Capítulo 9 – O beijo de melancia

Post-Capítulo-9

 

Eu ainda consigo ouvir o som como se estivesse dentro da minha cabeça. Ontem, o inferno reinou em São Sebastião – o bairro, não o santo. A casa de Daniela, com grande quintal e quase nenhum vizinho, é o tipo de ambiente que o diabo gosta. Pequena em área construída, com só dois quartos, dois terços do terreno dela funcionam como garagem para a oficina do pai dela, ou seja, nem foi preciso decorar nada para criar o clima rock’n’roll.

Veja as instruções de como acompanhar a história

Leia o Capítulo 8

A arquitetura do ambiente também não permitia muitos excessos, com crucifixos espalhados por todos os cômodos que davam uma impressão de anacronismo, Daniela e sua festa não pareciam nada religiosas. A piscina/tanque de graxa estava devidamente tampada com lona – o que foi realmente uma sorte já que, lá pelas tantas da madrugada, o Tito caiu sobre ela e seu estado de pileque estava tão incrível que foram necessários três homens para levantá-lo. Agora imagina se não tivesse lona.

 

“Ontem, o inferno reinou em São Sebastião – o bairro, não o santo.”

 

Como boa oficina mecânica, havia um bom espaço para estacionar, apesar de oito em cada dez convidados serem menores de idade e dos maiores somente uns três tinham habilitação – ainda assim, contrariando a lógica, eram quinze carros, todos guiados por motoristas alcoolizados. Alcoolizados, na verdade, era um adjetivo em comum entre todos os convidados e eu, felizmente, me incluo nesse grupo.

Teria sido a melhor festa de todos os tempos, não fosse a Daniela não ter imaginado o mais óbvio. Como acontece geralmente com pessoas que dão festas, ela convidou umas trinta pessoas acreditando que eles não levariam muita gente, no máximo, quem sabe, um amigo. Ela ficou passada quando viu sua casa ocupada por mais de uma centena de pessoas que ela não fazia ideia de quem fossem. E, infelizmente, eu me incluo nesse grupo.

 

“Alcoolizados, na verdade, era um adjetivo em comum entre todos os convidados e eu, felizmente, me incluo nesse grupo.”

 

*

Como eu, Pedro, V e Fernando somos pobres, nós acabamos combinando de nos encontrarmos na rodoviária e de lá irmos à festa. O Fernando odiou não poder usar o carro do pai dele (por mais que ele diga o contrário, o carro é do pai) e foi bom ele ir com a gente por que só o Fernando sabia onde era a casa. No ônibus que tomamos, ainda estavam mais cinco convidados da festa. Dessa forma, nós nove fomos os primeiros a chegar.

Não esperávamos chegar tão cedo, o que me deixou razoavelmente envergonhada, já que, além de não ter sido convidada e ter chego cedo demais, ainda fui uma das penetras descaradas, sem tempo nem de me infiltrar na multidão. Para fazer uma média com a anfitriã, fui ajudá-la a organizar a geladeira, tarefa que parecia estar consumindo sua paciência.

– Você quer ajuda?

A tal Daniela usava saia jeans e ainda não tinha tido tempo de pentear o cabelo. Ela não sabia o que fazer, na mão direta com umas cinco bandejas de iogurte e na esquerda com um saco de maçãs. Ela olhava a geladeira, procurando onde enfiar aquilo enquanto assoprava uma mecha do cabelo que insistia em cair sobre sua testa.

– Por favor!

– Prazer, Soraya. – disse esticando as mãos para apanhar o iogurte.

– Daniela.

“Daniela atirou as maçãs na pia gritando de raiva, jogou os iogurtes num isopor sem gelo e dedicou todas suas preocupações à cerveja.”

Vimos que, por mais que arrumássemos, arrastássemos ou arriássemos a geladeira, ela não ganharia espaço. Por fim, Daniela atirou as maçãs na pia gritando de raiva, jogou os iogurtes num isopor sem gelo e dedicou todas suas preocupações à cerveja – não a guardar as latas, mas a abrir uma e tomar todo seu conteúdo em quase que um gole só. E foi assim que nós nos conhecemos.

A Daniela é uma menina bem fácil de entrosar. Ela parece realmente uma garota daquelas bem enjoadas quando você a conhece, porém logo depois ela já é sua melhor amiga. Apesar de ter o estereótipo de boazinha, ela dança, conta piadas e acima de tudo, bebe como ninguém.

“Sobrou apenas um crucifixo de madeira maciça e com um metro de comprimento que seria perfeito para torturar um anão de jardim, mas que não tínhamos onde esconder.”

Logo após a tentativa de arrumação de geladeira, Dani passou com uma caixa recolhendo as cruzes da casa e eu fui ajudá-la, afinal, eram muitas. Cada cantinho tinha uma imagem bíblica, um santinho, um salmo emoldurado ou um novíssimo testamento aberto em uma página qualquer e com as páginas decoradas em dourado nos cantos. No fim, sobrou apenas um crucifixo de madeira maciça e com um metro de comprimento que seria perfeito para torturar um anão de jardim, mas que não tínhamos onde esconder.

– Você é muito religiosa, hein?

– Meus pais, você quer dizer… É bom que essas santas realmente não estejam aqui para ver o que vai acontecer nessa casa hoje. – Ela sorriu para mim e virou a terceira latinha de cerveja e me deu minha primeira. Foi por aí que ela começou a abrir os botões da saia jeans.

*

“A primeira ocorrência médica aplaudida da noite.”

A festa dela começou a encher aos poucos e só ficou legal mesmo depois da meia-noite. Eu realmente precisava ir a uma festa e a aquela foi tão boa quanto esperava, com todas as histórias malucas que uma festa têm direito. Um amigo do Tito, o Gago, por exemplo, quis inovar e ao invés de dançar no chão como nós mortais costumamos fazer, ele resolveu subir na mangueira no meio do quintal e de lá atirou mangas maduras nos convidados todos até que Gledson – um menino que eu mal conheço, mas já considero pacas – atirou-lhe de volta um sapato de forma certeira no meio da testa, derrubando-o da árvore e sendo a primeira ocorrência médica aplaudida da noite.

Para resumir a maravilha, tocou ‘Ragatanga’, do Rouge, uma música que eu e a V adorávamos quando nos conhecemos, na sexta série. Foi em uma apresentação dessa música, coordenada pela Monique, minha inimiga de infância, que nos aproximamos. E fizemos a coreografia tanto que obviamente ainda lembramos de cada passo.
Para falar a verdade, eu fiquei morrendo de vergonha quando a V veio correndo e gritando até mim assim que começou a introdução da música. Ela começou a dançar e eu fingi que não era nem comigo, mas como sempre cedo, dessa vez não foi diferente. Enlouqueci na pista, bati o cabelo que não tenho, rebolei a bunda que não tenho, sensualizei com a beleza que não tenho. Foi divertidíssimo. Cada molécula do meu corpo estava se descongelando.

“Foi divertidíssimo. Cada molécula do meu corpo estava se descongelando.”

Lá no final da música, quando eu estava com uma mão na testa e os joelhos abertos em 45º, o passo mais emblemático da coreografia, um carinha me puxou e me beijou, assim mesmo, sem introdução. Levei um susto, tentei empurrá-lo, mas ter um hálito de vida assim tão próximo de mim fez com que me entregasse.

Tinha quase três meses que eu não beijava ninguém e tinha esquecido como é interessante o encontro de línguas. Foi um dos melhores beijos da minha vida, não sei se pela saudade que eu sentia de ser quista, ou se pelo delicado sabor de caipirinha e halls de melancia do meu acompanhante.

Quando tentei tocar-lhe o rosto, porém, ele fugiu. Descolou o lábio do meu e correu, sem me dar a oportunidade de ver-lhe o rosto. Quando abri os olhos, só havia V na minha frente, executando com Daniela o final da coreografia. Fiquei brava com aquilo. Nem sei o nome do carinha, nem posso ter certeza de que ele não tinha herpes labial ou que tinha todos os dentes. Ah! Agora já não faz diferença mesmo!

“Delicado sabor de caipirinha e halls de melancia do meu acompanhante.”

A música terminou e fui me sentar em uma das espreguiçadeiras de vime perto dos banheiros e da carcaça incendiada de um carro antigo. Estava com raiva, confusa e suada. Só então eu reparei que aquele lugar era um bocado frio. Ali eu senti falta do meu casaco velho e verde que meu padrasto detesta. Fiquei sentada olhando as árvores que cresciam enormemente apesar das manchas de óleo e graxa que tingiram o chão para sempre. As árvores são um bocado assustadoras na calada da noite, nunca se sabe exatamente até onde se expande a raiz, terminam os galhos ou mesmo onde começa o céu. Se a noite nem as árvores são definidas, que dirá um beijo.

– Oi.

Meus pensamentos sumiram no susto. Era o menino enigmático com cara de inteligente da minha sala, o que não fala com ninguém. Ele estava sem aquele ar superssuperior que lhe é característico, com uma simplicidade incompatível com ele. Sorriu e me perguntou:

– Posso me sentar aqui? – apontando para a espreguiçadeira ao meu lado.

Eu confirmei com um aceno de cabeça. Ele estava com um daqueles casacos do exército que são tão quentinhos. Fiquei com muita inveja dele… E ele deve ter percebido, já que me ofereceu a peça. Não fiz cerimônia e aceitei tão prontamente que ele deve ter ficado até espantado. Estranhei ter uma roupa masculina cobrindo meu corpo, uma que não cheirava a cigarro, mas a perfume marinho.

– Eu não tinha te visto na festa. – puxei papo.

– É que eu não sou muito de dançar não.

“Se a noite nem as árvores são definidas, que dirá um beijo.”

– Eu também não gosto muito.

– Nossa! Mas eu te vi dançando super bem ali atrás.

Ele falou isso com uma cara tão inexpressiva que não consegui detectar se era ironia ou apenas uma suave mentirinha. Ele riu e coçou a cabeça envergonhado. Pensei comigo que talvez ele fosse o proprietário da língua de sabor peculiar. Pensei que só saberia ao prova-la. Eu também comecei a sorrir e ficar passando a mão na nuca para que ele percebesse minhas intenções. Se bem que nem eu estava entendendo aquelas intenções repentinas, mas ele era tão bonito.

– Escuta aqui – falou ele aproximando-se bastante de mim. Eu levantei a minha cabeça também e fiquei próxima o bastante para sentir o hálito dele, mas era mentolado – É que eu acho a sua amiga muito bonita…

*

Fiquei muito vermelha. Muito mesmo, do tipo Bridget Jones. Eu aqui dando mole pro garoto que está afim da minha amiga! Queria sumir. Não foi a primeira vez que um cara me usou para se aproximar da V, mas foi a primeira vez que eu caí, mesmo tão antenada para esse tipo de coisa. Ele não percebeu nada e continuou falando. Não dei muita atenção, mas era aquela lengalenga de sempre. “Queria conhecer ela melhor, fala sobre mim, a gente tem muito em comum.”

“Fiquei muito vermelha. Muito mesmo, do tipo Bridget Jones.”

Devolvi o casaco e falei que ia atrás da V, mas de fato eu queria só sair dali. Ele falou que eu podia ficar com o casaco e lhe devolver na segunda, mas eu é que não quis, aquela educação toda com a gordinha careca era só para conseguir mais pontos com a gostosona modelo. Fui para dentro da casa remoendo minha decepção e encontrei a Daniela sentada no sofá, sozinha. Sozinha não, ela e uma birinight.

– É engraçado que a anfitriã fique só na própria festa.

– O problema é que a anfitriã conhece só três pessoas da festa. – respondeu ela.

– Mas este pode ser o momento ideal para fazer novas amizades – disfarcei.

– Minhas cervejas são mais interessantes que minhas conversas…

– Como assim? Você é super legal.

– Legal… – bufou ela com um sorriso amarelo. – Meu bem, papai é chefe da Liga dos Pais Cristãos da Comunidade. Essa é sem dúvida a primeira vez que eu vou numa festa na vida e não parece tão legal.

“Minhas cervejas são mais interessantes que minhas conversas…”

– Como essa pode ser a sua primeira festa, você bebe tão bem!

Ela riu, mas não respondeu.

– Acredite, é minha “primeira vez” – disse ela fazendo as aspas com os dedos.

– Então é sua obrigação se divertir hoje!

Ela deu de ombros, mas se encostou em mim quando eu sentei ao lado dela. Ela estava visivelmente bêbada. Eu e a Dani fomos tomando mais intimidade. Conversamos por uma hilariante meia hora, até que a V chegou. Ela estava com duas garrafas de minivodcas e provavelmente já tinha bebido mais umas trinta, mas ela tem uma forte tolerância ao álcool (no que ela não é ótima, não é mesmo?).

“A tática dela para conseguir adornos em geral é muito boa, use quando possível.”

Ela estava com uns três colares e umas quinze pulseiras novas. A tática dela para conseguir adornos em geral é muito boa, use quando possível: o garoto vinha pedir para ficar com ela então ela jogava um charminho e pedia alguma coisa que o garoto tivesse usando, com um sorriso de corromper até sacerdotes. Assim que o menino entregava o que ela queria, V fugia pra pista de dança. As pulseiras, anéis e colares são, portanto, como marcas dos foras que ela dá. E só de anéis ela tinha um para cada dedo naquela noite.

– Eu tava te procurando. – disse eu amargamente.

A V pulou no assento entre mim e a Dani abrindo espaço com os quadris. Como ela é expansiva, logo as duas ficaram amigas também. Eu aproveitei o momento cumplicidade mútua e contei para a V do bonitão da nossa sala. É claro que eu falei mais mal do que bem – na verdade eu só falei mal, porém isso nem era necessário. A V só fica com garotos mais bonitos que ela, ou seja, a V não fica com ninguém que esteja à vista de nós, mortais. Os ficantes dela são modelos caribenhos de sorriso de diamante aos quais eu só tenho acesso por fotos que ela me mostra no celular.

“O hálito do Pedro cheirava a vômito, só não sabíamos se era do passado ou do futuro.”

O Pedro se encontrou depois conosco. Ele estava super vermelho, como se o sangue dele todo estivesse concentrado na cabeça. Eu nunca tinha visto o Pedro bêbado e juro que não quero vê-lo assim de novo. Eu e a V ficamos preocupadas com ele de forma quase maternal e fomos procurar o Fernando para nos ajudar. O hálito do Pedro cheirava a vômito, só não sabíamos se era do passado ou do futuro.

– Eu não tô legal – falou o Pedro. – Não aguento mais bebida.

A Dani riu e ficou ajudando a V a manter o Pedro de pé enquanto eu fui procurar o Fernando. Rodei a festa como louca, buscando-o debaixo de cada copo de uísque caubói, que é só o que ele bebe. O menino que está dando em cima da V me encontrou no meio da multidão e perguntou se eu precisava de ajuda e eu só o empurrei para longe de meu caminho.

Achei Fernando após cinco longos minutos. Ele tava no fundo de um carro sem motor pegando uma garota e tinha mais duas na fila. Ele deve ter ficado puto comigo insistindo pra nós irmos embora. Sempre nós temos que insistir uns quinze minutos para ele sair de uma festa. Ele, ao contrário da V, vai com qualquer uma. Quando finalmente descolei-o dos braços da menina, voltamos à casa e encontramos o Pedro vomitando na pia da cozinha – sobre o saco de maçãs.

*

“Pegar a condução mesmo, só quando acordamos, quase meio-dia.”

Nós só fomos para o ponto pegar o ônibus de volta só quando o sol já dava os primeiros sinais de manhã. O Pedro já tinha vomitado três vezes e estava um pouco melhor. O Fernando, apesar de ser uns trinta centímetros menor que o Pedro, estava ajudando ele a andar e ia super bem até que nós perdemos o primeiro ônibus – e ele deixou o Pedro cair no chão enquanto corríamos. Todo mundo capotou de sono e dormimos uns por cima dos outros no banco da parada. Pegar a condução mesmo, só quando acordamos, quase meio-dia.

Anúncios