Capítulo 15 – A pior parte

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Hoje começaram os ensaios para a peça. Às 15h em ponto, saí da sala 25 e fui até a sala do grupo de teatro. Como já estava na escola, não cheguei atrasada – mas fui a única pontual. Todos os outros chegaram em manadas meia hora depois do combinado e a professora, que estava com a chave da sala, apareceu apenas às 16h. E essa está longe de ser a pior parte.

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Ao entrarmos na sala do grupo, instantaneamente chegou ao meu rosto o cheiro de mofo mais forte que já senti na minha vida. A sala de teatro foi fechada pouco antes de eu entrar na escola e, desde então, nunca mais viu uma vassoura. Baratas, ratos, aranhas e formigas disputavam todos os pedacinhos do papelão do cenário da peça que havia nos precedido. Era tão assustador quanto abrir a porta do quarto do demônio.

 

“Era tão assustador quanto abrir a porta do quarto do demônio.”

 

Com a manga do casaco de zebra protegendo o nariz, a professora Sabrina chegou a sugerir que nós limpássemos, mas não havia recompensa no mundo que justificasse. Dessa forma, ficou decidido que aquele sarcófago continuará fechado, provavelmente para sempre, e nós vamos ensaiar na quadra.

Sim, na quadra, o que nos leva a outro problema: o time de futebol. A escola não tem propriamente um time oficial, mas há sempre alguém batendo bola por ali – alguma vezes em jogos de tão truncadas regras que eu acho que são inventados. No entanto, há um grupo de alunos que ‘futeboleia’ (sempre quis criar um verbo) todos os dias na quadra às 16h e o capitão deles é Luís. Luís, meu ex-namorado. A coincidência de localidades, lógico, me obrigará a ver ele se amassando com a Júlia o todo tempo. E essa ainda não é a pior parte.

 

“Conversamos sobre o nada, evitando de todas as formas as perguntas da série “como vai a vida”.”

 

Chegamos à quadra, sentamos nas arquibancadas e, sem ter para onde ir, ficamos ali mesmo. Me sentei ao lado do Flávio, que, como em quase tudo, é reserva do irmão também ali. Conversamos sobre o nada, evitando de todas as formas as perguntas da série “como vai a vida”. Ele tinha medo de me dizer algo que não devia, eu tampouco queria escutar, então nossa conversa soou como a de namorados daquele tempo que não se podia pegar nem na mão antes de casar.

Enquanto isso, a professora Sabrina tentava de diversos meios reunir a atenção daquele grupo teatral disforme. Todos os góticos estavam presentes na nossa trupe, junto de muitos dos maconheiros neo-hippies, alguns nerds, a Júlia (que se encaixa em todas essas categorias) e de um ou outro representante das infinitas outras panelinhas escolares.

 

“Todos os góticos estavam presentes na nossa trupe, junto de muitos dos maconheiros neo-hippies, alguns nerds, a Júlia (que se encaixa em todas essas categorias)”

 

– Boa tarde a todos. Eu sou a professora Sabrina, de português, e acho que todos já me conhecem. Estamos aqui hoje para começarmos a trabalhar no nosso número para a Semana Cultural, mas, como vimos, fazer isso na sala do grupo é impraticável. O único local que nos resta desocupado e habitável é essa quadra de esportes, mas devido à contagiosa falta de neurônios que está ocupando o campo, provavelmente ficaremos relegados apenas à arquibancada…

– Desculpe o atraso professora, eu não sabia que vocês estavam aqui na quadra.

Para completar a minha desventura, que já não é pouca, quem falou isso foi o Guilherme. Sim, ele também faz parte do grupo de teatro o que me faz ficar cada vez mais arrependida de ter aceitado a insana proposta da Sabrina. E, por incrível que pareça, essa ainda não é a pior parte.

O Guilherme sentou-se uns dois bancos atrás do meu e ficou me olhando tão fixamente que a minha nuca estava ardendo. Queria que Flávio não tivesse sido convocado para o campo para que eu pudesse me defender atrás dele.

– Ao contrário do que foi feito nesses últimos anos neste grupo, nós apostaremos nos clássicos. Nada de cunho comunista ou revolucionário, faremos uma peça que tem unicamente a intenção de ser bonita e de não ficar no último lugar entre as atrações.  Eu optei por Dom Casmurro, de Machado de Assis. Como nós só temos uma hora de apresentação eu reduzi o texto apenas para as partes mais importantes. Espero que tenha ficado bom. A Júlia irá distribuir o roteiro para vocês, mas só leiam em casa por que vamos aproveitar o tempo que ainda temos para fazermos os testes. Vamos começar com os papéis principais e depois vamos regredindo. Primeiro as garotas.

 

“Nada de cunho comunista ou revolucionário, faremos uma peça que tem unicamente a intenção de ser bonita e de não ficar no último lugar entre as atrações”

 

Nenhuma de nós se moveu. Já havia acabado o horário, o sol se punha. Se começássemos a fazer aquilo àquela hora, terminaríamos só quando fosse noite.

– Andem logo, meninas! Não temos tempo para reclamações. Quanto antes começarmos, antes acabamos.

Todas nós levantamos e fomos nos encostar nas grades enferrujadas da quadra. Cada uma de nós assumiu uma posição na fila e já que pra mim não fazia a mínima diferença, fiquei em último. Cada uma de nós deveria escolher uma frase da Capitu no roteiro. Como a personagem tem muitas falas, nenhuma de nós poderia repetir o que já houvesse sido dito.

Quem começou foi Júlia. E eu acho que a adaptação do texto é, em parte, dela. Isso não se deve somente aos erros de português e a falta de marcações cênicas claras, mas também a ela não ter nem olhado para o papel para dizer sua fala. Quando ela terminou, confesso que não tinha entendido o motivo dela ser aclamada como a melhor atriz do colégio, pareceu até ruim. Mas logo percebi a razão.

“Todas as garotas eram péssimas, péssimas. Uma delas, inclusive, leu a frase. Até a parte em parênteses “(suspiro)” ela leu – incluindo na leitura os “parêntese, parêntese”.”

Todas as garotas eram péssimas, péssimas. Não houve uma só que tenha feito um trabalho bom. Uma delas, inclusive, leu a frase. Leu, literalmente, até a parte em parênteses “(suspiro)” ela leu – incluindo na leitura os “parêntese, parêntese”.

Percebi também, mas aí já era tarde, que ficar por último acarretava em mais desvantagens do que eu imaginava. Quando chegou a minha vez, o sol já era uma mancha alaranjada no céu, mais tênue que a paciência da plateia. Só queria ir embora e quase todas as falas já haviam sido usadas.  Confesso que até pensei em usar um com licença, mas lembrei que eu preciso dos pontos daquela peça. Todas as frases da Capitu jovem, dócil e amável já tinham ido. Só me restou a frase da separação já que, ao que me parece, até as garotas góticas queriam falar de amor naquele dia.

– “Desculpe-me a demora, estava na igreja. Confiei a Deus todas as minhas amarguras, ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável, e estou as suas ordens.”

Pensei em como uma mulher falaria aquilo. Decidi fingir que chegava em casa chorando, guardei a bolsa em um móvel invisível e, olhando para o espelho, enxuguei delicadamente as lágrimas imaginárias. Só depois “entrei” na sala, sorridente, e disse a frase como se estivesse falando das ofertas do mercado. Quando terminei, a professora Sabrina me olhava como se estivesse vendo um daqueles golfinhos do Sea World.

 

“Ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável, e estou as suas ordens”

 

– Acredito que não há dúvida nenhuma de que você será a Capitu.

Disse isso olhando para os lados e todos em volta concordavam. Até agora estou surpresa de ter pegado o melhor papel da peça. Não que isso me ajude em alguma coisa, agora tenho ensaios em jornada dupla, com a banda e com a peça, então se eu tivesse ficado com a prima Justina teria sido melhor para mim. Mas sempre é bom ganhar.

A Júlia me olhou extremamente ofendida, mas não que essa pequena vitória minha nos tenha deixado quites. Para aproveitar os últimos raios de sol, não foram feitos novos testes para dos papéis femininos. Com base nos já feitos, a professora Sabrina apenas determinou quem seria quem, eu bem que tentei ir embora, mas a professora Sabrina me obrigou a ficar e a dar minha opinião. Bem que tentei fazer a Júlia ficar com o papel da porta da casa, mas as outras concorrentes são tão incompetentes que fazem ela parecer a Fernanda Montenegro. Dado o nível, até a Santana, que mal sabe ler, ficou com o papel de Sancha, a amiga da Capitu. A Júlia ficou com o papel de D. Glória, mãe do protagonista e segunda, segunda, mais importante da história.

Os jogadores foram embora sussurrando suas piadas para nós e levaram consigo o sol. Ninguém mais queria estar ali, mas Sabrina tinha mais pressa ainda e os testes dos meninos entraram noite adentro. Os homens eram ainda piores que as mulheres. Perceba: a frase mais famosa da peça “… com olhos de cigana, oblíqua e dissimulada…” demorou dez minutos para ser dita de tanto que o menino gaguejava pra pronunciar a palavra oblíqua. Infelizmente, a peça tem muito mais papéis masculinos do que os femininos o que nos obriga a usar estes “talentos brutos”, como definiu benevolentemente a professora.

 

“Os jogadores foram embora sussurrando suas piadas para nós e levaram consigo o sol.”

 

Assim como nos testes das garotas, todos os meninos queriam o papel principal, mas ninguém tinha capacidade. O que melhor se saiu foi o Gledson, um repetente crônico da mesma sala que a Daniela, mas como há fortes boatos de que era ele o garoto que alugava a sala do antigo grupo de teatro como motel, a professora Sabrina preferiu não lhe dar o papel.

Portanto quem ficou com o Bentinho, meu par romântico, para minha total desgraça, foi o Mr. M. Romance!?  Em casa, li o roteiro completo e vi que vai ter uma cena com um beijo de Capitu e Bentinho. Terei de dar um beijo no cafajeste do Mr. M.? Sim. Essa é a pior parte. É, não é?

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