Recorte 29

recorte-29

 

Qual sentido humano que primeiro descobre o amor? Qual a parte do corpo que primeiro se apaixona? É difícil dizer, mas estou convicta de que não é a visão, como muito se alardeia. Há desejo, há interesse à primeira vista; o amor, porém, não nasce nos olhos. Onde então? Diria que no tato. A pele é o conduíte do sentimento, é por ela que se destravam pouco a pouco as fronteiras do relacionamento, é ela que primeiro sente a presença do amado, arrepiando-se por inteira, revelando o magnetismo dos corpos. O paladar vem depois, pelo gosto da saliva, da nuca, da orelha, dos peitos, dos segredos. Talvez ao mesmo tempo que o paladar, talvez até antes, está o olfato. Não há nada mais sensível que reconhecer a fragrância pessoal, não a que se compra em vidrinhos no supermercado, mas aquela que os corpos exalam por detrás da orelha, que deixam nas roupas, que impregnam na mente. Ainda antes do olho está o ouvido. A voz do amado se reconhece em qualquer situação, mesmo quando não há voz. Uma vez que se ame, a voz grava-se no cérebro e é possível adivinhar as frases a serem ditas antes mesmo da história ser contada. O último dos cinco sentidos a amar é pelo olho. Conhecemos uma pessoa que é bonita. Quando namoramos já é bonita mais um, no noivado já se está em vezes dois, no casamento já se tratam de potências. O olho que ama não vê corpos, não vê envelhecimentos, gorduras. O olho que ama vê almas. Quanto mais conectas, mais lindas.

Anúncios