Capítulo 17 – Amigo, é?

Post-Capítulo-17

 

Trilha sonora do dia: ‘Janta’ – Marcelo Camelo e Mallu Magalhães

Ontem foi o último dia de ensaio, a apresentação é na segunda. Usamos nosso último tempo disponível para decidirmos o figurino. Foi definido que, para marcar a passagem de tempo, eu terei que usar uma peruca quando for fazer a Capitu jovem. Como a Júlia que tinha ficado de trazer a peruca, já esperava uma coisa vergonhosa. Todavia, quando recebi aquele emaranhado de cabelos de náilon, não pude evitar a minha cara de nojo.

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Capítulo 16

– Ah, olha, eu bem que tentei melhorar peruca, mas ela era cor-de-rosa quando eu comprei e acabou ficando assim quando eu tentei pintar de castanho. Desculpe. – óbvio que, má atriz que é, Júlia disse isso rindo.

Quando a minha mãe chegou do plantão que está fazendo no hotel e encontrou a “coisa” que eu estava tentando limpar aqui na mesa ela perguntou por que eu estava trazendo coisas do lixo para casa. Quando contei que aquilo um dia já foi uma peruca e eu ainda por cima terei que usá-la na frente de trezentas pessoas, minha mãe resolveu me ajudar.

 

“Havia passado a semana inteira com uma cólica incrível e que havia aumentado consideravelmente com o estresse de carregar uma peruca que era idêntica a um rato morto na mochila. “

 

Tia Rosa se juntou a nós e disse “eu já fui costureira”, como se isso desse alguma credencial a ela para arrumar perucas estragadas. Ainda assim, foi a ideia dela de ferver o bolo horrível que deu um jeito de tirar a tinta – tanto a amarela quanto a rosa. Mãe teve a ideia de cortar o emaranhado e fazer uma franja. Funcionou em parte.

Voltando ao fundamental: depois das decisões do figurino, todo mundo resolveu ir para a pizzaria comemorar o fim da rotina infernal. Não pude ir porque havia passado a semana inteira com uma cólica incrível e que havia aumentado consideravelmente com o estresse de carregar uma peruca que era idêntica a um rato morto na mochila.

– Pessoal, desculpa, vou pra casa. Não tô me sentindo nada bem.

Ninguém pareceu se importar muito.

– Eu te acompanho.

 

“Não foi um momento tenso, como geralmente é quando você fica encarando uma pessoa, não foi nada de mais, mas ao mesmo tempo foi muito esquisito.”

 

Nunca imaginei que Guilherme iria se dispor a me levar em casa só por causa de uma cólica, mas estava com muita dor para recusar companhia. Fui o caminho inteiro até a estação de metrô com a mão na barriga e me escorando no braço dele. Caminhamos sem conversar. Ele me deixou nas catracas. Nós ficamos nos encarando um tempo que pareceu durar horas. Não foi um momento tenso, como geralmente é quando você fica encarando uma pessoa, não foi nada de mais, mas ao mesmo tempo foi muito esquisito.

Voltamos à vida real. Peguei as chaves no meu bolso e a carteira, logo ele voltou a caminhar. Eu fiquei brincando com o chaveiro enquanto assistia ele ir andando com passos de pinguim.

– Ei, Guilherme! Onde você mora?

– No Gama.

– Ah, é muito longe, deixa.

– O que foi?

 

“Eu fiquei brincando com o chaveiro enquanto assistia ele ir andando com passos de pinguim.”

 

– Nada. Eu ia perguntar se você não me acompanharia, mas…

– Eu vou.

– Não, cara, eu moro em Ceilândia.

– Tudo bem. Eu vou. Eu quero ir. Eu posso ir?

*

– Você tá com fome?

– Não, obrigado.

Nem eu estava com fome, mas é que eu não sabia o que falar com o Guilherme. Há três semanas não podia nem ouvir o nome dele e tinha o apelidado de Mr. M, agora ele estava parado na soleira da porta da minha cozinha, com os pés descalços e sussurrando para não acordar Tia Rosa. Sentamo-nus no sofá da sala. Eu em um canto do de três lugares e ele no de dois, o mais afastado de mim possível.  Fiquei pressionando os joelhos contra os meus seios porque a dor não dava trégua. Ele estava muito desconfortável, sentado só na beirinha do assento, não tinha nem coragem de se apoiar no encosto.

 

“Agora ele estava parado na soleira da porta da minha cozinha, com os pés descalços e sussurrando para não acordar Tia Rosa”

 

A coisa toda havia se desenvolvido de forma louca. Ele morava há sessenta quilômetros de mim, mas fazia parecer que era a mesma distância de alguns minutinhos de caminhada. Entramos no metrô juntos, com ele segurando meu braço como se eu fosse feita de um cristal raríssimo. No trem, embora houvessem vários lugares vagos, ele preferiu ficar de pé ao meu lado. A cada estação que passávamos, ficávamos mais próximos da minha casa e, em oposição, cada vez mais distante da dele. Arrependida, tentei convencê-lo duas vezes a descer do vagão e pegar o trem na direção contrária. Ele foi irredutível.

Descemos da estação e eu fiz o melhor que pude para parecer bem para que ele não precisasse encostar em mim. Argumentei longamente sobre como era desnecessário me levar para casa, um mal-estar que não valia a caminhada. Ele me ignorou. Andamos até minha casa e, mesmo que eu soubesse que àquela hora Tia Rosa estava adiantando o sono de seu plantão noturno, me senti obrigada a convidá-lo para entrar.

Ele aceitou prontamente, por mais que eu tivesse lançado evidências de que era uma pergunta apenas por educação. Quando o vi na minha sala, não soube o que fazer. Sentia muita dor, verdade, mas me incomodava mais ter que olhar para a cara dele. Ele disse que não. Eu, dessa vez, insisti.

 

“Sentia muita dor, verdade, mas me incomodava mais ter que olhar para a cara dele.”

 

– Mas eu acho melhor você ir mesmo. Pode ir, suave.

– Você tem certeza que não quer ligar para a sua mãe?

– Tenho. Eu já tô quase bem.

– Mas pode ser algo grave.

– O que pode ser grave numa cólica? Eu tenho isso todo mês.

– Eu não sabia que era só cólica.

– Tem razão, desculpa. Eu deveria ter dito.

– Não, eu estou feliz que seja uma coisa leve. Pensei que fosse… – ele calou a boca rapidamente como se sua consciência o houvesse repreendido.

– Pensou o quê?

 

“Ele calou a boca rapidamente como se sua consciência o houvesse repreendido.”

 

– E-eu… eu achei que fosse alguma coisa relacionada ao câncer.

Por um instante minha dor sumiu.

– Câncer?! Eu não tenho câncer!

– Não?

– Não! Por Deus! Quem te falou que eu tenho câncer?

Guilherme fazia uma cara de chocado.

– Eu perguntei pra Júlia por causa do seu cabelo raspado…

– Não! Eu não tenho câncer!

 

“Com a dor anestesiada pelo ódio de Júlia, tive vontade de correr até onde quer que ela estivesse para arrancar seus rins com os dentes.”

 

Eu falei isso num tom de voz daqueles que nós fazemos quando queremos parar a conversa ali. Ele ficou olhando para a parede. Com a dor anestesiada pelo ódio de Júlia, tive vontade de correr até onde quer que ela estivesse para arrancar seus rins com os dentes. Tive tanta raiva que mal notei que o Mr. M. tinha colocado a mochila nas costas e balançava as pernas inquieto querendo fugir da minha presença. Me sentei mais próxima.

– Eu tenho que pedir desculpas pra você. Você tem sido um amorzinho comigo e eu aqui reagindo como uma besta. Desculpa… É que eu e a Júlia não nos damos muito bem então é melhor você não perguntar mais nada pra ela relacionado a mim…

Ele ficou ainda mais silencioso e o desconforto era como uma argila secando entre nós, criando um espaço sólido intransponível.

– Você já tem que ir embora, não é mesmo?

– Posso ir.

 

“O desconforto era como uma argila secando entre nós, criando um espaço sólido intransponível.”

 

– Não estou te expulsando – eu ri. – Se você quiser ficar, pode ficar também. Prometo que vou ser agradável.

– Promessa difícil de você cumprir.

– Não me provoca, rapaz! – ironizei me fingindo de brava e ele riu.

– Posso ficar, então? – perguntou.

Queria dizer: “pode, mas não deve”. Ao contrário, disse isso:

– Claro. O que você acha de nós assistirmos um filme? Aqui em casa tem uma TV a cabo que meu padrasto pirateou. A gente só não pode fazer barulho porque, como eu te expliquei, minha tia está dormindo. Toma o controle. Vai escolhendo aí que eu vou ver se tem umas pipocas.

Eu levantei e fiz tudo como se não tivesse com uma puta dor. Mas ficar mais bem humorada e levantar para fazer as coisas fez a cólica ficar bem mais fraca, é tipo aquele negócio de “a dor não é real”, “a dor não é real”, até que ela desaparece mesmo. Não tinha pipoca, então eu só passei manteiga em alguns biscoitos água e sal.

 

“É tipo aquele negócio de “a dor não é real”, “a dor não é real”, até que ela desaparece mesmo.”

 

Assistimos juntos aos quinze primeiros minutos de uns três filmes diferentes e não gostamos de nenhum. No fim, acabamos deixando no Shrek, que todo mundo já assistiu, mas que pelo menos temos certeza de que é bom. Falamos muito pouco um com o outro, mas pude notar que o Guilherme estava bem mais à vontade. Ele tinha deixado de lado a postura e estava com os pés encostados no braço do sofá onde eu estava deitada.

Com o tempo nós percebemos que era muito ruim de compartilhar o pote de biscoitos estando em sofás diferentes e ele se sentou no meu. Então eu dormi. Acabou que eu acordei deitada no colo dele e ele fazendo cafuné em mim. Achei incrivelmente esquisita aquela situação. Ele então tirou a mão rapidamente da minha cabeça e sentou direito.

– Você tá acordada?

– Acabei de acordar. Devo ter dormido quase a metade do filme… Que horas são?

– Quase seis. Mas se você estiver perguntando por conta da sua tia, ela já foi.

– Já? – pensei em todas as histórias românticas que ela criaria sobre Guilherme e eu.

– Ela deixou esses comprimidos para você tomar para a cólica.

 

” Acabou que eu acordei deitada no colo dele e ele fazendo cafuné em mim.”

 

Foi só quando Guilherme me falou sobre a cólica que me dei conta que ela tinha passado por completo, mas eu estava com a cara muito amassada para ficar no convívio social então fui checar o absorvente e lavar o rosto. Não perguntei mais a ele sobre o horário que ele iria embora. Minha mãe e meu padrasto só chegavam às 20h e eu não tinha a desculpa da dor. Vimos o episódio final de uma série que nenhum dos dois conhecia. Só quando os créditos finais rodaram que ele se deu conta do tempo.

– Meu Deus! Já é sete horas! Eu tenho que ir. – disse ele, levantando num só pulo. – Você me explica o caminho para o metrô?

– Não, eu te acompanho até lá, fica tranquilo.

Peguei as chaves da minha casa e fomos até a porta. Enquanto caminhávamos pelas ruas mal iluminadas ele me perguntava sobre a história da minha família, queria saber o motivo de minha tia morar comigo, da minha mãe só chegar tão tarde, da casa ser pintada de verde. Eu respondia tudo sem filtrar as respostas, sendo sincera como não era nem comigo mesma. Chegamos à estação e a escada rolante não estava funcionando. Fomos até o elevador, que é “de uso exclusivo para portadores de necessidades especiais”, mas que todo mundo usa. Ficamos parados nos encarando durante um tempo, sem que o mecanismo desse qualquer sinal de vida.

 

” Eu respondia tudo sem filtrar as respostas, sendo sincera como não era nem comigo mesma.”

 

– Tá demorando, né? – ele perguntou.

– É porque você não apertou o botão – eu respondi.

Me aproximei para apertar o botão que fica do lado onde ele estava. Mas eu também não consegui apertar. Quando eu já estava próxima o bastante, o Guilherme me puxou pela cintura e me deu um beijo.

*

Em uma lista dos maiores beijos do mundo o meu estaria entre o de Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost e o de Audrey Hepburn e George Peppard em Bonequinha de Luxo. Não, tá errado. Foi mais que esses beijos porque foi um produto da realidade, tinha gosto, tinha saliva, tinha cheiro. Não foi um beijo longo, nem foi na chuva, nem teve uma frase de efeito antes, nem teve nada de mais. Mas era algo queríamos há bastante tempo.

 

“Era desprovido de qualquer racionalização. Era o encontro de dois animais, o beijo de duas almas.”

 

De todas as pessoas que eu tinha beijado até ali, nunca havia encontrado aquele beijo. Não era dotado daquela mágica do cinema antigo. Possuía o justo contrário: era desprovido de qualquer racionalização. Era o encontro de dois animais, o beijo de duas almas. Na melhor parte, entretanto, ele repentinamente me afastou e me colocou a uma distância segura.

Eu abri os olhos e vi que ele estava olhando para mim como se eu fosse a morte. Olhei para trás e encontrei algo bem parecido com ela. Minha mãe e meu padrasto tinham subido os degraus da escada quebrada e cercado a nós com uma cara de espanto que só não era maior do que a minha própria. O que eu ia fazer? O que eu podia fazer?

– Mãe, Rubens, este aqui é o meu amigo Guilherme.

O Guilherme escondeu a surpresa, com um sorriso amarelo no rosto, lhes deu um tchauzinho. Minha mãe sorriu mais falsamente ainda do que ele e disse “muito prazer”. Meu padrasto, em compensação, soltou uma gargalhada de trovão e disse:

– Amigo, é? Mudou de nome agora?

 

” Eu sorri e ele me lançou um beijo enquanto as portas se fechavam entre nós.”

 

Minha mãe deu um beliscão nele e o empurrou em direção à saída do metrô. Ao passar por mim ela me sussurrou “te espero em casa”. O Guilherme e pegou o elevador para subir. Eu sorri e ele me lançou um beijo enquanto as portas se fechavam entre nós. Fiquei olhando as portas de metal que me refletiam de maneira desfocada e pensando “que merda é essa que você está fazendo da sua vida, Soraya?”.

O que estava fazendo ao me envolver com aquele menino compromissado? Que tipo de pessoa eu me tornava ao deixar de achar aquilo tão errado? Eu não preciso me apaixonar. Aprendi a lição da última vez. Estou bem satisfeita no amor. Já tenho todos os livros do Vinicius de Moraes na minha estante e isso é o bastante. É o bastante, né?

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