Entrecapítulo 13/14

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Trilha sonora do dia: ‘Vem e vai’ – 5 a seco

Sabe aquele dia em que você falta à escola ou ao trabalho e quando retorna percebe que está tudo mudado? Basta você virar as costas que o que era vermelho vira azul. Nos três dias em que eu estive suspensa, todos os professores – TODOS – resolveram passar trabalhos, listas de exercícios, deveres de casa em uma quantidade acima do normal. E, como não estava nas aulas, tô tendo um prazo muito menor pra fazer essas coisas. Essa sobrecarga se deve principalmente à prof.ª Sabrina, claro, que passou um trabalho para nós “traduzirmos” Noites na Taverna, de Álvares de Azevedo, inteirinho pro português atual. Necrofilia e fantasmas, ela deve se sentir em casa lendo isso.

 

“Basta você virar as costas que o que era vermelho vira azul”

 

Leia o Capítulo 13

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O dia de voltar ao colégio foi o pior. Cheguei à sala de aula ainda bêbada de sono e sem prestar muita atenção ao mundo em meu redor. Sentei na carteira que sento desde o primeiro dia de aula e encostei a cabeça na parede para descansar da longuíssima caminhada da parada de ônibus até a sala. Nos meus fones de ouvido Fernanda Takai dizia “tomo um café com guaraná para me animar” e eu pensava que aquela era a exata combinação que eu precisava naquele momento.
– Ei! O que você está ouvindo?

 

“Me encolhi na parede ao sentir o toque da mão gélida que puxava meus fones de ouvido”

 

Me encolhi na parede ao sentir o toque da mão gélida que puxava meus fones de ouvido. Gritei assustada e todas as pessoas da sala se viraram para me olhar.

– Calma, guria!

É impressionante a capacidade que o Mr. M tem de me assustar. E,é claro, de me envergonhar também .Tive que me travar para impedir que meu coração saísse pela boca. Ele riu da minha reação e disse um“ desculpa .”Uma resposta cheia de rudeza encheu minha boca, mas antes de soltá-la, reparei que ele estava muito diferente.

Ele tava com um casaco amarelo. Eu nunca tinha visto ele usando outra cor que não fosse preto. De amarelo, porém, ele parecia mais gente, menos mistério. Com aquele sorriso simpático que usava na ocasião , chegava até mesmo a ser bonito.

 

“Uma resposta cheia de rudeza encheu minha boca, mas antes de soltá-la, reparei que ele estava muito diferente.”

 

– Ai, que susto. Meu Deus!… Você não sabe se anunciar, não?

– Desculpa, eu pensei que você tinha me visto.

Ele deu um sorriso amarelo e fez menção de voltar à cadeira dele. Eu o segurei pela manga do casaco.

– Não, não… Estou ouvindo Pato Fu, você conhece?

– Não, não conheço. É legal?

– Como você pode não conhecer? Nem de ouvir falar? Espera, vou voltar a música para você ouvir comigo.

Coloquei um dos fones no ouvido dele e me achei ridícula por aproveitar a situação para estudar o toque gelado que a penugem da orelha dele. Nem eu conseguia entender as relações conflitantes que eu tinha com a ele.

– É muito legal. – ele falou. Ele batia palmas baixinho na hora da bateria e balançava a cabeça no ritmo da música, que é o máximo que um metaleiro consegue dançar mesmo. Foi quase como se, durante um comício, alguém colocasse aquela música para tocar e o presidente da república fizesse aquela mesma dancinha.

 

“Me achei ridícula por aproveitar a situação para estudar o toque gelado que a penugem da orelha dele. Nem eu conseguia entender as relações conflitantes que eu tinha com a ele.”

Rindo, encostei a cabeça no ombro dele e disse:

– Eu riria mais se não estivesse tão cansada.

Ele virou o rosto para mim e nós ficamos muito próximos. Fechei os olhos por alguns segundos, meio que dormindo, meio que sonhando.

Aí minha consciência me deu um tapa na cara e percebi o que eu estava fazendo. Ele tem namorada! E ela esta há menos de dois metros de mim, Santo Deus! Me afastei rapidamente dele como se tivesse levado um choque da realidade.

 

“Aí minha consciência me deu um tapa na cara e percebi o que eu estava fazendo.”

 

Desviei a visão para a Débora e percebi que ela nem nos olhava. Ela estava ajudando o Tito com o dever das Noites na Taverna e tentando explicar para ele o que significavam “seios níveos”. Ela levantou o cabelo escorrido e o embolou em um coque. Nossos olhares se cruzaram, mas eu não sei se ela percebeu o que tinha acabado de acontecer. Desliguei a música do celular.

– Acabou a bateria… – menti. – Vou tomar água.

Saí toda apressada da sala e indignada comigo mesma. Como eu pude ser tão dada e ridícula na frente dele? Tentei me acalmar e sentei no banco próximo ao portão da escola onde fiquei até a V chegar. Contei tudo a ela nos mínimos detalhes.

– Então ele tá usando casaco amarelo?

– V, pelo amor de Deus! Essa não é a parte mais importante, ou você se esqueceu que eu quase beijei ele na frente da Débora?

 

“– Então ele tá usando casaco amarelo? – V, pelo amor de Deus! Essa não é a parte mais importante.”

 

– Quase beijou?! Não seja exagerada! Aliás, eles podem ter terminado. – Ah! Será que você ainda não percebeu que o Mr. M é um cafajeste? –    Passei a detestar ele.

*

 

Fomos para a sala. Para começar minha semana bem, a primeira aula era de português. Dei uma olhada no caderno, mas nada conseguia me fazer recuperar a concentração. A presença de Sabrina foi anunciada cinco minutos antes dela chegar à sala só pela barulheira que seus saltos finíssimos faziam pelo corredor.

– Muito bom-dia, queridos alunos. Vou recolher os deveres no final da aula e não haverá prazos extras. Hoje nós vamos fazer uma pequenina avaliação surpresa quanto ao tema estudado nas últimas aulas.

 

“A presença de Sabrina foi anunciada cinco minutos antes dela chegar à sala só pela barulheira que seus saltos finíssimos faziam pelo corredor.”

 

Tá que eu já não estava muito bem, mas teste na primeira aula é demais. Colocação pronominal. As questões haviam sido extraídas de passagens da bíblia – que, como se sabe, foi escrita há dois mil anos. Nós tínhamos de justificar o uso das mesóclises. Como eu vou saber o motivo de Mateus ter optado por futuro na bíblia? É insano.

Assim que recebi o teste, fiquei atônita. Olhei para os lados. V estava concentradíssima, mas logo percebi que a atenção dela estava toda dedicada à primeira palavra. Mr. M respondia as questões como se fossem simples contas de 2+2, mas parecia estar chateado comigo.

 

“Tá que eu já não estava muito bem, mas teste na primeira aula é demais.”

 

Com muito custo respondi a questão 01: “Ensinar-vos-ei acerca da mão de Deus.” Foi quando uma bolinha de papel bateu em mim. Não liguei, estava no extremo da concentração. Ai veio outra bolinha. E mais outras duas. Tentei seguir mais ou menos o traçado da direção delas. Olhei para o fundo. A Júlia estava movimentando os lábios, tentando falar alguma coisa sem emitir som, mas ela não é nada boa nisso. Quando ela terminou, eu dei de ombros.

Ai ela repetiu tudo de novo, só que mais rápido. Logicamente eu não entendi bulhufas e disse sem dizer “eu não tô entendendo nada”. Foi quando garras familiares pintadas de vermelho pousaram no meu ombro.

– Soraya e Júlia, queiram me acompanhar.

 

“Eu não quis falar nada, já estava muito brava pra conseguir abrir a boca sem gritar.”

 

Eu, pega dando cola para a Júlia, poderia ser pior? Poderia. Sabrina nos levou para fora da sala e ficou nos encarando. Eu não quis falar nada, já estava muito brava pra conseguir abrir a boca sem gritar. Mas a Júlia, em compensação, desandou a implorar: “Professora me desculpa, não sei o que deu em mim quando tentei ajudar a Soraya”. Vaca. Vaca. Mil vezes vaca. Eu explodi de raiva e a gritei coisas de “desgraçada do inferno” para baixo.

– Não me interessa quem começou, as duas estão com zero.

Eu nunca fiquei tão feliz de ouvir que estava com zero. Assim que a professora entrou novamente na sala, eu gargalhei na cara da inimiga e fui até bem gentil com o meu: “Se ferrou, piranha”. Ela não respondeu, só esbarrou propositalmente em mim e saiu furando o piso com os pés.

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