Entrecapítulo 10/11

entrecapitulo-7

 

Trilha sonora: ‘Top top’ – Os Mutantes

Estávamos eu e meu trio de amigos reunidos na cantina, na mesa 7, nosso patrimônio. Parecia tudo muito feliz e só melhorou quando o Salsicha e o Mastodonte para falar comigo. Aproveitei a ocasião e os apresentei pra galera. Eles já puxaram as cadeiras e se entrosaram muito rápido no nosso grupo. Seria o dia perfeito. Já estávamos imaginando o que iríamos fazer no fim de semana, programando ensaios, bebedeiras e trabalhos em grupo… Eu estava desfrutando de meus pensamentos felizes. Porém, isso tudo foi antes da aula de português.

Nós tínhamos aula com o professor Mário (não faça a velha piada, por favor), um cara bem jovial e muito engraçado, além de ser ótimo professor. Naquelas últimas semanas, no entanto, ele vinha se portando de uma forma bem esquisita, muito mais séria. Nós esperávamos que com o tempo ele voltasse a ser aquele cara por quem vale a pena aprender orações coordenadas assindéticas. Mas não foi o Mário que entrou na sala para dar a aula.

 

“Eu estava desfrutando de meus pensamentos felizes. Porém, isso tudo foi antes da aula de português.”

 

Entrou uma mulher que devia ter uns quarenta anos, mas com corpo de vinte. Usava o cabelo em um coque pra cima e um sapato com um salto tão grande que ainda é um mistério como ela passou pela porta da sala. Devo confessar que acho unha grande muito bonito, mas a unha dela não é grande, é enorme. Mal ela escreve no quadro de giz. Fiquei pensando como deve ser horrível ter coceira no olho com uma unha daquela.

Só dela me olhar, fiquei meio nauseada. Apenas a imagem daquela mulher me causou uma impaciência inexplicável. Você já passou por isso? Você detesta a pessoa sem nem saber o nome dela, coisa de vidas passadas, de santo, de aura, sei lá. Todos os homens da sala, porém, pareciam estar vendo uma pessoa diferente. O Tito a despia com os olhos de uma forma tão descarada que eu não sei como ela não ficou envergonhada. O Gago, amigo do Tito, parecia hipnotizado pela bunda que se mexia vigorosamente dentro da saia de alfaiataria. Até o Mr. M se livrou de sua apatia só para oferecer ajuda à professora que entrou carregando uma enorme quantidade de diários.

 

Apenas a imagem daquela mulher me causou uma impaciência inexplicável. Você já passou por isso? Você detesta a pessoa sem nem saber o nome dela, coisa de vidas passadas, de santo, de aura, sei lá.

 

– Obrigado. Bom dia a todos. Meu nome é Sabrina Montenegro, eu serei a nova professora de português de vocês. O professor Mário teve alguns problemas de ordem pessoal e teve de sair da escola, mas todo o conteúdo que tenha sido eventualmente perdido será reposto. Agora abram o livro na página 83 e acompanhem comigo o exercício número quatro, por favor.

O conteúdo era colocação pronominal, mais especificamente os casos em que ocorre próclise. Nos meus dias de depressão havia lido aquele assunto, então minha atenção foi lentamente se desviando para o desenho que eu tinha começado a fazer na borda do caderno.

Não sou uma boa desenhista, mas existem duas coisas que sei desenhar perfeitamente bem: a Esplanada dos Ministérios e o Bob Esponja. Já desenhei o meu personagem preferido da TV tantas vezes que fiquei craque.

 

Quando eu notei, unhas tão grandes quanto as do Zé do Caixão e muito mal pintadas em vermelho vivo repousavam nas folhas do meu caderno.

 

Quando eu notei, unhas tão grandes quanto as do Zé do Caixão e muito mal pintadas em vermelho vivo repousavam nas folhas do meu caderno. Olhei para cima e a professora Sabrina me encarava com superioridade.

– Posso saber o que você está fazendo, mocinha?

– Pode. Eu estou desenhando o Bob Esponja.

 

Seus saltos rangeram em todos os azulejos do prédio. Seus olhos crispavam centelhas de fogo. Percebi que era melhor ter ficado calada.

 

Sabrina se virou lentamente. Seus saltos rangeram em todos os azulejos do prédio. Seus olhos crispavam centelhas de fogo. Percebi que era melhor ter ficado calada. Ela voltou a sua impassividade natural, pegou a bolsa (feita do couro de um desses répteis exóticos, acho que de alguma cobra) e retirou de lá uma caneta que mais parecia uma árvore de natal de tão enfeitada. Pra falar a verdade, só percebi que era uma caneta quando ela pegou também um conjunto de papéis azuis que a escola usa para emitir sanções.

– Como é seu nome?

– Para que a senhora quer saber?

– Para assinar a advertência.

A V quase caiu da carteira quando ouviu essa palavra. Não posso negar que eu também me assustei, mas não foi uma surpresa apenas por estar recebendo uma advertência, fiquei muito mais surpresa por não haver motivos para isso. Quer dizer, se eu fosse professora e pegasse uma aluna minha desenhando eu a colocaria pra fora de sala, mas não seria tão má.

– Desenhar durante as aulas é um crime? Então abra o caderno de qualquer um nessa sala que você…

– Eu não estou te dando uma advertência por desenhar. Estou te punindo por me indispor com a turma, por não copiar o conteúdo…

– Mas eu já sei essa matéria que a senhora está ensinando.

– … E também por se achar melhor que os colegas e os professores.

– Eu não me acho melhor que meus colegas e não indispus professora nenhuma com o resto da turma!

Ela apenas sorriu. Foi aí que percebi que ela é uma dessas professoras ridículas, daquelas que não admitem que o aluno saiba alguma coisa sem que ela tenha explicado. Essa última que ela disse de “se achar” me deixou verde de raiva, confesso. Peguei minha mochila e ia sair da sala. Ela segurou a porta. Toda a turma nos olhava com um interesse incrível, os olhos deles iam de uma para a outra como se acompanhassem uma partida de tênis. A professora Sabrina me olhou bem no fundo dos olhos.

– Você não vai sair daqui até me dizer como é seu nome?

– É Soraya. – gritou a V lá do fundo.

É incrível como ela sempre faz exatamente o que não deveria fazer quando fica nervosa. Eu desviei o olhar da professora para dar dedo para a V, mas ela estava tão pálida e trêmula que não tive coragem. Então virei para a professora e disse:

– Meu nome é ‘Vai se Danar’.

 

“É o prazer de ser maligna, orgulhosa e superior. “

 

Puxei a porta com toda a força que eu tive e finalmente sai da sala.  Provavelmente se eu não tivesse me despedido dela daquela maneira eu só ganharia a advertência verbal, mas aquilo me deixou tão possessa que três dias de suspensão foram muito bem compensados. Sempre que eu faço uma maldade ou uma maluquice bem lá dentro da minha cabeça, os meus neurônios começam trabalhar frenéticos, tocando um rock bem pesado que só eu posso ouvir. Fazer coisas desse tipo me dão um prazer muito especial, diferente do sexo, da alegria, de estar em uma montanha russa. É o prazer de ser maligna, orgulhosa e superior. Esse prazer é que me deixou mais leve e até me permitiu rir um pouco dos olhos esbugalhados que a professora fez quando eu falei meu nome “real”.  Ser má me faz ficar viva, mas será que eu pagarei o preço por isso?

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