Capítulo 19 – O amor (parece) lindo

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Trilha sonora: ‘Tempo de pipa’ – Cícero.

E lá estava ele. Lindo como nunca e com uma flor na mão, arrancada do jardim que estava exatamente ao lado dele alguns segundos antes. Ao vê-lo, sorri. Naquele momento me senti de fato feliz, protegida, segura, invejável. Estar apaixonada é ótimo e eu tinha me esquecido disso. Enquanto ele veio caminhando até mim, os meus joelhos falharam e a boca ficou seca. Melhor do que se apaixonar é ser correspondido

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Leia o Capítulo 18

– Para a estrela da apresentação. – me disse estendendo a flor.

– Então vamos ter que reparti-la, você a merece tanto quanto eu.

– Faço questão de que você fique com a flor, mas se for o caso, nós podemos repartir uma pizza. Topa?

 

“Enquanto ele veio caminhando até mim, os meus joelhos falharam e a boca ficou seca. Melhor do que se apaixonar é ser correspondido.”

 

– Não, não topo.

Minha resposta surpreendeu até a mim, mas não havia como fugir. Apesar da minha vontade, senti que deveria limpar o chão pelo qual havia passado antes de dar o próximo passo.

– Eu quero ir, mas nós não podemos. Acho que você tem que conversar com a Débora primeiro. Não consigo me sentir à vontade fazendo isso com ela.

Amassada, a flor se despetalou suavemente das mãos enormes dele. Mesmo quando eu terminei de falar, Guilherme ainda me olhava com uma cara surpresa.

 

“Amassada, a flor se despetalou suavemente das mãos enormes dele.”

 

– E eu posso saber o que é que você está fazendo com a Débora?

– Guilherme! Eu sei que vocês estão ficando, namorando, sei lá, e nunca vou me sentir à vontade nessa situação. Mesmo que o relacionamento de vocês seja aberto…

– Espera. Namorando? A gente não tem nada. Eu e a Débi-Débi somos só amigos.

– Não há motivos para esconder. Tá tudo bom, eu já sei. Eu ouvi você dizer pra ela que a amava e tudo mais naquele dia do clube.

Recobrando a cor do rosto inteiramente de uma só vez, Guilherme imediatamente caiu na gargalhada. Ele ria tanto que teve de se sentar na mureta do jardim que ele aleijou. A cada riso, eu ficava com uma impressão maior de que a grande piada daquela história toda era eu.

 

“Recobrando a cor do rosto inteiramente de uma só vez, Guilherme imediatamente caiu na gargalhada.”

 

– Não .Caralho, que ironia. Você entendeu tudo errado. Eu disse “eu te amo” pra Débi-Débi porque eu tinha conseguido convencer ela a falar com você. Ela ia dizer que eu tava gostando de você, porque eu não tinha coragem. Mas aí ela disse que você saiu correndo… Soraya, você sabe que eu só entrei nesse grupo de teatro pra ficar mais perto de você, né?

Na falta de uma expressão melhor, vou com a tradicional. Me caiu o cu da bunda.

– E por que você nunca me falou? Teríamos tido bem mais tempo.

– Se você tivesse me dito também que seu drama era por conta desse namoro louco que você inventou, teríamos poupado muito desgaste. Olha… Você sabe ser grosseira! – respondeu ele já voltando a rir.

– E você sabe ser bem petulante, sabia? – disse, rindo também.

– Nós podemos recuperar esse tempo perdido.

Os refletores da escola explodiram, a corrente elétrica se distribuiu no solo, as árvores se iluminaram e todo o resto desapareceu. Nos beijamos.

*

 

Saímos da escola pelos fundos, pelos buracos que havia na cerca da quadra de esportes, não ajudando em nada a desmontar os cenários da peça. Enquanto caminhávamos pelas amplas calçadas de Brasília, recebemos os mais diversos tipos de olhares. Era quase meio-dia. Eu estava ainda com o vestido vermelho de veludo e ele de gravata borboleta e mochila desbotada. Parecíamos dois bêbados ainda sobreviventes da noite anterior.

 

“Eu estava ainda com o vestido vermelho de veludo e ele de gravata borboleta e mochila desbotada. Parecíamos dois bêbados ainda sobreviventes da noite anterior.”

 

Decidimos pela pizzaria mais barata, que ficava a cinco superquadras de onde estávamos. Fomos conversando trivialidades pelo caminho, só para não dar oportunidade para o silêncio ocupar o lugar do gostar.

Sentamos na parte exterior da pizzaria. Ele queria de chocolate e eu detesto pizza doce. Eu ia pedir tomate seco com rúcula, mas segundo o Guilherme “apenas sugerir essa pizza já me embrulha o estômago”. Por fim decidimos por uma meia portuguesa-meia calabresa, apesar de nenhum dos dois querem de fato comer isso.

– Por que nós demoramos tanto para fazer isso?

– Isso o quê? Eu não tô bem lembrada.

Ele sorriu um sorriso bem safado para mim e deu a resposta que nós dois queríamos dar. Subiu com as mãos na mesa e derrubou o azeite. Me puxou com um olhar e me beijou.

– Bom… Eu não quero ser clichê, mas eu acho que a situação pede. – engrossei a voz e continuei – que tal a gente se conhecer melhor, gato?

 

“Subiu com as mãos na mesa e derrubou o azeite. Me puxou com um olhar e me beijou.”

 

Ele gargalhou e fez um sinal com as mãos que dizia “pode mandar”. Descobri algumas coisas sobre o Guilherme. Que ele, apesar de magro, tem um estômago sem fundo. Ele tira boas notas mais por sorte do que por estudar, afinal ele trabalha todas as tardes na loja do pai. Ele é ateu apesar de ter estudado a vida inteira na Escola da Cruz de Fogo. Talvez por isso ele não tivesse nenhum amigo na escola, além da Débora.

– Só?

– É. Só isso. – Guilherme cruzou os braços.

– Como assim você consegue se definir falando menos de dois minutos? Eu gastei pelo menos duas horas só pra falar da família.

– Ah! É claro que eu deixei os detalhes idiotas de fora.

– Não !São os detalhes idiotas que dão a graça da coisa toda. Fala mais. Tenho certeza que devem existir umas coisas muito mais interessantes.

 

“São os detalhes idiotas que dão a graça da coisa toda. Fala mais.”

 

– Véi, eu não sou tão interessante assim. Sei lá, deixa eu ver… Eu não tomo banho à noite de jeito nenhum. Eu detesto morango… E eu também não sei nadar.

– Meu Deus! Não acredito. Eu só durmo tranquila se tomar um banho quente; A minha fruta preferida é o morango e eu fiz aula de natação depois que eu quase morri na piscina lá de casa.

– Já eu fiz aulas de malabarismo quando era criança.

– Mentira. Você fez malabarismo? Me mostra?

– Quê você quer que eu faça?

– Sei lá, faz algum malabarismo ai.

Ele, muito a contra gosto, pegou o saleiro, o paliteiro e o vidro de azeite e começou a jogá-los no ar e a alternar as mãos. Eu fiquei sorrindo que nem uma criança que vai pela primeira vez ao zoológico. O gerente da pizzaria, que toda hora nos dava miradas assassinas, ao ver aquela cena quase caiu para trás. Um garçom veio dizer que se nos saíssemos naquele minuto de lá ganharíamos dez por cento de desconto na conta. Em trinta segundos já estávamos fora do restaurante, tudo para não perder a oferta.

 

“Ele, muito a contra gosto, pegou o saleiro, o paliteiro e o vidro de azeite e começou a jogá-los no ar e a alternar as mãos.”

 

– Nós perdemos a oportunidade de fazer as cadeiras de malabares, quem sabe assim ele teria dado 20.% – comentou Guilherme.

Estávamos andando de mãos dadas, o meu vestido emprestado se arrastando na imundice das calçadas. O sol parecia estar ali na esquina.

– Bom, pelo menos agora eu sei que todo garoto que eu sair vai ter que fazer malabarismo, seja aonde for. Quero desconto em tudo.

Ele me encostou na parede e me cercou com os braços.

– Já tá pensando em sair com outros caras, é?

– Na verdade eu tava até de olho naquele ali do sinal cuspindo fogo, já pensou? Com esse eu entrava de graça no cinema, sa…

E lá foi mais outro beijo. Ficamos ali naquela parede muito tempo, quando percebemos já eram três da tarde.

 

“Eu senti o cheiro dele e, pela primeira vez em muito tempo, me senti totalmente confortável.”

 

– Meu deus! Eu tenho que voltar pra casa. – disse eu ao olhar no celular, passando por debaixo dos braços de Guilherme. – Minha mãe vai me matar se eu demorar mais um segundo aqui.

Ele me levou até o metrô. Nos abraçamos antes das catracas e eu não queria mais entrar. Eu senti o cheiro dele e, pela primeira vez em muito tempo, me senti totalmente confortável. Quando senti o celular vibrar com uma mensagem da minha mãe, tive que aceitar o destino e me desvencilhei dele. Rodei a catraca, mas ele me segurou pelo braço.

– Hei! Você não me disse nada sobre você.

– Disse sim! Eu te falei da minha família toda.

– Falou da família, mas não falou de você.

– Bom, então, quanto a mim, você vai ter que descobrir.

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