Capítulo 11 – História de amor

Post-Capítulo-11

 

Como eu tomei uma suspensão de três dias, fiquei em casa na segunda, na terça e ontem. Estou aproveitando o resto do meu “domingo eterno” para atualizar meus perfis em aplicativos de relacionamento – fiz um Tinder, mas não aparece ninguém interessante por lá – e estou ouvindo as músicas do repertório da Banda Band-Aid. Eles tocam cinquenta músicas, todas dos anos 1980. Três anos de banda e nenhuma música autoral? A trilha sonora de hoje, a propósito, é cortesia da Banda Band-Aid, já que ele me fizeram ouvir essa música trinta vezes em menos de dois dias. Nem tudo é só diversão quando se é parte de uma banda.

Conheça as maneiras de acompanhar a história

Leia o Capítulo 10

*

Minha mãe ainda não sabia que eu havia sido suspensa. No fim de semana, estava com muita raiva do mundo pra poder falar sobre o papel amarelo amassado na minha mochila. Na minha escola os papéis de aviso têm uma graduação de cores: do verde, que é a falta de entrega de um trabalho, até o vermelho, que é um “convite” para se retirar. Me arrependi de não ter ficado calada e só com o meu papel azul.

 

“Quanto mais atrasasse, mais minha mãe ficaria com raiva. Melhor irritar o demônio.”

 

De qualquer forma, quanto mais atrasasse, mais minha mãe ficaria com raiva. Melhor irritar o demônio. Meu padrasto, que é sete mil vezes mais calmo que minha mãe, não está registrado na minha escola como meu responsável e por isso não pode assinar nada. Meu pai nem conta, levaria semanas só para conseguir marcar de encontra-lo. Então, na segunda eu tive a ideia brilhante de tirar o papel da bolsa e colocá-lo preso à geladeira, aí minha mãe só o veria às cinco da manhã da terça, depois de dois comprimidos para dor de cabeça e uma garrafa de café, e não teria raiva de um papelzinho bobo qualquer.

Só que eu não sabia que minha mãe ia resolver tomar um chá para acalmar os nervos às onze da noite e ia entrar na cozinha justo na hora em que eu estava pregando o papel com o imã em formato de pato. A primeira coisa que seus olhos focaram foi àquela coisinha laranja dançando nas minhas mãos, com minha cara de criminosa como pano de fundo.

 

“Palavras são tão duras quanto tapas. Quanto pedras. Entre as ofensas está uma frase que deveria ser apagada para sempre do vocabulário materno pela força que ela possui: “Você me decepcionou muito, filha”.”

 

– SORAYA!!!

Você não tem noção do tanto que eu escutei. Minha mãe me falou todas as coisas erradas que eu fiz na minha vida inteira e fez questão de frisar a crítica na parte do “vai se danar” – ela me deu dois cascudos quando leu, a propósito. Ela passou a tremer e me mandou para o quarto, pedindo para que eu não saísse de lá. Não é que seja um castigo, mas quando minha mãe fica com raiva ela nos manda “sumir” para não acabar machucando a gente de verdade.

Mas as palavras são tão duras quanto tapas. Quanto pedras. Eu não consegui dormir e passei a noite chorando. Já não é fácil ouvir ofensas, pior ouvi-las da sua própria mãe. Entre as ofensas está uma frase que deveria ser apagada para sempre do vocabulário materno pela força que ela possui: “Você me decepcionou muito, filha”.

*

Minha mãe me acordou de madrugada, pouco antes de sair para o trabalho. Ela já tinha assinado o papel e me entregou ele perfeitamente dobrado. Na terça, eu paguei o preço de um fim de semana de ócio e tive de fazer pilhas de deveres – por pura obrigação.

V me ligou na segunda à tarde para passar o que havia sido estudado. Pra falar a verdade, ela passou a maior parte do tempo me atualizando das fofocas escolares. Combinamos de nos encontrarmos. Ela prometeu faltar a escola em solidariedade a mim, comprar pretzels e ver filmes no Netflix. Aceitei.

 

“Esse é o jeito da minha mãe pedir desculpas – sem nunca pronunciar de fato essa palavra.”

 

Minha mãe permitiu que eu fosse sem nem pensar e até me ajudou a fazer a mochila. Ficamos caladas uma ao lado da outra enquanto eu passava as coisas que queria levar e ela organizava a “mala”. Antes de sair ela me abraçou. Esse é o jeito da minha mãe pedir desculpas – sem nunca pronunciar de fato essa palavra – e é assim que tudo fica bem nessa casa desde o princípio de tudo.

Cheguei na casa da V às duas. Ela mora com a tia em Taguatinga, numa casa que, na verdade, fica há menos de cinco quilômetros da minha. Ela é órfã e a tia dela não teve filhos, por isso quando os pais da V morreram ela criou a menina (foi um acidente de carro, pelo que sei). Mas essa parte horrível da história delas foi totalmente apagada. A tia da V é uma versão duas vezes mais velha e animada da sobrinha.

 

“A tia dela disse que era lindo, ou seja, é tudo um dramalhão do inicio ao fim.”

 

Fomos ver o filme, mas sem pipoca ou refrigerante, já que a V tem um desfile e um ensaio fotográfico na semana que vem e até lá ela irá viver de luz. O nome do filme era Love Story- Uma História de Amor. A tia dela disse que era lindo, ou seja, é tudo um dramalhão do inicio ao fim. “Amar quer dizer nunca ter que pedir perdão”, eles dizem algumas vezes. Quando terminou, nós três chorávamos tanto que a não conseguíamos nem falar. Foi nesse momento irrespirável que meu celular tocou:

– Alô?

– Alô!

– Que é que está falando?

– É o Edson.

– Quem?

– O Salsicha.

 

“Nesse momento irrespirável que meu celular tocou”

 

– Ah! Desculpa não ter reconhecido.

– Não, imagina… Você tava chorando?

– Não, não tava chorando. Quer dizer, eu tava, mas é que eu e a V estávamos vendo um filme e ele é muito triste, mas foi só.

– Ah! Tá bom.

 

“Já não falávamos há um minuto, mas tampouco desligávamos o telefone.”

 

Pausa prolongada. Eu tive muita impressão de que ele ia falar alguma coisa, mas desistiu. Não sabia o que fazer, já não falávamos há um minuto, mas tampouco desligávamos o telefone. Estava muito agoniada, aquela inquietude que temos só quando o silêncio abafa nossa garganta, então tive que fazer essa indelicadeza:

– Desculpa perguntar, mas pra quê que você ligou, mesmo?

– É… Eu liguei… Liguei para te indicar umas músicas pra você ouvir. Fiquei sabendo que você foi suspensa e tals. Chato, né?

– Também acho.

 

“Não entendi qual era a dele.”

 

Não entendi qual era a dele. Depois disso ele falou o nome de umas duas músicas muito comuns do Kid Abelha que já estavam na lista anterior. Provavelmente ele vai querer ensaiá-las na quarta, mas eu ainda não me sinto bem o bastante para cantar “tira essa bermuda” sem achar que estou fazendo papel de ridícula.

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