Capítulo 10 – Rebela-me, refrão

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Trilha sonora do dia: ‘Por Você’ – Frejat

Nessa semana, tive de prestar atenção em todas as aulas, não pela obrigação de ser boa aluna, mas só para não morrer de tédio. A V faltou durante quatro dias para fazer um desses cursos dela de mulher bonita, o que é um problema grande, já que eu não conheço mais ninguém na sala. Quer dizer, eu conheço o Tito e o ‘moreno-afim-da-V’, mas isso não quer dizer que sejam pessoas com as quais eu conversaria.

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Leia o Capítulo 9

Eu e a V apelidamos o moreno de Mr. M. Ninguém sabe nada da vida dele e na sala de aula ele entra mudo e sai calado. O Mr. M não tem amigos, por mais que a menina índia, acho que o nome dela é Débora, insista em tentar conversar com ele. Além disso, às vezes ele olha para a V de um jeito que realmente nos dá medo. O verdadeiro senhor mistério.

*

“De repente sou puxada enquanto ele me ri como o gato de Cheshire?”

 

Hoje foi um daqueles dias em que tudo acontece tão rápido que até parece propaganda de comprimido para dor de cabeça. Fiquei muito feliz quando ouvi o sinal do intervalo tocar, juntei minha mochila e corri atrás do Pedro para finalmente falar. Saí disparada para contar para a versão sóbria do meu amigo tudo sobre como ele era quando ficava bêbado.
No meio do caminho, porém, alguém reteve o meu braço. Eu levantei os olhos e vi que quem me segurava era o clone do Salsicha de ‘Scooby Doo’. Ele estava sorrindo de uma maneira simpática, mas ainda não tinha me soltado. Fiquei morrendo de medo dele, até porque eu nunca tinha dito nem um bom-dia para aquela pessoa em toda a minha vida e ai de repente sou puxada enquanto ele me ri como o gato de Cheshire?

– Nós precisamos conversar.

Não respondi nada, mas já estava pensando em usar as minhas unhas para defender-me. A ameaça da situação, porém, era bastante subjetiva, na prática ele não estava apertando meu braço, nem me conduzindo para nenhum lugar – é só que ele é esquisito pra caralho. Não deve pesar mais que cinquenta quilos e tem quase dois metros de altura. A barba por fazer, os olhos esbugalhados e expressivos… Enfim: o Salsicha.

– Vamos até a minha sala?

– Claro – respondi. Não iria me opor a alguém tão bizarro.

 

“Nem pensei no que ele ia fazer – mas mesmo que tivesse pensado, jamais conjecturaria a hipótese que se concretizou.”

 

Não pensei na hipótese que toda menina normal iria pensar: na sala estaríamos a sós e ele poderia me estuprar, assassinar, fatiar guardar tudo numa mala e enterrar no canteiro a beira do lago Paranoá antes que o intervalo acabasse. Eu às vezes confio demais nos outros. Achei que ele ia… sei lá! Nem pensei no que ele ia fazer – mas mesmo que tivesse pensado, jamais conjecturaria a hipótese que se concretizou.

Salsicha soltou meu braço e foi na frente. A sala dele era uma das últimas do terceiro pavilhão – os prédios do colégio têm não só o nome de penitenciária, como também a aparência, paredes sem pintura e janelas gradeadas –, ficava na parte mais próxima ao matagal que fazia divisa do colégio com as águas do lago. Como pensar nas formas de reprodução dos insetos com uma paisagem daquelas?

Interrompendo meu fluxo de pensamentos, ele sentou na mesa do professor e cruzou as pernas do mesmo jeito que Sharon Stone em ‘Instinto Selvagem’, embora longe de produzir o mesmo efeito. Na cadeira de frente a mesa do professor estava a mochila dele, quadrada e com aquele leão da MGM, só que ao invés de estar escrito Metro Goldwyn Mayer estava escrito ‘Muito Gato Mesmo’. Ao ver aquela mochila perdi totalmente o medo.

 

“A sala dele era uma das últimas do terceiro pavilhão – os prédios do colégio têm não só o nome de penitenciária, como também a aparência, paredes sem pintura e janelas gradeadas”

 

– Prazer, meu nome é Edson, este aqui é o Bruno – disse ele apontando para um garoto sentado atrás da cadeira dele, que acenou com simpatia – e aquele é o Cláudio. – o Cláudio estava na última carteira da fila e não se deu ao trabalho de levantar a cabeça para mim.

Bruno é paradoxal: olhos bem miúdos e rosto enorme, cabelo espetado e pele de bebê. Ele deve pesar alguma quantidade de toneladas de modo que sua carteira é especialmente confeccionada. Tinha um jeito que acabava por torná-lo bonito, apesar de ter tudo para não sê-lo. O Cláudio é muito comum. Magro como um bambu, feições proporcionais e com um sorriso cavalar. Tinha um jeito que o tornava feio, apesar de ter tudo para ser bonito.

Eu não tinha entendido ainda o motivo de eu estar parada ao redor daqueles três homens em uma sala de aula que não era a minha. Não tinha medo, mas tampouco me sentia confortável. Queria falar “foi um prazer”, pegar minha bolsa e ir embora. Edson, porém, pressentiu meu desejo e me pegou pelo braço, continuando a apresentação despropositada.

 

“Não tinha medo, mas tampouco me sentia confortável. Queria falar “foi um prazer”, pegar minha bolsa e ir embora.”

 

– Mas cada um aqui tem um apelido. O meu é Salsicha. – agradeci mentalmente a Deus, já que eu nunca iria me acostumar a vê-lo como Edson – Todo mundo chama o Bruno de Mastodonte – apelido razoável tendo em vista o tamanho dele – e o Cláudio é o Graveto.

– Graveto é o caralho. – retrucou o Cláudio.

– Ou então você pode chamá-lo de Cláudio, se preferir. – respondeu Salsicha, muito bem humorado. Eu sorri, assim como o Mastodonte. Os três ficaram me encarando como se esperassem alguma coisa… Claro!

– Meu nome é Soraya, mas muita gente me chama de Sol.

– Soraya combina com você. Bem, você deve estar se perguntando por que nós trouxemos você aqui. Nós somos a Banda Band-Aid. Você ouviu falar da Cruz de Fogo, a escola que fechou? Pois então, nós éramos de lá e já tocamos juntos tem um tempo.

– Legal. – respondi sem ter o que dizer.

– Nosso problema é que não temos um vocalista. – continuou Salsicha.– Não, não. Nós temos um vocalista sim: o Edson. Só que ele é tão ruim, mas tão ruim, que ele mesmo admite a própria incompetência. – bradou o Cláudio lá do fundo.

– É! Talvez eu não seja um bom vocalista – seguiu Salsicha revirando os olhos – Mas o fato é que nós te ouvimos cantando na quinta passada e nós achamos você boa. Muito, muito boa.

 

“Não esperava nunca ser convidada para cantar nem em um karaoquê, imagina se iria me imaginar cantando em uma banda de verdade.”

 

Ignorando o duplo sentido da frase, já estava implícito que eles estavam me fazendo um convite para participar da Banda Band-Aid. Aquilo me surpreendeu. Não esperava nunca ser convidada para cantar nem em um karaoquê, imagina se iria me imaginar cantando em uma banda de verdade.

– Olha, eu fico realmente lisonjeada, mas… Vocês têm certeza absoluta que me ouviram cantando? Podia ser na hora em que o Fernando estava cantarolando e ele realmente tem muito talento, mas eu… Não presto nem para o violão. – disse eu sem graça.

– Não. Tenho certeza que era você. Ele não ia conseguir nem metade daqueles agudos.

– Mas… Nossa! Realmente eu não sei o que dizer.

– Diga sim!

– É…

– Você não precisa responder agora, OK? Pensa melhor e vai lá na sala… Qual a sala da banda do colégio aqui? Acho que é a 25. Vai na 25 assim que acabarem as aulas. – falou o Mastodonte.

 

“Está implícito na nossa condição de rebeldes sem causa. E eu também adoro música, já disse aqui e não canso de acreditar que a música me aproxima de decifrar quem sou eu. Mais até que o espelho.”

 

Não deu tempo d’eu responder mais nada já que o sinal bateu nessa hora e ia ter aula com a professora de Álgebra, D. Selma, que sempre fecha a porta assim que entra e depois dela, mais ninguém passa. Saí correndo desesperada e gritei um “eu vou pensar”.

É óbvio que todos os adolescentes do planeta querem participar de uma banda. Está implícito na nossa condição de rebeldes sem causa. E eu também adoro música, já disse aqui e não canso de acreditar que a música me aproxima de decifrar quem sou eu. Mais até que o espelho. Aquela situação, todavia, me deixou meio encabulada.

Prestei o máximo de atenção possível, mas não deu muito certo. Adorava a tentadora visão da minha posição de destaque no palco enquanto meus fãs me atiravam rosas do tamanho e da cor de um coração de boi. Mas isso não é para mim. Não é preciso ser especialista para entender que eu apenas não funciono para comunicar pela voz.

 

“Adorava a tentadora visão da minha posição de destaque no palco enquanto meus fãs me atiravam rosas do tamanho e da cor de um coração de boi.”

Assim que bateu o sinal da última aula, eu fui falar com o Pedro e expor a minha dúvida. Não gosto de deixar as novidades se acumularem antes de falar com ele, então repassei tudo que aconteceu desde a festa. Ele achou engraçada a história do Mr. M e ficou me imitando dando mole para o bonitão, mas, em compensação, me deu a maior força pra ir tocar com a banda. Ele disse que ia ser “super” – ele está tentando emplacar essa gíria – ter uma amiga que, além de popular pela loucura e falta de cabelo, também canta.
Foi o Pedro que me levou até a porta da sala 25.  Essa sala pertence à fanfarra da escola, praticamente desativada na última gestão e que nunca mais voltou à força total, mas que ainda mantém como patrimônio uma sala de acústica muito boa. Apesar de muito novos na escola, descobri depois que os meninos da banda passaram a fazer parte da tentativa de ressuscitar o projeto e assim conseguem usar a sala quando ela tá vaga. De fora já deu pra ouvir o barulhão que eles estavam fazendo dentro, só não deu pra definir se era bom ou ruim. Eu fiquei com um pouco de medo.

 

“Ele disse que ia ser “super” – ele está tentando emplacar essa gíria – ter uma amiga que, além de popular pela loucura e falta de cabelo, também canta.”

 

– Entra comigo?

– Imagina, claro que não! Eu ainda estou meio zonzo. Acho que ainda devem ter muitas partes de álcool por mililitro do meu sangue. Nem sei como é que eu tô conseguindo ficar de pé. Você é forte o bastante para encarar esse Band-Aid. Vai lá que amanhã você conta tudo pra mim.

*

Quando eu entrei, eles estavam tocando ‘Por Você’ do Barão Vermelho, sem dúvida uma das melhores músicas da década de noventa – que, porém, na voz do Salsicha ficava um lixo. Mesmo. Uma merda. Quase fui embora de medo que meus tímpanos saíssem correndo sem mim.

Assim que eles me ouviram entrar, pararam de tocar (por Deus!) e sorriram para mim, mais um pedido de desculpa do que cordialidade. O Mastodonte toca bateria, único instrumento em bom estado. O Salsicha toca uma guitarra mal-acabada e o Cláudio fica com o baixo – que só tem três cordas funcionando. Apesar dos problemas em relação ao estado dos instrumentos, as melodias deles pareciam muito bem executadas. Eles só precisavam mesmo de uma boa voz – mas certamente não iam encontrar isso em mim.

 

“Eles só precisavam mesmo de uma boa voz – mas certamente não iam encontrar isso em mim.”

 

– Você veio! – falou o Mastodonte ainda segurando o sorriso simpático em seu rosto de traços implumes (Esse eu vi no dicionário mais cedo. Significa “que não tem penas”, “que é jovem”).

Eu respondi com uma carinha de falsa empolgação e, a convite deles, subi no palco. Pisei com o pé direito, respirei fundo e acabei travando. Não conseguia sair do lugar de tão nervosa. Tentei ser simpática enquanto recuperava o controle dos meus músculos.

– Lindo o seu baixo – disse ao Cláudio.

– Brigado. E você, toca alguma coisa? – perguntou o Cláudio.

– Eu arranho o violão, mas eu estou só começando.

– É ruim?

– Bastante.

– Já fez aula de alguma coisa?

– Balé serve?

 

“Estava tensa com o clima de avaliação, como se cada resposta que eu desse fosse a chave da porta de saída, não da de entrada.”

 

Ele não achou graça da minha piada, só eu e Salsicha rimos. Estava tensa com o clima de avaliação, como se cada resposta que eu desse fosse a chave da porta de saída, não da de entrada. Fez-se um silêncio pegajoso na sala. O Mastodonte, então, começou a falar no lugar do Cláudio. Ele era bem mais simpático, embora ainda mais exigente.

– Que tal nos atermos ao que é importante?

– Tem razão, o importante. Você se importa de cantar um pouco para nós? – Mastodonte perguntou pronunciando o verbo como um locutor de rádio antigo. Ele e todos os outros passaram a me olhar intensamente com caras de ave de rapina.

– Não me incomoda nada! Bom que a gente já desfaz esse mal-entendido… Não tenho nenhuma música em mente. Pode ser ‘Por você’, que vocês já tavam tocando quando eu entrei.

 

“Queria apenas ir embora dali, o mais rápido possível, mas não poderia sair fugindo – queria viver a experiência.”

 

Nem sabia a letra dessa música toda, mas como ouvi eles tocarem, preferi não arriscar. Não tinha grandes pretensões de ser reconhecida como cantora, queria apenas ir embora dali, o mais rápido possível, mas não poderia sair fugindo – queria viver a experiência. De modo que segurei o microfone, que já estava pronto, fechei os olhos e tentei ignorar as mãos suadas e trêmulas que só faziam crescer a estranha sensação de “o que eu tô fazendo aqui?”. Fiquei tão nervosa que perdi o tempo da entrada. Eles deram um jeito de repetir tudo para eu voltar na música. Quando era a vez certa, Salsicha estralou os dedos para mim.

– Por você, eu dançaria tango no teto. Eu limparia os trilhos do metrô. Eu iria a pé do Rio à NaNaNa…

Na hora eu não consegui me lembrar de jeito nenhum que a segunda cidade era Salvador. Engasguei e só consegui retomar a letra pulando os dois versos da sequência. Agradeci muito por estar posicionada de costas pra eles, já que eu estava fazendo umas caretas horríveis e a minha voz saiu super masculina. Errei o tom, desafinei vergonhosamente, mas depois de começar teria que ir até o fim.

 

“Errei o tom, desafinei vergonhosamente, mas depois de começar teria que ir até o fim.”

 

Na segunda parte da música, já tava mais habituada àquilo. Pensava que tinha que aproveitar aquela minha única chance de cantar acompanhada com uma banda – fiz até uns jogos com a voz. A música, a música que eu fazia, foi entrando em meus ouvidos como um bálsamo. Vindo de minha imaginação, um globo de luz desceu do teto e brilhou para me ouvir cantar.

Quando a música acabou, porém, fiquei meio envergonhada. Me deixei levar e deixei de levar em conta o contexto enlouquecido em que tudo aquilo tinha acontecido. Nem queria olhá-los nos olhos de tão encabulada, mas ouvi sorrisinhos e bochichos e não aturaria que rissem da minha cara na minha frente.

 

“Vindo de minha imaginação, um globo de luz desceu do teto e brilhou para me ouvir cantar.”

 

Levantei a cabeça com fúria, pronta para brigar com eles – foi quando vi que eram risos de felicidade. Eles estavam boquiabertos. O Mastodonte até me aplaudiu. Não sei se foi por que eu canto bem ou por que eles já estavam muito acostumados com o Salsicha cantando (hipótese dois mais provável, na minha opinião). Só sei que estava me sentindo muito plena. Nunca tinha passado pela minha cabeça que poderia um dia cantar com uma banda pra valer, mas acima de tudo nunca tinha passado pela minha cabeça me sentir tão feliz por estar ali.

– E aí? – perguntei sem fôlego.

– Quando que tu começa? – respondeu Cláudio.

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