Capítulo 14 – O convite

Post-Capítulo-14

 

Trilha sonora:  ‘Odeio’ – por Caetano Veloso.

Encrencada.

Essa foi a última semana do bimestre. Hoje era apenas dia de entrega dos boletins e nem mesmo iria na escola porque para mim eu já estava passada, mas ontem o Pedro me ligou e acabei prometendo comparecer. Já sabia que as minhas notas este bimestre não seriam muito boas. Estava com o medo de sempre de que tivesse tirado uma nota vermelha em matemática, mas, de forma geral, estava bem tranquila.

 

“Nunca tive uma surpresa maior na vida. Eu tinha ganhado pela primeira vez na vida o carimbo laranja fosforescente que indica ‘Reprovado, tratar com o professor responsável’.”

 

O colégio abriu em horário especial, ou seja, às nove da manhã. A V fala que o colégio deveria funcionar sempre em horário especial e eu não deixo de concordar com ela. Acordei bem disposta por poder ter dormido até as sete e meia. Ao chegar no colégio, estavam todos os meus amigos sentados em circulo no gramado da entrada, ao lado de onde Tito passava, como sempre, a manhã jogando futebol sem camisa, para impressionar as garotas. Conversamos tanta abobrinha que, quando demos por conta das horas, já eram onze e meia e tivemos de ir correndo para a fila dos boletins.

 

Pisava fundo pelos corredores e andava tão rápido que nenhum dos meus amigos se prontificou a me acompanhar.

 

Nunca tive uma surpresa maior na vida. Eu tinha ganhado pela primeira vez na vida o carimbo laranja fosforescente que indica ‘Reprovado, tratar com o professor responsável’. Era uma única nota vermelha que coloria meu boletim, mas como era um três, não pude ser aprovada pelo conselho. O que mais me assustou foi a disciplina em que eu fui reprovada – e não era matemática. Língua portuguesa – gramática. A matéria da professora Sabrina.

*

Pisava fundo pelos corredores e andava tão rápido que nenhum dos meus amigos se prontificou a me acompanhar. A professora Sabrina estava usando um vestido tão justo que já seria muito esquisito se fosse usado por uma menina com a metade da idade dela. Sua autoconfiança, porém, cortava esta diferença de tempo. Para fechar com chave de ouro o aspecto de crueldade dela, Sabrina enrolava no dedo o xale de zebrinha que estava envolta de seu pescoço – como um demônio que brinca com o rabo de seta.

– Soraya! Estava esperando por você. Pensei que não vinha mais.

– Professora Sabrina, o que significa isso? – perguntei, mostrando meu boletim.

 

“Sabrina enrolava no dedo o xale de zebrinha que estava envolta de seu pescoço – como um demônio que brinca com o rabo de seta.”

 

– Olha, eu sou nova aqui nessa escola, mas eu acho que esse carimbo gigante escrito reprovado no seu boletim quer dizer que você está reprovada. – ela me olhou por cima dos óculos e sorriu de orelha a orelha.

– Professora, eu nunca tirei uma nota vermelha na minha vida e…

– Tirou a primeira agora.

– Você não pode arredondar?

– Arredondar de três para seis? Que mágica é essa?

 

“Saí da sala dos professores morrendo de ódio, quase que literalmente.”

 

Fiz a cara mais de bunda que consegui fazer e saí da sala dos professores morrendo de ódio, quase que literalmente. Eu amassei aquela merda de boletim e joguei na lata do lixo.

– Soraya!

Eu me virei e vi a professora Sabrina tentando correr em minha direção, mas suas plataformas não permitiam que ela tivesse progresso.

– Soraya, querida, espere! Ao contrário do que você pensa, eu não te odeio. Você não podia ser aprovada, meu bem, você foi pega colando numa prova que valia 30% da nota. E a sua tradução de Noites na Taverna ficou mesmo deplorável. Você mudou os vocábulos que já eram rebuscados por outros mais ininteligíveis. Presta atenção, nesse segundo bimestre vai ter uma Semana Cultural e eu fiquei responsável por coordenar o grupo de teatro. O problema é que o grupo de teatro só tem três inscritos e eu preciso de pelo menos mais uns quinze. Então resolvi que vou dar alguns pontos extras para quem participar da peça esse ano. Talvez você queira.

 

“Resolvi que vou dar alguns pontos extras para quem participar da peça esse ano. Talvez você queira.”

 

– Por que você tá tentando me ajudar?

– Eu já disse que eu não tenho nada contra você. – ela abaixou a voz e se aproximou de mim – Além disso, eu preciso de qualquer pessoa que pelo menos tente entrar para o grupo.

– Qualquer pessoa… Entendi.

É óbvio que a oferta dela era tentadora, mas sou triplamente tentada a não aceitar. Primeiro porque todas as minhas tentativas de gostar do teatro foram amplamente fracassadas. Quando eu era criança, fui escalada para fazer a própria em A Pequena Sereia, mas a minha falta de dom foi tão arrasadora durante os primeiros ensaios que fui decaindo fazer a pedra do cenário. que, claro, não tinha nenhuma fala.

 

Quando eu era criança, fui escalada para fazer a própria em A Pequena Sereia, mas a minha falta de dom foi tão arrasadora durante os primeiros ensaios que fui decaindo fazer a pedra do cenário

 

O segundo motivo é que o grupo de teatro do nosso colégio é um fracasso monumental. Todas as peças que eles fizeram foram extremamente pedantes. Uma vez eles encenaram Liberdade, Liberdade, sendo que nenhum dos atores sabia mais que duas palavras de suas falas de cor. Eles no começo até tinham uma sala para fazer os ensaios, mas perderam o direito ao espaço depois que o diretor descobriu que eles estavam alugando-o como motel para os alunos.

E pior do que tudo isso é o meu terceiro motivo para não aceitar a oferta. As inimigas. A dona Sabrina é que é a coordenadora do espetáculo, então, a todo o momento, vou ter que obedecer as suas ordens despóticas. Mas pior que isso é que desde o ano passado quem é a aluna chefe do grupo de teatro é a Júlia.

É óbvio que não devia aceitar essa oferta de jeito nenhum.

– Eu aceito.

Preciso muito desses pontos da média, não só para curar meu orgulho ferido, mas o aluno que reprova o terceiro ano não tem direito a dependência e é obrigado a fazer tudo de novo.

– Obrigado, querida… Ah! Soraya! Você esqueceu o seu boletim aqui na lata do lixo. E é muito importante pegar ele de volta já que você só entra aqui segunda com ele assinado pelo seu responsável.

– Obrigado por me lembrar, querida professora.

O veneno do ódio que sentia escorreu pela minha língua, mas eu engoli a seco.

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