Capítulo 8 – Recomeço

Post-Capítulo-8

 

Trilha sonora do dia: ‘Menina Dança’ – Novos Baianos

Leia o Capítulo 7 [Parte 1 – A Descida]

Veja aqui como acompanhar a história

Pela primeira vez no ano, ontem eu estava ­– e ainda estou – feliz. Não me dei nem ao trabalho de filosofar sobre como era possível eu viver aquele elevador de emoções, da tristeza ao cume da alegria, apenas deixei o peso do drama de lado. Pulei nas costas do Pedro e gargalhei de alívio. Ele, meio sem entender, segurou as minhas pernas para que eu não caísse e, em um instante, éramos caubói e cavalo. Eu dizia coisas como “segura peão” e ríamos da minha loucura. Eu dei um tapa na bunda dele e Pedro gritou sorrindo uma lista de xingamentos em espanhol. O sinal tocou anunciando o começo da segunda aula e fomos correndo portão adentro como se tivesse sido dada a largada, como dois malucos.

 

“Eu dei um tapa na bunda dele e Pedro gritou sorrindo uma lista de xingamentos em espanhol.”

 

 

Dane-se se todos estavam nos olhando, só dois tipos de pessoas chamam a atenção: as muito felizes e as muito tristes e, por Deus, eu estava finalmente no primeiro grupo.Senti falta da minha máquina fotográfica. Nós só paramos de correr pelo colégio quando percebemos que a tia-porteira estava realmente brava conosco. Ela já deve ter uns sessenta anos e ainda assim estava tentando nos perseguir com seus gritos desesperados e a sapatilha de vovó. Eu fiquei com dó, coitadinha. De cima das costas do Pedro, tasquei-lhe um beijo na bochecha e desci. Ainda correndo, tentei lembrar onde era a minha sala, para onde fui fugindo e rindo. A bedel gritava para eu voltar e assinar uma advertência – claro que eu não voltei. Não ia ser penalizada por ser feliz. Não no meu primeiro dia de recomeço.

Recomeço.

*

 

Quando bati apressada na porta da sala, ainda estava sem fôlego. Quem estava começando a colocar o conteúdo no quadro era o professor de química, Sr. Norberto, que é um velho tarado, por isso me deixou entrar mesmo que eu já estivesse desrespeitando a tolerância de dez minutos. Notei que enquanto ele abria a porta, ao mesmo tempo olhava minha bunda por debaixo dos óculos. Achei divertido-ofensivo. Tinha um lugar vago perto da V e foi pra lá que fui.

 

“Só dois tipos de pessoas chamam a atenção: as muito felizes e as muito tristes e, por Deus, eu estava finalmente no primeiro grupo.”

 

 

– Eu pensei que você não vinha de novo. – sussurrou ela quando eu sentei.

– A partir de hoje, não falto em mais nenhum dia.

A V sorriu e soltou um “é bom ter você de volta”.

A Júlia me cumprimentou de longe com o sorriso de Coringa dela. Ela estava muito bem vestida, compartilhávamos a mesma leveza de espírito, ainda que os balões que pendiam da felicidade dela eram em tons de preto e cinza, como são em todos aqueles que são felizes com base na desventura alheia, enquanto os meus eram um arco-íris. Apesar daquele ar provocador e maligno dela, eu retribuí o riso e fui sincera quando o fiz. Não tenho motivos para odiá-la. Detestar, talvez, mas não odiar.

 

“Não tenho motivos para odiá-la. Detestar, talvez, mas não odiar.”

 

A aula do dia era uma introdução às pilhas e baterias e eu já tinha lido aquele capitulo durante minha hibernação. Movi minha atenção, portanto, para o que era importante: com quem eu iria estudar ao menos nos próximos seis meses – o remanejamento de turmas não é costume no segundo semestre, mas já ocorreu. Da minha cadeira, fiz um raio x dos arredores.

O rapaz que parecia o Salsicha não estava na sala e logo depois eu descobri que ele não era da turma mesmo. O resto tava todo como o primeiro dia. A moça morena que era meio índia era a única que realmente estava lá, dedicando toda sua concentração ao conteúdo e tomando uma série de notas ­– dedicada, mas não parecia ser inteligente, ninguém pode ser nerd e ao mesmo tempo conservar um cabelo tão espetacular. O Tito, sentado ao lado dela, pra variar, estava dormindo.

O garoto que tinha aquele ar de soturno e misterioso estava na primeira cadeira, ao lado da porta. Ele não anotava nem uma palavra sequer do professor, mas o olhava de igual para igual. Ele sim parecia ser muito inteligente. Embora mantivesse a camisa de metaleiro, naquele dia ele não estava de casaco e foi engraçado ver o corpo dele. Era o tipo de pessoa que se espera uma magreza sem graça, não tríceps visíveis.

 

“É o tipo que se acha super diferente porque pintou o cabelo de anilina vermelha, mas que no fundo só está em busca de alguém que lhes diga o que pensar.”

 

O resto das pessoas era realmente normal, ou melhor, desinteressante. Não valia a pena demorar o olhar em nenhuma delas, portanto não demorarei a descrevê-las. É o tipo que se acha super diferente porque pintou o cabelo de anilina vermelha, mas que no fundo só está em busca de alguém que lhes diga o que pensar. Eu pude perceber que a Júlia tinha ganho muito terreno entre essas ovelhas da sala. Havia, em três dias, assumido as rédeas da turma, sido eleita representante e, pelo que a V me fofocou, era adorada pelas meninas do primeiro ano como se fosse a maior sensação de todos os tempos. A Júlia popular… Nada poderia ser pior.

Até pensei em chamar a polícia para dizer que ela guardava maconha na mochila para revender aos alunos, mas achei melhor não. Não que fosse impossível, mas era trabalhoso demais. Estava em um momento muito zen para arquitetar vinganças – além do que, nada contribuiria mais para a fama de alguém no CEM 01 do que sair do pátio da escola direto para o camburão. A hora dela ainda há de chegar.

*

 

“Nos organizávamos para ocupar a mesa nº 7 da cantina, patrimônio nosso por natureza.”

 

No intervalo, eu e a V fomos encontrar o Pedro e o Fernando. Recebi de ambos um abraço caloroso enquanto nos organizávamos para ocupar a mesa nº 7 da cantina, patrimônio nosso por natureza. O Fernando havia levado o violão para a escola e aproveitou a ocasião para me passar as músicas que ele tinha aprendido durante as férias. Ele é um desses ases do instrumento que conseguem criar uma cifra mental perfeita da música na terceira ou quarta vez que em que a escuta – já dá pra perceber que em um mês de férias ele é capaz de aprender muitas músicas, muitas mesmo. Eu, infelizmente, não tenho tal capacidade sonora. Levo uma tarde inteira para começar a tocar mais ou menos as notas da introdução de uma música qualquer.

Nem cheguei, portanto, perto de pegar no violão. Componho canções para eu mesma, na solidão da minha casa: cantar para mim é um exercício de exposição ao ridículo. Assisti Fernando tocar e pensei como Deus podia ser injusto, um rapaz que já é tão bonito, ainda tocar violão e ter essa voz de Nat King Cole. Sei que devo estar parecendo frívola e tarada ao descrever meu amigo, mas todas as mulheres ficam meio frívolas e taradas perto dele. De alguma maneira que agora não conseguirei recordar, porém, ele parou de cantar e eu e Pedro começamos a falar sobre as músicas da moda. Obrigatoriamente, a versão em funk-pop de ‘Preta pretinha’ entrou na conversa, por estar na trilha sonora da novela das nove – e por tocar três vezes a cada capítulo.

– Eu adoro ‘Preta mulata‘! – esbravejou a V, alongando as sílabas e errando o nome da música, em uma atitude que era de se esperar do jeito carnavalesco dela.

 

“Respondi séria, já pensando que ali seria um terreno fértil para semear as minhas opiniões de especialista em qualquer coisa.”

 

– Eu acho a música legal – respondi séria, já pensando que ali seria um terreno fértil para semear as minhas opiniões de especialista em qualquer coisa – Mas é um saco ligar o rádio porque você tem certeza que vai tocar. Além de tudo, o original é melhor e eu, pessoalmente, acredito que os Novos Baianos tinham músicas melhores que essa.

Todos ficaram me olhando.

– Quem são esses? – perguntou V.

– Caramba, não é possível que você nunca ouviu nenhuma música deles a não ser essas regravações horríveis.

– Canta aí então uma boa. – falou o Fernando.

– Ah, sei lá! Tem uma que eu gosto muito, ‘Menina dança‘.

– Canta um pedaço… – insistiu o Fernando.

Você, Dr., não é capaz de compreender a vergonha que eu fiquei. Quis que o assunto morresse metralhado, mas eles seguiam insistindo em me desafiar. Cedi.

“Quis que o assunto morresse metralhado, mas eles seguiam insistindo em me desafiar.”

 

– Começa assim: “Quando eu cheguei tudo, tudo / Tudo estava virado”… – comecei bem baixinho, só para eles se lembrarem da música, mas o Pedro e a V ficaram olhando com aquela cara de “eu não ouvi nada do que você falou” e o Fernando ficou com uma cara “eu não conheço essa música”. Então eu fui para o outro verso, ao mesmo tempo que escondia o rosto para eles não verem que eu estava ruborizada – “Apenas viro, me viro / Mas eu mesma viro os olhinhos“…

Eles continuavam insistindo para que avançasse na letra. Meu erro – ou acerto, ainda não sei – foi ter entrado na pilha deles. Só quando eu estava no oitavo verso é que o Pedro e a V conseguiram ouvir de verdade o que eu estava dizendo e foi nesse verso que o Fernando virou o violão de costas e começou a bater, no ritmo que ele achou ser o da música – e que se aproximava muito da realidade. Assustada com a súbita participação, parei de cantar. Fiquei vermelha e comecei a rir de nervoso.

– Ah! Continua, tava super ótimo. – protestou o Pedro.

– É… Eu não sabia que você cantava tão bem – falou a V.

O Fernando não parou de batucar atrás do violão enquanto meus amigos argumentavam para me fazer voltar a cantar e me seguravam na cadeira da qual eu já queria levantar. Continuei rindo, mas era de nervoso, não de alegria. Queria enfiar minha cabeça embaixo da terra. Eles, porém, devem ter pensado que era só um charminho que eu estava fazendo e seguiram rasgando elogios.

 

“Mico é fazer uma coisa, querendo ou não, que chama uma carga de atenção que você não é capaz de carregar. Essa vergonha, porém, é como um vírus: transmissível. Conforme você divide a vergonha entre os amigos, menor é o peso dos olhares que você tem que suportar – e mais divertido fica.”

 

– Gente. Eu. Não. Canto.

– Olha, faz assim: quando for o refrão você estrala os dedos e nós três tentamos cantar junto com você e aí acaba que nós repartimos a vergonha, está bem?

Insistiram e inflaram meu ego de tal maneira que acabei aceitando. E eu tenho uma teoria sobre o ridículo. Mico é fazer uma coisa, querendo ou não, que chama uma carga de atenção que você não é capaz de carregar. Essa vergonha, porém, é como um vírus: transmissível. Conforme você divide a vergonha entre os amigos, menor é o peso dos olhares que você tem que suportar – e mais divertido fica. Assim, o que era um mico foi uma farra. O Pedro fez uma voz tão rouca quando foi fazer a segunda voz que todo mundo caiu na gargalhada e por diversão acabamos cantando a música toda. E foi natural. No meio, eu já estava tão empolgada que arriscava umas dançadinhas e uns meismos do tipo Baby do Brasil.

Eu estava rindo tanto que mal conseguia cantar. A V levantou e me puxou pra dançar quando chegávamos ao final da música. Nós quatro rachamos de rir, mas entremeio às gargalhadas, nós ouvimos um assovio. Tito que nos observava à distância, encostado numa pilastra e rodeado dos amigos pilantras, todos rindo de nossa cara. A V, ao contrário de todas as pessoas normais do planeta, não se envergonhou e atirou um beijinho para ele.

 

“Virei as costas para ele a fim de resistir à tentação de ler em seus lábios os comentários maldosos que certamente ele tecia sobre mim.”

 

O assovio do Tito foi muito bom para me lembrar, porém, que eu não estava sozinha, mas sim que toda a escola olhava atentamente a nossa performance. Só que nem deu tempo de ficar pensando, já que a V estava em um segundo rodopiando como uma cigana ao redor da minha cintura. Eu teria sido até capaz de esquecer novamente da plateia que nos julgava, não fosse o menino parecido com o Salsicha ter ficado me encarando. Diretamente nos olhos, sem disfarçar mesmo, como um psicopata que saboreia os movimentos de sua vítima. Ele estava com alguns amigos, poucos e todos com cara de ricos, sentados nas mesas de pingue-pongue. Virei as costas para ele a fim de resistir à tentação de ler em seus lábios os comentários maldosos que certamente ele tecia sobre mim.

A música acaba com “dentro da menina / ainda dança”, mas prefiro minha versão. Dentro de mim ainda dança. Quando terminamos, a minha popularidade estava novamente em alta e Tito já havia se recuperado do beijo atirado por V a ponto de bater uma salva de palmas bem irônicas. Eu me curvei em reverência e sorri. Vi de longe a Júlia tentando desviar a atenção do Luís e do Flávio do que eu tinha acabado de fazer. Por um segundo, a atenção de todas aquelas duas mil pessoas foi destinada a mim e foi divertido – mas então, ao mesmo tempo, todos viraram o rosto e apagaram de suas memórias o meu ridículo. Apenas Luís que ainda me olhava com suas íris avermelhadas. Não quis pensar sobre ele, segui rindo e coloquei meus óculos escuros.

 

“Prefiro minha versão. Dentro de mim ainda dança.”

 

O sinal já estava para bater na hora que voltamos às nossas salas – sabendo em detalhes o mapa de todos os pavilhões da escola, voltamos às classes em piloto automático, extasiados pela diversão. Quando já estávamos a certa distância uns dos outros, o Fernando se virou e perguntou:

– Ah! Me lembrei agora… Vocês vão na festa de Carnaval da Daniela?

– Quem é Daniela? – perguntou a V. Eu acho que às vezes o Fernando se esquece que nós não temos a mesma influência dele perante as meninas.

– É uma garota do terceiro ano A.

– Pode ser. – respondi eu. Era tudo que eu precisava: uma festa.

 

“Vai ser a primeira vez que saímos só nós, sem namorados, sem preocupações. Nesse fim de semana, tenho certeza, serei feliz.”

 

O Pedro milagrosamente também aceitou ir, o que é de fato uma coisa notável. Ele realmente não sai de casa – pra ser mais precisa, ele não sai do computador. A V, logicamente, também aceitou e ficou marcado. Vai ser a primeira vez que saímos só nós, sem namorados, sem preocupações. Nesse fim de semana, tenho certeza, serei feliz.

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