Capítulo 18 – A Jura

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Como eu já imaginava, a quinta-feira dessa semana foi a mais atarefada da minha vida, mas eu não podia imaginar que também seria uma das mais prazerosas. As minhas obrigações de “artista” ainda não acabaram, amanhã terei que me apresentar com a Banda Band-Aid no final da programação da Semana Cultural, mas isso não está nem perto de ser um problema. Ouso dizer que fui contaminada nos últimos dias com aquele vício por palco que mesmo os mais tímidos artistas possuem. Como isso aconteceu? Vejamos.

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Ontem cedinho, o sol ainda gelado no céu, nós apresentamos a nossa peça. Mesmo o grupo de teatro sendo extremamente decadente, conservou-se a tradição dele abrir a programação da Semana. O que deveria ser uma honra, com o tempo se tornou um martírio. Após uma sequência de peças mal escritas e enfadonhas, porém, todos os despertadores passaram a não tocar, todos os ônibus deixaram de amar e todas as avós combinaram de morrer – e, portanto, todos os alunos faltam.

 

“Ontem cedinho, o sol ainda gelado no céu, nós apresentaríamos a nossa peça”

 

Mas a professora Sabrina tinha uma carta na manga para encher a plateia. As aberturas da Semana sempre ocorrem às oito horas da manhã. Ela usou sua crescente reputação junto à direção para que nosso horário fosse adiado para as dez horas – que é quando os alunos começam a chegar. Já no caso dos antigos alunos da Escola da Cruz de Fogo, até os pais foram convidados a comparecer, como que para provar que a educação que seus filhos continuava sendo bem dada. Resultado: quase mil pessoas se amontoavam no auditório para ver o nosso fracasso, infligindo uma pressão tão grande sobre nós que fazia até balançar as cortinas. Não havia nem ar o bastante para o tanto de gente.

 

“Quase mil pessoas se amontoavam no auditório para ver o nosso fracasso, infligindo uma pressão tão grande sobre nós que fazia até balançar as cortinas.”

 

Já eram cinco para as dez quando eu fui correndo para o camarim ver se ainda era possível fazer alguma coisa pelos cabelos descoloridos da peruca. O nosso camarim, que na verdade era só um cubículo com um banheiro e palavrões escritos na parede, estava absolutamente vazio. Coloquei uns grampos numa mecha de cabelo que insistia em ficar para cima e aproveitei para usar algumas maquiagens alheias para tentar vencer a ansiedade. Enquanto estava experimentando cada um dos batons esquecidos na bancada, ouvi um suave barulho de choro que vinha do banheiro.

Como a porta não tinha tranca, não me dei ao trabalho de bater. Quando abri, encontrei Júlia, com o vestido preto mais glamoroso que eu já vi na vida, sentada naquela privada imunda e com o rosto enfiado em um lenço. Ela levantou a cabeça e seu rosto estava vermelho e a maquiagem escorria como marcas de carvão. Ela não desviou o olhar me ver. Ao contrário, focalizou seus olhos de tigresa em meu roso, um olhar pesado, cravado de lágrimas.

– Júlia, você tá bem?

– Claro que não.

– O que foi que aconteceu?

 

“Ela não desviou o olhar me ver. Ao contrário, focalizou seus olhos de tigresa em meu roso, um olhar pesado, cravado de lágrimas.”

 

Ela chegou até a abrir a boca para responder, mas as lágrimas vieram antes das palavras e ela afundou o rosto novamente no pano. Eu fui buscar uns lenços de papel que tinha encontrado em uma bolsa de maquiagem alheia. Me ajoelhei ao lado dela e passei-lhe o lenço no rosto borrado de rímel. Começavam a tocar os sinais de início de espetáculo.

– Chega até a ser sarcástico. – disse ela.

– O que?

– O Luís terminou comigo. E é a ex-namorada dele que está me ajudando a levantar.

Me deu uma vontade muito grande de dar uma gargalhada, mas é óbvio que não o fiz. Queria rir não dela, mas justamente da situação. Não é que o mundo dá voltas mesmo?

 

“O Luís terminou comigo. E é a ex-namorada dele que está me ajudando a levantar.”

 

– Por que vocês terminaram?

– Ele não é bom de explicar.

– Eu bem sei.

– Mas me parece muito claro o motivo. Se você pensar um pouquinho irá perceber que…

Naquele momento Sabrina entrou no banheiro e ficou olhando para nós.

– Estamos todos procurando por vocês.

– Já estamos indo. – respondi.

– Soraya, o que você fez com essa menina?

Eu finalmente soltei o sorriso.

– Isso não é de minha autoria.

– Bem… Estamos esperando vocês duas, não se atrasem.

Eu levantei a Júlia daquela privada nojenta e a levei para frente do espelho. Limpamos o que foi possível da sujeira que estava impregnada no tecido e, já que o tempo era muito curto, ajudei ela a se maquiar. O sistema ruidoso de som atravessava as paredes e podíamos ouvir a professora já fazendo a introdução do espetáculo.

 

“Eu levantei a Júlia daquela privada nojenta e a levei para frente do espelho.” 

 

Não falamos mais nada uma com a outra e a Júlia já nem parecia mais a garota que eu tinha encontrado alguns segundos antes. Ao terminarmos, ela deu um sorriso para o espelho e foi em direção a porta. Parou no meio do caminho e se virou, como se tivesse se lembrado de alguma coisa. Triunfante, ela me disse:

– Isso não muda nada na nossa relação.

– Da minha parte também. – respondi, reproduzindo o mesmo sorriso dela.

*

Não tivemos nem tempo para pensar. Fomos juntas em direção ao palco e quando cheguei à coxia, a peça já tinha começado. Foi quando eu vi pela primeira vez o Guilherme vestido de Dom Casmurro. É claro que a caracterização de um velho truculento e amargo não é uma figura bonita, mas ele estava estranhamente belo daquele jeito. Fiquei tão entretida ao assisti-lo que quase me esqueci que eu também era parte do texto. Nem teria entrado em cena se não fosse a professora gritar um “anda logo” e me dar um empurrão.

Sempre fui uma aluna relativamente popular, principalmente por ser brigona, mas nos últimos tempos meu reconhecimento havia alcançado fronteiras que eu nem mesmo conhecia. Acho que isso se deve a eu ter sido abandonada no meio do pátio, ter entrado para uma banda de rock, mas principalmente por eu estar careca. Então, quando subi no palco com aquela peruca espalhafatosa, platinada e em formato de Torre de Pisa, foi um rebuliço.

 

“Quando subi no palco com aquela peruca espalhafatosa, platinada e em formato de Torre de Pisa, foi um rebuliço.”

 

Um “oh!” ecoou pelo auditório e todos os celulares foram instantaneamente retirados das mochilas para gravarem aquele momento célebre. Estava sendo ridícula ou admirada? Acho que 90% das pessoas iria com a primeira opção.

Mas até para a minha própria surpresa eu não fiquei envergonhada. Não havia tempo para Soraya ali, era tudo exclusivo de Capitu. Eu estava em cena e achei que seria bom sorrir, melhor, ela achou que seria bom sorrir. Foi mais ou menos aí que começamos de fato a peça.

*

– Se tivesse de escolher entre mim ou Dona Glória, sua mãe, a quem é que escolheria?

– Eu escolhia… Para quê escolher Capitu?

Foi ai que percebi que aquela era a nossa única apresentação. Não haveria outro ensaio, não nos veríamos mais, não continuaríamos conversando e muito provavelmente nem mais nos cumprimentaríamos .Era nossa última oportunidade.

 

“Não haveria outro ensaio, não nos veríamos mais, não continuaríamos conversando e muito provavelmente nem mais nos cumprimentaríamos .Era nossa última oportunidade.”

 

Eu tinha mais meia hora para decidir se ficava com ele ou fingia não estar apaixonada. Sim! Apaixonada! Pois naquele instante, em meio aqueles refletores e aquelas centenas de pessoas eu percebi que já não tinha o que disfarçar. Estava perdidamente apaixonada. Sabia que ele tinha uma namorada, mas ninguém manda no coração.

Só tinha duas opções: ou aceitava a alcunha de amante ou tentaria esquecê-lo. Estava falando todas as frases da peça mecanicamente, errando as sequências de palavras, já que por dento a minha cabeça estava um turbilhão. Só recobrei a minha consciência quando Guilherme aninhou suavemente a minha mão entre as suas e posicionou seu olhar alinhado com o meu.

“– Juras que só há de casar-se comigo?”

 

“Só recobrei a minha consciência quando Guilherme aninhou suavemente a minha mão entre as suas e posicionou seu olhar alinhado com o meu.”

 

Nesse momento percebi, olhando nos olhos dele que aquilo não era mais só uma peça. Nós conversávamos, eu e Guilherme, não como se fossemos Bentinho e Capitu. Estávamos tão dentro do personagem que já éramos nós mesmos e ninguém mais. Eu teria que responder a pergunta. E já tinha me decidido por qual resposta dar.

– Juro. Juro. Juro. Juro por tudo que há de mais sagrado. – pulei nos braços dele. – Por que haveria de não jurar?

Embora não estivesse no script um beijo nesse momento, eu quis dá-lo. A plateia toda foi ao delírio, não era um beijo técnico, dava para ver. Os flashes das câmeras fotográficas explodiam ao nosso redor. Mesmo depois de termos parado, continuávamos abraçados. Eu sorri, dessa vez só para ele, e murmurei no seu ouvido, para que ao menos uma das palavras fosse somente sua: “Eu juro!”. Ao nos separarmos, olhei ele e o vi rindo também, com cara de bobo.

 

“Os flashes das câmeras fotográficas explodiam ao nosso redor.”

 

Na última cena do espetáculo ele deveria me ver, como quem vê um fantasma, e, quando esticávamos as mãos para nos tocarmos, eu desaparecia. Um final bastante adequado para a história de Bento e Capitolina, mas era um péssimo começo para a nossa. Acho que merecíamos um final feliz. Deixei, portanto, ele me tocar e nos beijamos mais uma vez – dessa vez, mais comportados.

– Eu esperei por isso tanto tempo. – disse ele, que era Guilherme e era Bentinho.

A frase foi o final da peça, mas sei que aquela frase foi para mim. Fecharam a cortina quando ainda estávamos de mãos dadas e só nos separamos quando recebemos os abraços do resto do elenco. Abriram a cortina de novo e a professora Sabrina estava entre nós.

Consegui ver todos os meus amigos sentados na mesma fila. O Fernando começou a assobiar, a V batia palmas e me olhava com uma cara de “não acredito que você fez isso tudo” e o Pedro me olhava com uma cara bem parecida, mas que queria dizer “você vai ter que me explicar isso mais tarde”. O Salsicha e o pessoal da banda ficavam batendo palmas e dizendo “Capitu”. Todo o teatro entrou na onda deles e quem não gritava Capitu, gritava Bentinho.

 

“Fecharam a cortina quando ainda estávamos de mãos dadas e só nos separamos quando recebemos os abraços do resto do elenco.”

 

Eu dei a mão para ele e nós agradecemos individualmente e recebemos mais uma salva de palmas. A cortina se fechou e a professora Sabrina veio em nossa direção com uma cara que era um misto de raiva e alegria. Nos abraçou e disse que tínhamos sorte de o público ter gostado. O elenco acabou nos separando novamente e ficamos conversando em grupos distintos. Todas as meninas queriam saber se eu o tinha beijado de verdade, se o gosto era bom, e essas coisas mais. Pude ouvir que o auditório se esvaziava e olhei para trás para ver se achava o Guilherme para nós podermos conversar. Perguntei para a Santana e ela me apontou um canto. Lá estava ele.

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