Capítulo 12 – O monstro da gandaia

Post-Capítulo-12

 

Trilha sonora: ‘Gandaia’ – Karol Conka

 

Desliguei o telefone e a mente daquela ligação maluca do Salsicha, fui tomar banho para dormir. Havia deixado meu pijama sobre o colchão de ar em que dormiria antes de ir para o chuveiro. Quando voltei, porém, meu pijama tinha, num passe de mágica, se transmutado em um vestido vermelho curtíssimo.

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Leia o Capítulo 11

Releia o Capítulo 1

– Quê que é isso? – perguntei à V apontando para aquela coisa que sem dúvida não cabia em mim.

– Vamos numa festa.

– Não, não vamos.

V só fez uma careta e jogou o vestido em mim. O Fernando tinha ligado pra V nos convidando. Fui relutante no inicio, depois aceitei e caí pra trás ao saber que o vermelhinho é a roupa mais longa da V. O vestido feito de bandagens elásticas fechou em mim como uma espécie de espartilho.

 

“Me vi quase pelada de madrugada, na beira d’água e sem possibilidade de retorno”

 

A tia dela nem se importou de tirar o carro da garagem a meia-noite e viajar quase trinta quilômetros para nos deixar no Setor de Clubes, bem na margem do lago. Ela mesma ia para outra festa e nós só precisaríamos ligar quando quiséssemos ir embora que a carona estava garantida. No fim, eu, a pessoa mais friorenta do mundo, me vi quase pelada de madrugada, na beira d’água e sem possibilidade de retorno.

Meu queixo estava batendo, o frio doendo os ossos. A festa estava lotada. Não tinha espaço nem para respirar – pelo menos daquele jeito ficava mais quente. A V desapareceu em segundos. Me sentei sozinha em uma mesa de 10 lugares bem distante da pista de dança. Acabei gastando todo meu dinheiro em refrigerantes que me fizeram companhia, mas isso foi só até eu perceber que estava barriguda de tanto bebê-los.

 

“Como não estava ouvindo direito, fui me afastando e andando quase que sem rumo”

 

Só tava ali há uma hora e já queria ir embora. O Fernando estava atrasado e a V estava andando com duzentos caras ao mesmo tempo. Saí do salão, fui conhecer o clube.  Como o som lá dentro estava muito alto eu tive um tempo naquele estado de semi surdez, quando você escuta tudo, mas as coisas parecem estar muito, muito, longe.

Como não estava ouvindo direito, fui me afastando e andando quase que sem rumo. Cheguei até a área de piscinas. São três, uma para crianças, uma normal e uma olímpica, todas destampadas. Tenho uma paixão por piscinas mesmo que já tenha quase morrido numa delas. Apesar do frio que estava sentindo, fiquei com muita vontade de mergulhar meus pés ali na água. Acho que até teria feito, mas, como eu já havia recuperado minha audição, comecei a ouvir um barulho estranho e curioso vindo do lago. Era como o som de ondas do mar que se chocam com rochedos. Algo meio raro para um lago no meio de um planalto, portanto.

 

“Comecei a ouvir um barulho estranho e curioso vindo do lago. Era como o som de ondas do mar que se chocam com rochedos. Algo meio raro para um lago no meio de um planalto, portanto”

Alguma coisa inconsciente me levou a caminhar até o barulho estranho e não me afastar dele.  Fui me aproximando do Paranoá. A parte mais próxima ao lago era um ancoradouro. A maioria dos barcos já estava em terra, cobertos por uma lona. Mas havia quatro ou cinco ainda na água, brilhando. Adorei ficar ali, apesar do frio polar que fazia. Não sabia ao certo onde terminava o chão e onde começava o lago, tamanha a escuridão. Havia uma lancha próxima que, ao sabor do vento, ficava batendo na madeira da doca,  a origem do barulho esquisito que ouvi.

Só conseguia olhar para o maior barco de todos, o último do cais. Era o Rainha do Lago, um barco lindo, todo iluminado. Ele era tão grande que devia ser maior que o minha casa. Fiquei admirando cada um dos detalhes prateados em meio a carapaça branca. Era um barco feito pra viajar o mundo, não pra ficar preso numa poça d`água como aquela.

 

“Fui me arqueando de modo a arrastar as pontas dos dedos na madeira úmida e descobrir um caminho seguro para sair logo dali. Uma mão gelada, então, se apoiou nos meus ombros.”

 

Foi por ai que bateu um vento frio em mim e me lembrou de que eu estava em um cais deserto e completamente escuro às duas da manhã.  Não era legal. Os barcos começaram a ranger e eu percebi que, em meio àquele breu, já não sabia mais para onde deveria caminhar. Uma onda de pânico me invadiu. Fui me arqueando de modo a arrastar as pontas dos dedos na madeira úmida e descobrir um caminho seguro para sair logo dali. Uma mão gelada, então, se apoiou nos meus ombros.

Gritei como se tivesse sido esfaqueada.

Levei um susto tão lendário que andei para trás ao mesmo tempo em que me abaixava e tentava proteger meu rosto. Esse movimento brusco acabou jogando a minha perna dentro da água e meu joelho bateu com toda força na madeira. Finquei as unhas na pele de quem me atacava, tentando atacar e me segurar ao mesmo tempo.

 

“Esse movimento brusco acabou jogando a minha perna dentro da água e meu joelho bateu com toda força na madeira. Finquei as unhas na pele de quem me atacava, tentando atacar e me segurar ao mesmo tempo.”

– Ai, ai, solta meu braço! Calma! Sou eu, o Guilherme. Você não devia andar por aqui sozinha, é um lugar perigoso.

– E você deveria se anunciar antes de ir tocando as pessoas! Principalmente por aqui ser um lugar perigoso.

Eu falei isso de uma maneira bem ríspida, mais do que tinha a intenção. Dolorida, dei meu braço a ele – sem unhas dessa vez – e me sentei na madeira. Fiquei limpando a minha perna da água suja e das algas que tinham entrado no meu sapato enquanto tentava me equilibrar.

 

“Meu corpo estava todo molhado e o vestido, que já era colado, tinha virado uma pintura corporal”

 

Senti que meu corpo estava todo molhado e o vestido, que já era colado, tinha virado uma pintura corporal em mim. O vento que começou a soprar incessantemente me congelava de fora pra dentro. O salto do meu sapato que estava seco havia entortado pelo impacto com o chão.

– Meu Deus! A V não vai me perdoar, esse sapato é caríssimo. Ela roubou de um desfile.

– Me desculpa, de verdade. Não era minha intenção te assustar.

– Que bom.

Tentei puxar pela memória quem era Guilherme e não consegui até ver os olhos dele num relance de luz que vinha do celular. Era o Mr. M. Nós saímos daquele cais e quando chegamos novamente à luz, fiquei ruborizada. A renda negra de minha calcinha aparecia a cada passo que eu dava. E eu podia sentir o olhar de Guilherme pesando sobre ela. Estiquei a roupa gélida até onde ela permitiu – um quarto de coxas – e, tremendo de frio, prendi o vestido no meio da perna.

“Não o reconheceria se ele não tivesse se apresentado, parecia um jovem executivo, não um dorme-sujo”

Só então olhei para ele de verdade. Guilherme estava mesmo muito bonito vestindo aquela roupa tão aprumada. Não o reconheceria se ele não tivesse se apresentado, parecia um jovem executivo, não um dorme-sujo.

– Muito obrigada por ir me avisar, era realmente perigoso.

– Eu que peço desculpas. Você nem sabia quem era eu, né?

– Eu sei seu nome, mas só de ouvir na chamada. Nós nunca nos apresentamos, né? Meu nome é Soraya.

– É. Eu também lembrava do seu nome da chamada. Bom… Meu é Guilherme. – disse ele coçando a nuca.

 

“Aproveitei que ele não me conhecia de verdade e interpretei a personagem do vestido, uma mulher resoluta”

 

Aproveitei que ele não me conhecia de verdade e interpretei a personagem do vestido, uma mulher resoluta, fazendo o que dava vontade. Dei um beijo na bochecha dele – e os pelos da minha nuca se arrepiaram.

– Brigadinha… Eu tenho que ir.

Senti que ele me acompanhava com o olhar. Exatamente por isso fiquei segurando o vestido para que ele não mostrasse a calcinha. Exatamente por isso joguei o quadril como uma gangorra a cada passo. Encontrei a V alguns minutos depois, com muitos colares no pescoço e com a voz já levemente arrastada pelo álcool. Dançamos um pouco. Rimos muito. Minha cabeça, porém, estava em outro lugar. Pensei no que Guilherme estava fazendo ali.

Então eu vi um garçom passando com uma bandeja de sanduíches –e comida em festa é sempre muito disputada, ainda mais quando é de graça. Sai correndo atrás dele, mas quando cheguei já era tarde. A pessoa a pegar a última empada saiu da minha frente descortinando um pedaço da multidão bem no exato momento em que Guilherme passava.

 

“A garota incrível se virou e me olhou no fundo dos olhos.”

 

Pensei em ir dar um tchau pra ele. Mas percebi que Mr. M estava indo para um canto, abraçado com uma garota que eu não reconheci de imediato. Eles estavam falando alguma coisa aos ouvidos e então ele riu e gritou: “eu te amo”. Gritou tão alto que eu ouvi. Eu estava há uns dois metros deles, observando atenta. Eles trocaram um aperto de mão. A garota incrível se virou e me olhou no fundo dos olhos. Com os olhos esbugalhados eu percebi que ela era a Débora, a menina de traços indígenas e antenada para a moda que estuda na nossa sala.

Como eu fui burra. Eu nem tinha percebido que eles tavam tendo alguma coisa. Mas é claro! Ela era a única pessoa que falava com o Mr. M, quem se aproximaria de alguém tão bizarro com outra intenção? Ela veio andando até mim desviando dos corpos suados que batiam nela como pinos de boliche. Tentei sair do lugar, mas a mistura de cerveja e falta de limpeza do chão funcionava como uma cola para meus sapatos molhados. Para conseguir fugir, virei de costas me agarrando à cintura de um menino chapado, que apertou a minha bunda e do qual eu me desvencilhei com um arranhão. Me misturei à multidão e olhava para trás como se a Interpol me perseguisse.

 

“Estava me sentindo ridícula e com raiva, sem paciência para nada, muito menos para a batida eletrônica repetitiva que soava no salão”

 

Quando voltei a me sentir minimamente segura, comecei a procurar por V. Estava me sentindo ridícula e com raiva, sem paciência para nada, muito menos para a batida eletrônica repetitiva que soava no salão. Quando encontrei V, tomei-a pela mão segundos antes de um tarado sem camisa se aproximar dela. Envolvi a cintura dela e comecei a puxá-la sem nenhuma explicação. Ela, porém, não reclamou, só disse que eu ficava “muito gata” com aquele vestido. Ignorei o elogio e disse que queria ela ligasse para a tia dela. Ela obedeceu como se eu fosse uma espécie de comandante e, depois de pedir a carona, ficou com a cabeça encostada no meu ombro e me envolveu em um abraço apertado – que era muito mais uma busca por equilíbrio em meio ao álcool do que uma demonstração de carinho.

Me odiava por só conseguir pensar no tal de Guilherme. Ele atirava pra todos os lados, V, Débora, queria saber de todas as meninas. Menos de mim. E eu me importava com o desprezo dele. Não sabia nem seu nome direito, mas me importava – e era isso que me dava ódio.

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