto.  Ai, como eu fui burra! Eu deveria ter trancado a porta, mas não! Eu fingi que nada tinha acontecido e voltei para o meu estado de inconsciência absoluta. Meu padrasto entrou no meu quarto cinco minutos depois e literalmente me atirou no chuveiro. Minha mãe nem interveio a meu favor. Fiquei toda molhada, de roupa, fazendo escândalo. O Rubens gritava: “quantos anos você acha que tem, mocinha?” e coisas desse tipo. E então vi que estava reagindo, eu não estava parada. Estava morta de raiva, de ódio. A água limpou minha placidez, agora estou livre para espernear.

*

 

Todas as pessoas merecem ter seu(s) dia(s) de total depressão. Depois do banho de roupa cheguei ao quarto e minha mãe tinha arrumado tudo – aquela tortura toda foi plano dela, claro. Espumei de ira e coloquei a roupa mais feia que encontrei só por desafio. Meu padrasto decidiu me levar ao colégio de carro. Ele nunca faz isso quando peço, mas quando eu não quero ir à escola, ai ele decide ajudar.

 

“Todas as pessoas merecem ter seu(s) dia(s) de total depressão.”

 

Fui sentada no banco do carona olhando para a janela o tempo todo, como se houvesse algo muito interessante para se ver na paisagem coberta de casas sem pintura e descampados. A viagem era longa demais para que meu coração não fervesse de ódio de ser obrigada a conviver com aquele tirano. Se meu pai descobre que o Rubens me jogou no chuveiro, está criada uma guerra civil. Ele, porém, tratava tudo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Introduziu vários pequenos assuntos que eu ignorei. O engarrafamento era eterno e me obrigava a suportar ainda mais com a loucura da situação. Quis abrir a porta e sair correndo quando ele perguntou:

– O que aconteceu com você?

Eu desejei que a manivela do vidro estivesse funcionando só para colocar minha cara para fora e agir como eu me sentia por dentro: um buldogue entediado.

– Me conta o que aconteceu.

Olhei para a cara dele de baixo para cima.

– Rubens, a gente nunca foi confidente nem nada do tipo, tá legal? Não força, cara. Não vou te contar nada.

–Ah! Claro, só por que não sou sua “amiguinha” tenho que aturar você enfurnada no quarto, sem abrir a janela, chorando por três dias, ouvindo música ruim… Você tem que dar satisfação, se não a mim, pelo menos a sua mãe…

– Tá bom.

– Olha, pode não parecer, mas eu já tive a sua idade, muito tempo atrás. – (detesto quando as pessoas mais velhas falam “eu já tive a sua idade” como se fosse a maior novidade do mundo.) – Você não precisa ser minha amiga para dividir seus problemas comigo. Eu não divido os meus com você? – (Rubens, de fato, adora falar de sua pindaíba financeira para qualquer um.) – Pode me contar, o que aconteceu com você e o Luís?

Me virei e fiz a cara mais sinistra que pude.

– O Luís morreu. – disse, me voltando para a janela.

 

“Você tem que aprender a ser mais feliz, minha filha.”

 

– Nossa! Porque você não me avisou antes? Assim eu tinha tempo de mandar uma benzedeira lá em casa.

Olhei para ele de novo, agora com uma cara de dúvida. Meu padrasto tem essas de falar umas coisas completamente sem sentido, só pra você perguntar para ele o que quis dizer aquilo.

– O que você quis dizer com isso?

– O Luís esteve lá em casa durante a sua hibernação. Ou, pelo que você acaba de dizer, o fantasma dele.

Eu deveria ter ficado feliz com essa informação adicional, mas eu acabei me achando ainda mais ridícula. “Ótimo, agora aquele rato já sabe que eu sofri dias inteiros por causa da falta de tato dele.” Apenas bufei em resposta e encostei minha testa na janela, criando uma mancha de oleosidade no vidro. Nós chegamos na minha escola mais ou menos por ai. Distraída, eu me olhei no retrovisor rachado e levei um susto.

– Meu Deus! Está tão visível que eu fiquei na cama por muito tempo?

– Tá. – (por que meu padrasto às vezes é tão sincero?) – Coloca essa touca pra ver se melhora.

– Obrigada.

Eu desci do carro.

– Soraya.

– Oi?

– Você tem que aprender a ser mais feliz, minha filha.

– Para aprender a ser feliz é preciso ser.

– E só você não percebe que você é.

– Chega de lição de moral hoje, Rubens, obrigado.

 

“Atenção é uma coisa que eu nunca precisei nessa escola, muito menos agora.”

 

Ele sorriu e saiu em disparada com o carro, dirigindo como só ele e pilotos de assalto a banco sabem fazer. Ainda estava um pouco desnorteada com o efeito da luz sobre a minha visão. Nos últimos dois dias eu não havia nem aberto a janela, imagina ter contato com aquela luz forte do sol de refletor da alvorada de Brasília. Vi as pessoas entrarem no colégio, mas não quis me entrosar. Coloquei os óculos escuros e sentei na grama para passar o tempo e ver a dança das formigas que tentavam transportar uma semente de jamelão. Na hora, pareceu interessante.

Se todos já olham para mim naturalmente, imagina quantos não me olham quando eu estou com meus óculos. Eles são imitações dos antigos óculos 3D que se distribuía nos cinemas. O contorno dele é de plástico branco, a lente esquerda é azul e a direita é vermelha. Minha tia Rosa comprou para mim da última vez que foi na 25 de Março, em São Paulo, para comprar muamba e revender no serviço. Eu adoro o jeitão deles, mas chamam muita atenção. Atenção é uma coisa que eu nunca precisei nessa escola, muito menos agora. Queria tirar os óculos, mas tive preguiça. Quando me dei conta, porém, já havia passado o horário de entrada e corri.

Cheguei uns quinze minutos atrasada e não pude entrar. Fiquei conversando com a porteira, Dona Zica, implorando. Na realidade, eu sabia que ela não ia me deixar passar, mas era prazeroso insistir e vê-la furiosa, sem poder fazer nada contra nós. Quer dizer, eu acho que ela não pode fazer nada contra nós. O Pedro chegou à portaria uns dez minutos depois de mim. Ele mora em Luziânia, atravessa a fronteira entre Goiás e Brasília diariamente, em uma viagem de, no mínimo, três horas de duração. Os atrasos dele deveriam ser todos perdoáveis.

 

“Eu apontei pro jaleco e perguntei: História de novo? Com certeza. Ele apontou para minha toca e perguntou: Depressão de novo? Com certeza.”

 

Ele já estava com o jaleco de monitor. Provavelmente ele tinha sido escolhido para dar aulas de história no contra turno. A bem da verdade, ele era Nerd o bastante para receber convites para ser o monitor de várias matérias, mas sempre optava por história. Nunca o vi tirar menos de dez em uma prova dessa matéria, parece mais um livro didático ambulante do que uma pessoa.

Eu apontei pro jaleco e perguntei:

– História de novo?

– Com certeza.

Ele apontou para minha toca e perguntou:

– Depressão de novo?

– Com certeza.

Nós ficamos rindo um pouco juntos. Ele me deu a mão e nos sentamos com as costas encostadas nas grades do colégio, como se fôssemos prisioneiros.

– E aí, como foram os últimos dias?

– Não poderiam ter sido mais rotineiros, tudo na mais perfeita ordem.

– Eu tô falando sério, Sol.

– Então tá. Posso ser breve? Eu terminei com o Luís há, mais ou menos, umas quatro semanas. Quer dizer, o Luís terminou comigo por um motivo que eu não sei o que é…

– Você não perguntou pra ele o por quê?

– Não, não tive tempo. Mal percebi eu estava correndo pra fugir dele. Eu acho que ele nunca gostou muito de mim, sei lá. Mas deixa eu terminar logo a história…

– Não, vai com calma. Você se lembra de ter feito algo contra ele?

– Nós não andávamos fazendo muita coisa naqueles dias.

– Como foi que ele falou que tava terminando com você?

– Ele falou com a boca. – respondi sorrindo.

– Não, sua besta. Como ele se portou dando a noticia. – O Pedro estava com as pernas cruzadas, o óculos na ponta do nariz. Isso aliado ao silêncio grutal que fazia na escola me deu a impressão de que eu estava mesmo numa consulta com um psicanalista (morra de inveja, Terapeuta Imaginário, agora eu tenho um real).

 

“Eu queria que ele tivesse mais consideração… Sei lá! Que ele transparecesse que estava sofrendo um pouco mais.”

 

– Ele tava cabisbaixo, mas ninguém fala que vai terminar com um sorriso na boca. Ele se comportou como qualquer um se comportaria.

– E você, como você ficou?

– Chocada, é claro. Foi um ano e meio que nós ficamos juntos… Mas eu já tava bem, entende? Eu não tava mais triste quando eu vim para a escola. Cê sabe como eu fico ansiosa pra reencontrar vocês. O que me baqueou foi a surpresa. Eu não esperava que ele tivesse namorando com a Júlia. Eu queria que ele tivesse mais consideração… Sei lá! Que ele transparecesse que estava sofrendo um pouco mais.

– Você ainda gosta dele?

– Não.

– Então não entendi pra quê sofrer. Ele te procurou algumas vezes e foi ignorado. Você não está enciumada ou apaixonada. Pelo que você disse, não foi ele estar com a Júlia que te magoou de verdade, mas foi só a vergonha de todo mundo na escola ver que ele está saindo com outra pessoa. Pra mim, talvez você até esteja com um pouquinho de raiva por ele ter se recuperado tão rápido quanto você.

 

“Cara certo? Quem é você, a Branca de Neve?”

 

– Mas ele não foi tão rápido quanto eu, ele foi muito, muito, mais rápido! Ele já tem uma outra namorada, por Deus!

– Ele pegou a primeira que apareceu. Isso é óbvio. E isso prova ainda mais que você tá melhor que ele! Você nem está saindo com qualquer um pra poder esquecê-lo, já tá pronta para o cara certo.

– Cara certo? Quem é você, a Branca de Neve?

Ele me deu um soco no ombro.

– Você sabe que sempre aparece alguém.

– Esse alguém nunca é certo.

– Calma, pequeno padawan.

– Você está dando em cima de mim? – ironizei.

– Prefiro beijar o espelho! – respondeu ele arrancando a minha touca com uma mistura de cascudo e provocação.

 

“– Pedro, e se ele estivesse me traindo o tempo todo?”

 

Fiquei calada e passando a mão no meu pouco cabelo. Depois me ocorreu:

– Pedro, e se ele estivesse me traindo o tempo todo?

– Acho ilógico. Além de que, não faz diferença.

– Faz.

– Não faz, não. Você nem era você mesma quando estava com esse babaca, então, foi você, de qualquer forma, a primeira a trair. – ele pigarreou e empostou a voz para soar como o Mestre dos Magos – Você traía você mesma.

É.

*

 

Foi como tirar um piano das costas. Eu nunca surfei, mas deve ter sido algo muito parecido. Me libertei da sina que eu carregava e que era incapaz de entender. O Pedro soube encontrar as palavras que me faltavam: namorar o Luís era trair eu mesma. A partir deste ponto, portanto, eu demito o Luís da minha história. Esse é meu diário, não o dele. Prepare-se junto comigo para viver a minha história pessoal, não da minha derrocada, mas do meu nascimento.

 

“A partir deste ponto, portanto, eu demito o Luís da minha história. Esse é meu diário, não o dele. Prepare-se junto comigo para viver a minha história pessoal, não da minha derrocada, mas do meu nascimento.”

 

O Pedro me deu um sorriso de meia-boca e disse um “pensa nisso” muito enigmático. Talvez ele nem saiba desse poder de compreensão dele, mas ele é mesmo o pilar da nossa família de amigos. Me sentia viva e infinita. Eu queria ir para casa queimar as páginas desse diário, incendiar o meu armário, entrar na fogueira e dormir entre as chamas. Queria acordar finalmente uma nova Soraya, ou quem sabe até mesmo voltar a ser a antiga de sempre. Mas eu não podia fazer isso. Eu tinha faltado três dias seguidos e matar aula no primeiro dia da nova vida não é um bom começo. Tinha que ficar no colégio, assistindo as aulas enfadonhas e convivendo com o mundo. Mas por isso mesmo que eu tentei de tudo para fazer daquele o melhor dia de minha vida. Da nova vida.

FIM DA PARTE 1 – A DESCIDA

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