Capítulo 13 – A beata e o nerd

Post-Capítulo-13

Trilha sonora do dia: ‘ Daniela’ – Biquíni Cavadão

 

– Daniela! Lembra de mim?

– Ah! E aí… Pedro, né? Pedro! Já se recuperou do seu porre?

 

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Leia o capítulo 12

 

– Já! Eu nem bebi tanto. Mas é que foi a primeira vez que eu bebi, então acho que por isso os efeitos colaterais foram mais devastadores.

A Dani colocou as mãos na cintura e sorrindo falou:

– Sério? A primeira vez que você bebeu foi na minha casa?

– Foi.

– Ah! Então nós temos que comemorar.

– Pode ser, desde que nada envolva álcool.

– E existe outro tipo de comemoração? Brincadeira! Relaxa, não vai envolver álcool… Na verdade, posso te contar um segredo? Também foi minha primeira vez.

 

“Na verdade, posso te contar um segredo? Também foi minha primeira vez.”

 

– Sério? Mas você pareceu beber muito.

– Eu tinha que aproveitar. Meus pais são muito religiosos então eu só era autorizada a tomar vodca, suco, nada alcoólico.

– Mas vodca é bebida alcoólica.

– É. Eu sei. Era uma piada… Sarcasmo.

– Desculpa. Eu não sou bom com ironias.

Ela gargalhou como se tivesse ouvido alguma coisa de fato engraçada.

 

“Garanto que a Cinderela estará lá antes da décima segunda badalada.”

 

– Eu percebi e eu te desculpo, mas só se o nosso encontro ainda estiver de pé. Temos que comemorar nosso primeiro porre.

– Tá bem.

– Sábado?

– Tá, mas eu não posso chegar em casa depois de meia-noite.

– Garanto que a Cinderela estará lá antes da décima segunda badalada.

*

Estávamos os quatro na sala da minha casa, empilhados no sofá de dois lugares, esparramados como casacos atirados sobre os moveis. O Pedro tentava falar mais alto que o aspirador de pó da minha tia para narrar a história de seu encontro com Daniela. A V, o Fernando e eu ouvíamos atentamente a história, embora o Pedro fosse um péssimo narrador. Quando terminou de falar, Pedro ficou olhando atentamente nós três, mas nenhum pode se pronunciar.

 

“Quando terminou de falar, Pedro ficou olhando atentamente nós três, mas nenhum pode se pronunciar.”

 

– Eu acho que ela está meio afim, né? – perguntou ele por fim.

Nós três fizemos que sim com a cabeça de maneira sincronizada, como se pensássemos em conjunto. Mas essa não era a dúvida principal que pairava por nossas cabeças.

– Pedro, você tá gostando da Daniela?

Ele parou por alguns segundos e engoliu seco antes de responder.

– Tá assim tão na minha cara?

 

“Meu queixo fez um buraco no chão da sala quando caiu.”

 

Meu queixo fez um buraco no chão da sala quando caiu. Meu Deus! Era a maior novidade que jamais imaginava receber em vida. O Pedro apaixonado por alguém? Alguém que não seja o Darth Vader? Isso é um evento! A V grunhiu e quase caiu do sofá de tanta excitação. Até Fernando bateu palminhas de felicidade.

– Pedro! Meu Deus! Isso é o máximo!

Eu e V gritávamos como se o Brasil tivesse ganho a Copa. No meio da felicidade que tínhamos por descobrir que Pedro era um ser humano, acabei soltando:

– Sempre pensei que você fosse gay.

– Eu pareço gay?

V soltou-se do nosso abraço e fez uma cara séria.

– Isso é uma coisa horrível de se dizer, Soraya.

Pedro sentou-se ao pé do sofá como um cachorrinho, bastante encabulado.

– Mas será que ela gosta de mim também? – sussurrou ele.

 

“O Pedro apaixonado por alguém? Alguém que não seja o Darth Vader? Isso é um evento!”

O Fernando pigarreou e ia falar algum de seus discursos de macho-alfa sobre o amor, mas V o interrompeu a tempo.

– Ah! Pedro! Ela está tão apaixonada! Ai meu Deus! Vocês vão onde no sábado? Meu Deus! Já é no sábado. Tá muito em cima. Ai meu Deus! Vamos ter que fazer uma hidratação às pressas e temos que ver se você tem alguma roupa se não eu vou ter que te emprestar…

– V, eu sou um homem.

– É. Você tem razão. Você vai ter que ajudar, Fernando!

– Mas não é certo ele ficar tão submisso.

– Fernando! Cala a boca e me dá sua jaqueta!

*

Hoje, depois de ignorar todos os nossos conselhos, Pedro foi se encontrar com a Daniela. Achei pouco original o shopping como lugar de um primeiro encontro, mas Brasília não guarda tantas opções. Eu e a V não resistimos à curiosidade e acabamos indo também. O Fernando quis ir conosco para impedir que a gente se intrometesse na vida do Pedro – que era, logicamente, nosso único objetivo. Eu e a V, porém, saltamos do carro dele assim que passamos da catraca e corremos para a multidão.

 

“Achei pouco original o shopping como lugar de um primeiro encontro, mas Brasília não guarda tantas opções.”

Pedro esperava Daniela na porta do cinema. Tinha passado tanto gel na cabeça que as gotas de oleosidade pingavam na jaqueta de couro surrada que ele tinha emprestado de Fernando. Observávamos ele atrás de um totem de milk-shake gigante. A Daniela estava trinta minutos atrasada e ele, com medo de levar o bolo, balançava as pernas no ritmo de uma batedeira. Tamanha insegurança, nesse intervalo de meia hora ele me mandou um monte de mensagens e ligou pro meu celular oito bilhões de vezes. Por fim, atendi.

– Pedro! Você tem que ligar para ela, não para mim!

– Eu tenho vergonha de falar com ela…

– Pedro!

 

“Tinha passado tanto gel na cabeça que as gotas de oleosidade pingavam na jaqueta de couro surrada que ele tinha emprestado de Fernando.”

– Onde você tá?

– Em casa.

– É que tá tocando a mesma música do shopping.

– Para de delírio. Liga pra ela!

O Fernando nos viu e foi correndo até nós, fazendo um escândalo tão grande que eu não sei como Pedro não nos viu. Empurramos ele para a loja de departamentos mais próxima enquanto tentávamos acalmá-lo. “Como vocês puderam me deixar sozinho no estacionamento, fiquei meia hora procurando vocês, blá blá blá”. Ele foi andando determinado em direção ao Pedro, dizendo que ia contar tudo, mas foi só ver a Daniela chegando que ele se enfiou no meio de uma arara de roupas e fez sinal para nos aproximarmos.

 

“Eles se cumprimentaram com um beijinho no rosto, mas isso só depois de muito hesitarem sem saber como se portar.”

A Dani foi toda produzida. A roupa ainda evidenciava um guarda-roupas de beata, embora provavelmente fosse a coisa menos comportada que ela tinha para vestir. Eles se cumprimentaram com um beijinho no rosto, mas isso só depois de muito hesitarem sem saber como se portar. Especialista em ler lábios para identificar o que as pessoas que pegam ônibus comigo conversam, usei minhas habilidades para tentar decifrar o diálogo.

– Oi! Pensei que você nem vinha mais.

– Não, meu pai que me atrasou. Desculpe.

– Tem nada. Estou feliz que você veio.

– E pra onde é que a gente vai?”

Pedro não sabia o que responder. A Dani começou a olhar ao redor como se a resposta fosse pular na frente dela. Eu e a V nos escondemos atrás de um manequim bem musculoso quando os olhos dela passaram pela região que estávamos. O Pedro finalmente respondeu e eu tive que me esforçar para entender o que ele dizia por debaixo do sovaco do manequim.

 

” A Dani começou a olhar ao redor como se a resposta fosse pular na frente dela.”

 

– Eu pensei em ir à livraria. Tem uma lanchonete ótima lá e eu já aproveito pra comprar o próximo volume dos Mistérios do Mago.

– Lanchonete? É meio difícil achar opções. Eu sou vegetariana. Acho melhor a gente ir no cinema, têm filmes ótimos em cartaz. E lá eu posso comer pipoca – disse ela com um sorriso.

– Você não gosta de livros?

– Não muito. – A decepção nos olhos de Pedro foi visível. – Além do mais, podemos ver um filme, não? É melhor, a história é mais resumida, a gente acaba bem rapidinho.

– Cinema também é ótimo. – concordou depressa, ficando visivelmente nervoso com a possibilidade da Dani ficar entediada.

E então eles foram no cinema e nós não podíamos entrar por que a V tinha esquecido a carteirinha de estudante no carro do Fernando e eu jamais pagaria uma inteira. Fomos ver as roupas para passar o tempo enquanto esperávamos que eles saíssem.

– Isso que você tá segurando é uma calça de couro rosa?

– É. Não é absolutamente fabuloso?

– Na verdade, é meio esquisito.

 

“Na verdade, você é bonita até sem calça.”

 

A V deu de ombros. Ela aprecia muito a minha opinião para vários assuntos, mas eles não incluem roupas e acessórios.

– Na verdade, você é bonita até sem calça. – brincou o Fernando.

– Está vendo? Esse é o tipo de elogio que eu gosto.

– V, falando em gostos, o que você acha daquele tal Guilherme?

– Quem é Guilherme? – perguntaram simultaneamente a V e o Fernando.

– É o Mr. M.

– O nome dele é Guilherme? Nem sabia. Vamos até o provador? Eu vou experimentar essas aqui.

– Eu obviamente não vou esperar vocês fazerem isso. – disse Fê. – Eu trago uma casquinha quando eu voltar. – concluiu, já virando as costas.

V me deu o braço e fomos andando juntas como senhoras do século XIX . Assim como as mocinhas de romances daquela época, eu inexplicavelmente não conseguia parar de falar naquele garoto idiota.

 

“Nunca fala, nunca responde a chamada, não ri, não cumprimenta ninguém quando entra… Mas por que esse interesse?”

– Mas, então, o que você acha dele?

– Ah! Sei lá! Ele é meio misterioso, né? Nunca fala, nunca responde a chamada, não ri, não cumprimenta ninguém quando entra… Mas por que esse interesse?

– Não te falei antes, mas no dia da festa no clube, eu vi ele e a Débora dando uns amassos num cantinho do salão.

– A Débora? A Débi-Débi lá da sala? Que fococa!

– É.

– Meu Deus! Eu nunca imaginei que eles tivessem ficando. Eles tão o tempo todo juntos, mas nunca agiram nem com carinho… Por que você não me contou antes? Nossa! Ela é meio cega, né? Aquele garoto é um insuportável. Sempre se achando o maioral… E tem tão pouco tempo que ele pediu pra ficar comigo? Como pode?

 

“Por que você não me contou antes? Nossa!”

 

– Foi exatamente o que eu pensei. Ele é um galinha. E parece que eles tão namorando sério por que eu o ouvi dizer “eu te amo”.

– Nossa, tava de tocaia, hein, amiga? Eu acho que aquele menino parece tão incapaz de dizer “eu te amo”…

A cabeça do Fernando surgiu no meio dos provadores, gerando alguns gritos das senhoras ao redor – seria medo ou excitação?

“Pra saber se vai ter outro encontro. Sempre dá pra perceber pela forma com que as pessoas se despedem”

– O Pedro e a Dani saíram do cinema. Vamos segui-los?

– Ele está começando a gostar disso – apontou V – Vamos?

– Pra que?

– Pra saber se vai ter outro encontro. Sempre dá pra perceber pela forma com que as pessoas se despedem.

– Como você sabe? Você nunca vai a encontros.

Ela revirou os olhos. Nem precisávamos, porém, da intuição da V para perceber que haveria um repeteco. Nós três fomos seguindo eles bem de longe para não notarem a nossa presença, mas vimos que eles andavam de mãos dadas. Perdemos o casal no meio da multidão e só voltamos a vê-los na saída do shopping. Chegamos a tempo de ouvir o estalo do beijo de despedida. A Dani saiu, mas o Pedro continuou lá, esperando com os olhos no horizonte. Esperando o coração voltar a bater.

 

“Ela acredita nos horóscopos e ele nas leis do gato de Schrödinger.”

*

Sem ter o que fazer, fiquei estalqueando os perfis deles na internet para compará-los. Na verdade, eles são as pessoas mais opostas que eu conheço. Ela acredita nos horóscopos e ele nas leis do gato de Schrödinger. Ela assiste novela enquanto ele lê teses de mestrado sobre os anos finais de Roma. A Dani é vegetariana e o Pedro não perde uma churrascaria. Ela sabe a bíblia de cor e esse é o único livro que ele nunca leu. Enfim. Tudo no universo conspirava para que eles nem mesmo se conhecessem, no entanto eles são as duas pessoas mais bonitinhas do mundo quando estão juntos. Eles meio que se completam. Isso é que é romance. Isso é que eu nunca vivi – ainda.

 

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