Capítulo 16 – A linha de giz

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Estava um pouco sem tempo para ser eu mesma e colocar no papel as coisas que têm ocorrido. A rotina de ensaios constantes, de teatro e música, inclusive nos finais de semana, me distanciou da minha pessoa real ao mergulhar em tantas personagens.

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Desde criança soube tracejar uma linha de giz no chão da mente e dividir as pessoas que gostava das que não gostava. Essa linha parece apagada agora que as pessoas passaram a transitar de um lado para o outro. Para me encontrar comigo e com a linha, escrevo aqui – mesmo que tudo me doa: as juntas, os tendões, os olhos, a caixola.

 

“Desde criança soube tracejar uma linha de giz no chão da mente e dividir as pessoas que gostava das que não gostava. Essa linha parece apagada agora que as pessoas passaram a transitar de um lado para o outro.”

 

Quanto aos preparativos da Semana Cultural, eu já achava tudo difícil e acabei descobrindo que é pior ainda. Ensaiar com o grupo de teatro na arquibancada da quadra não é nada fácil. Nosso palco acabou ironicamente virando a plateia. Temos que desenvolver a ação entre os bancos elevados e infelizmente há uma cena que eu tenho que correr.

Ainda temos que desviar dos inúmeros passes errados do time de futebol de Luís – e começo a achar, sinceramente, que algumas daquelas bolas voadoras têm sido miradas em mim.

Apesar de tudo, o que eu achava que seria uma tortura, tem se revelado uma tarefa deliciosa. Queimando com brasa a minha língua e meu despeito, a professora Sabrina tem sido uma mestra. Ela dirige a peça com mãos de aço, e sua exigência acabou fazendo todos ali se dedicarem mais. Ainda assim, preservo um pouco do meu veneno: acredito que a dedicação da professora é muito em virtude da sua necessidade de provar que é capaz, mesmo sendo uma professora novata e tendo pego o abacaxi de treinar um grupo de fracassados.

 

“O que eu achava que seria uma tortura, tem se revelado uma tarefa deliciosa”

 

As minhas formas de ver as coisas, porém, mudaram um pouco nessas duas semanas. Isso se aplica principalmente ao Mr. M. Posso dizer que até gosto – mas ainda o acho um galinha. Na verdade, não sei se ele trai, mas com toda a certeza ele tenta. Na verdade, sigo sem saber nada sobre ele, mas isso não parece mais tão perturbador.

O único que tenho como definitivo é o entendimento de que ele não é uma pessoa má. Apesar de ele ser muito inteligente, não fica tentando mostrar isso a todo custo como a maioria dos outros garotos nerds fazem. O Guilherme sabe que não é só um cérebro sustentado por um corpo.

Ele é engraçado, é bonito e tem um gosto musical suportável (ele me convenceu a parar de falar que hard core não são só gritos). Ele até me ajudou com os deveres de casa de uma maneira que se fez entender.

 

“O Guilherme sabe que não é só um cérebro sustentado por um corpo.”

 

O Guilherme é a pessoa com quem eu tenho passado mais tempo. No dia seguinte a tê-lo destratado, engoli minha idiotice e pedi ajuda com o texto. Desde então, ensaiamos juntos. Tenho que admitir que, não fosse ele, não teria decorado nada.

Tive a certeza da necessidade que precisava de auxílio naquele mesmo dia. Na terceira cena falo um “bom dia” para a Júlia. Acabei falando a frase que termina o diálogo. Adiantar as falas só é um problema muito preocupante por que a professora Sabrina não nos deixa parar ou mesmo voltar no texto quando erramos. Segundo ela, isso adianta porque dessa forma nós “treinamos o improviso”. Por conta dessa exigência, porém, a peça deve sempre continuar– até o quarto dia de ensaios eram tantos pulos que nós fazíamos a peça inteira em dez minutos.

Nos ensaios eu e o Guilherme não fizemos nunca a cena do beijo, por mais que desde o primeiro dia ele tenha se disposto a isso. Nessa parte sempre leio o texto da fala seguinte, embora saiba exatamente o que deve ser dito,. Eu até conversei com a professora para tirar a cena, mas ela faz questão do beijo. “Só precisa encostar os lábios, menina, mas tem que encostar”, explicou. Pensei em conversar com a Débora e pedir-lhe permissão, mas tive vergonha até de pensar na hipótese.

*

As únicas pessoas do elenco que não se tornaram amigas, nem mesmo conhecidas, fomos eu e Júlia. Há uma cena, ainda no começo da peça, em que nós duas nos abraçamos. No primeiro dia em que fomos ensaiar isso, a quadra inteira ficou em silêncio. Nem o time de futebol se atreveu a lançar a bola.  Foi ai que eu percebi que sou a corna mais anunciada do colégio. Caminhamos lentamente uma a outra como se fossemos pistoleiras de filme de faroeste.

 

“Caminhamos lentamente uma a outra como se fossemos pistoleiras de filme de faroeste.”

 

Ela envolveu minha cintura com suas unhas roxas de tigresa enfeitada e aproximou meu corpo do dela. Júlia me apertou com uma força superior a que eu imaginava e aí acabei tendo que retribuir. Pressionei meus braços ao redor das costelas dela e empreguei tanto esforço nisso que todo o ar que havia nos pulmões dela saiu de uma só vez e fez um barulho engraçado. Eu tinha que fingir que não tinha sido proposital. A quadra inteira, porém, riu por mim.

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