Capítulo 20 – Show de felicidade

Post-Capítulo-20

 

Trilha sonora do dia: ‘Odara’ – por Caetano Veloso

Eu e V nos sentamos na mesa sete da cantina e ficamos aguardando o pessoal chegar. O Pedro chegou em 15 minutos, acompanhado de Daniela. Ela veio correndo quando nos viu e contou a sua piada do dia. Acho que todas as noites ela ficava garimpando sites atrás de alguma que de fato valesse à pena. Raramente, porém, elas eram engraçadas mesmo.

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Se juntaram à gangue da mesa sete poucos minutos depois os meninos da banda. Eles não se integraram totalmente ao nosso grupo como fez a Dani, mas volta e meia comungam conosco (ficou bonita essa construção, hein?).

 

“Todos os meus amigos olhavam para cima de mim como estátuas de cera, fazendo uma cara que mesclava o espanto e o horror”

 

Eu estava engasgando de tanto rir daquelas coisas idiotas que Dani dizia quando alguém cobriu os meus olhos. Podia ser o Fernando, mas a ponta dos dedos não tinha os calos do violão. Pedi uma dica para  meus amigos e foi só então que eu percebi que eles estavam todos calados. A pessoa desistiu da brincadeira rapidamente. Quando ele desvendou os meus olhos, pude ver a cena mais engraçada da minha vida.

Todos os meus amigos olhavam para cima de mim como estátuas de cera, fazendo uma cara que mesclava o espanto e o horror, o Pedro não teve nem coragem de limpar a bochecha que estava suja de maionese. Imaginei que o Drácula ou Lord Voldemort que estivessem brincando comigo. Eu olhei para o alto e vi que era o Guilherme.

Eu levantei, nos abraçamos e ele me deu um beijinho na testa.

Todos os meus amigos sorriam debilmente com uma cara que parecia que eu estava apresentando o Curupira para eles. Falei para o Guilherme se sentar na nossa mesa e ele aceitou. Ninguém mais falou nada.

 

“Meus amigos sorriam debilmente com uma cara que parecia que eu estava apresentando o Curupira para eles”

 

Dani enfiou vários pedaços de pão de queijo na boca só para que não pudesse contar as piadas. Para completar o clima de loucura, era Guilherme que tentava introduzir os assuntos, mas ele não era bom em falar. Quando ele saiu para comprar uma balinha, todos me bombardearam de perguntas. Interrompi-os com um sinal.

– Eu não sei por que vocês estão assim tão chocados, gente. Ele não é um lobisomem nem nada parecido.

– É, só que não era bem isso que você dizia há duas semanas.

– Qual é? Eu nem tinha tanta raiva dele.

– Não tinha? Você de-tes-ta-va esse garoto.

– É como eu sempre digo, quem desdenha quer comprar. – disse a V e tomou um gole do suco de laranja, como se tivesse acabado de dizer algo realmente de grande profundidade.

 

“É como eu sempre digo, quem desdenha quer comprar.”

 

Mas no fim eles foram até legais com o Guilherme, passado o susto inicial e, principalmente com a chegada do Fernando, que até mal-humorado é alegre. Me senti feliz, numa daquelas horas em que você simplesmente olha ao redor e percebe que tudo que importa esta ali, ao alcance de suas mãos. A sensação de que apesar de tudo, nós somos felizes e de que nada pode abalar isso.

Fui interrompida quando vi o Flávio, e ele fez questão de vir falar comigo. Meus amigos zoavam o Flávio ininterruptamente por ele ser tão simpático. Ignorei eles, dei um abraço nele e cumprimentei os outros garotos que o acompanhavam, que ficavam dando cotoveladas uns nos outros e apontando para a V. Quando ele foi embora vi que o Guilherme estava um pouco vermelho e de cara fechada.

– Você conhece muitos garotos, né?

– Não muitos. – eu ri, ele não.

 

“– Você conhece muitos garotos, né?

– Não muitos. – eu ri, ele não.”

*

Acordei na segunda às oito horas e estava atrasadíssima porque a Banda Band-Aid se apresentaria às dez. Tentei me vestir rapidamente, mas então percebi que era melhor caprichar mais já que toda a escola ia me ver no palco e sem dúvida eu não poderia estar usando aquela blusa pólo rasgada. De modo que, quando cheguei, Salsicha já estava arrumando as coisas.

– Até que enfim, pensei que você não vinha mais… Nossa! Você tá linda.

– Tá vendo, minha falta foi justificada.

– Humm, fazer o que, né? Leva esse cabo para mim lá pro Cláudio e fala que tá com mal contato, acho que ele tem outro.

 

“Foram nos minutos anteriores ao começo do show que percebi que não entendo nada de música.”

 

Foram nos minutos anteriores ao começo do show que percebi que não entendo nada de música. Era um festival de testes e de cabos sendo substituídos, tomadas que não funcionavam e de transformadores queimados. No fim, porém, deu tudo certo. Cabos funcionando, plateia cheia. Entrei.

Ser fitada por centenas de olhares julgadores me deu salamandras no estômago (li essa expressão em um livro de fantasia). Lá ao longe, quase na porta de saída de emergência, eu vi o Guilherme. Sorri para ele e recebi um aceno em resposta. Para minha total surpresa vi que o Luís estava a uns três passos a frente do Guilherme e havia pensado que eu sorria para ele. Desviei os olhos e me concentrei nos primeiros acordes da música.

Fechei os olhos. Só então reparei que desde aquele dia que comecei eu não sentira nunca mais aquela sensação deliciosa e colorida de cantar. Eu a reencontrava bem ali. E aproveitei sem nem me dar conta disso.

 

“Eu não sentira nunca mais aquela sensação deliciosa e colorida de cantar. Eu a reencontrava bem ali. E aproveitei sem nem me dar conta disso.”

 

Quando recuperei a minha consciência e voltei a ser eu, em vez de uma performer, já estava recebendo uma salva de palmas. Todos nós agradecemos e saímos do palco com sorrisos até a orelha.

Os nossos amigos chegaram bem rápido para dizer que todo mundo tinha adorado e que não sabiam que eu cantava tão bem – tirando o Fernando que anda muito mau humorado e grosso nesses últimos dias. Não me lembro de nada que eu tenha feito, mas ele está me tratando super mal. Ignorei e fui me divertir. Eu estava odara.

 

“Ignorei e fui me divertir. Eu estava odara.”

 

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