Entrecapítulo 8/9

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É aniversário da minha mãe, mas eu não comprei presente. Com que dinheiro eu o faria? Abracei-a quando ela acordou e isso foi tudo o que pude dar. Não tinha nem feito o café para ela, embora estivesse acordada havia duas horas. Até achei que devesse preparar alguma coisa, mas não tinha nada na geladeira além de queijo ressecado e a minha mãe merecia mais do que eu jogar pó de café numa máquina e ligar o botão. Meu presente foi só o “feliz aniversário” que sussurrei em sua orelha mole enquanto beijava suas bochechas. Ela segurou meu rosto com as duas mãos e agradeceu.

 

“Sentia a paciência de esperar as coisas acontecerem. Ter preguiça também pode ser uma virtude.”

 

Minha mãe estava exausta, tinha trabalhado até a meia-noite da segunda-feira de carnaval, e, por isso, ficou em silêncio absoluto enquanto comíamos pão amanhecido lado a lado. Tia Rosa apareceu com uma bandeja de mortadela e seu presente – uma coleção de adesivos para unha. Pouco depois do meu padrasto e da Solange se juntarem a nós, ela abraçou a todos, recebeu os presentes – um colar e uma mini roseira, respectivamente – e foi dormir de novo. Eu segui seu exemplo. Voltei para meu quarto e desisti de fazer qualquer coisa que já houvesse programado. Pela primeira vez em um bom tempo, dormi sem desejar que o mundo ao meu redor apagasse. Não queria descansar, não queria sumir, não queria mudar. Era só passatempo.

Leia o Capítulo 8

Acordei com o som dos trompetes. Um bloco pequeno de carnaval, recém-criado, desfilava na avenida detrás da minha casa. Tenho tanta coisa para fazer, louça, banheiro, plantas, preparar o bolo do aniversário da minha mãe para o jantar – mas escolho não fazer nada. O computador descansa apoiado nas reentrâncias da minha barriga, a página ainda em branco, com o cursor piscando para que eu escreva, mas não me sinto pressionada. Sentia a paciência de esperar as coisas acontecerem. Ter preguiça também pode ser uma virtude.

 

“Não vou ao carnaval por que eu não quero. Eu não gosto. Eu não preciso agradar ninguém, fazer companhia a ninguém. Amo minha mãe, amo meus amigos, já amei meu ex-namorado, mas aprendi que sou eu que importo para mim. Estou feliz.”

 

Enquanto o bloco se arrastava ao som de ‘Mamãe eu quero’, me lembro que minha mãe me acordou antes de sair. A soneca dela havia lhe devolvido todo o ânimo e, já usando o colar, ela me convidou para ir ao bloquinho. Só virei de lado e voltei a dormir, ao que ela me disse que eu tenho que “sair da fossa”. Acho, porém, que essa é a primeira vez que eu estou fora dela. Não vou ao carnaval por que eu não quero. Eu não gosto. Eu não preciso agradar ninguém, fazer companhia a ninguém. Amo minha mãe, amo meus amigos, já amei meu ex-namorado, mas aprendi que sou eu que importo para mim. Estou feliz.

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