Capítulo 21 – Noite quente

Post-Capítulo-21

 

Trilha sonora:‘Adivinha o quê?’ – Lulu Santos e Marina de La Riva

Cometi o desatino. Embarquei no primeiro dos três ônibus que me levariam até a casa de Guilherme. Apartados por uma distância de 60 km, quase como um casal que namora à distância. Apenas a expectativa de olhar-lhe no rosto, porém, já pagava o custo da viagem. Quando você progressivamente alimenta sua paixão, porém, cada minuto e cada metro afastados parecem dilacerar um pouquinho de você. A cada curva do ônibus, portanto, ia recolhendo as partes que Guilherme me roubava com sua ausência até que consegui chegar, quase no fim da tarde, para me apresentar inteira a ele.

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Leia o Entrecapítulo 20/21 – parte 1

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        – Soraya?!

        – Hello.

        – O que você está fazendo aqui?

        – Eu disse que vinha! Vim te resgatar do trabalho.

 

“Apenas a expectativa de olhar-lhe no rosto, porém, já pagava o custo da viagem.”

 

        – Ainda falta um pouquinho para dar meu horário de sair.

        – Tudo bem, eu já levei esse tempão vindo, te espero. Seus pais estão por aí?

        – Não, não estão.

        – Você tá bravo com alguma coisa?

        – Não, imagina. É… é que eu não sei se seria bom você ficar vindo aqui no meu trabalho.

        – Por quê?

        – Os patrões podem não gostar.

        – Os patrões não são seus pais?

        – É que eu já te disse que tenho problemas demais com eles.

        Coloquei minha carranca de ódio, girei nos calcanhares e, sem nem mesmo entrar na loja, comecei a caminhar pela mesma direção que eu tinha vindo. Ele me puxou violentamente.

        – E eu posso só saber qual era a programação?

        – Programação do quê, Guilherme?

 

Coloquei minha carranca de ódio, girei nos calcanhares e, sem nem mesmo entrar na loja, comecei a caminhar pela mesma direção que eu tinha vindo.

 

        – Da sua surpresa.

        – Você não tem seu trabalho?

        – Para tudo dá-se um jeito. No que você pensou em fazer? Conhecer os maravilhosos pontos turísticos do Gama? – Ele olhou para os dois lados da rua e voltou a me encarar – Pronto, já conheceu. Agora, o que vamos fazer?

        – O tradicional: cinema e fast food. Mas se você…

        – Ótimo. Só faltam uns quinze minutos pra eu sair, vou pedir para não ficar para fechar o caixa da loja.

        Ele piscou o olho sedutoramente e foi trocar de roupa, apesar de eu achar ele um charme naquele avental vermelho e verde de ajudante de Papai Noel. Entrei na loja, que na verdade era só um cubículo com pilhas de doce tão altas que impediam até a luz de entrar. Não resisti a um bolinho que tava me chamando e decidi levá-lo pra comer enquanto o esperava.  Fui pro caixa para pagar.

        – Quanto eu te devo?

        – São seis reais… Soraya?!

        – Débora? Débora! O Guilherme não tinha me falado que você tava trabalhando aqui.

        – É? Eu estava de experiência nos últimos meses, mas hoje é o meu primeiro dia como funcionária contratada. Na verdade, você é a minha primeira cliente maior de oito anos.

        – Oh! É essa a maioridade por aqui? – quis que soasse como uma piada, mas o amargor na garganta me tirava a comédia – Que honra.]

 

Débora! O Guilherme não tinha me falado que você tava trabalhando aqui.

 

        Não quis transparecer a nuvem de ciúmes que estava me afundando. Por que ele não tinha me contado nada? Provavelmente foi ele quem a indicou pro emprego. Será que era por isso que ele não me queria na loja? Vi o Guilherme saindo da cozinha. A Débora também estava olhando para ele.

        – Boa sorte no novo emprego. Mas só tenha cuidado para resistir às tentações.

        – É. Elas são muitas aqui.

        Olhei para ela e vi o seu sorrisinho enquanto o Guilherme me conduzia até a saída.

*

Eu e o Guilherme fomos até o cinema andando, já que não ficava muito longe da loja. Tentei de todos os modos tirar aquele ciúme bobo da minha cabeça e consegui com muito custo e com muitos beijos. Decidi que era melhor não incomodar ele com perguntas sobre a Débora, afinal minha cota de ciúmes dela já tinha passado há muito do limite.

        Assistimos um filme de comédia romântica (escolha minha) e depois fomos a uma lanchonete deliciosa (escolha dele). Pedimos a comida mais empapada de óleo e sal que tinha e ficamos comendo em uma daquelas mesinhas que ficam bem próximas do forno. Fiquei com gordura impregnada o bastante para encher uma lata de óleo.

        Nós dois já estamos muito mais à vontade com a presença do outro. Já não temos mais aquele clima de romance de início de trilha e passamos muito mais tempo discutindo coisas bobas sobre comida do que fazendo qualquer outra coisa. Ele não gosta de livros de auto-ajuda, mas é adorador de jogos RPG on-line. A viagem dos sonhos dele é uma turnê de ecoturismo pela Nova Zelândia enquanto eu prefiro a tradicional Paris. A única coisa que consigo pensar quando estou com ele é em como detesto tudo o que ele gosta. Meu coração só pode estar trabalhando ao contrário.

        – Que horas são?

        – Quase nove.

        – Então eu ainda quero te mostrar uma coisa. Quão disposto você está a ir para Ceilândia comigo vê-la?

        – O que eu vou ver?

        – Não vou dizer. É sim ou não.

        – Quando não é sim com você?

 

A única coisa que consigo pensar quando estou com ele é em como detesto tudo o que ele gosta. Meu coração só pode estar trabalhando ao contrário.

 

        Pegamos o ônibus para minha casa. Praticamente não conversamos. Eu pensava na metáfora que havia me ocorrido na ida, de que ia juntando meus pedaços. Agora eu voltava como mais do que uma, com meu troféu de um metro e noventa capotando de sono e encostando-se nos meus ombros. Eram dez da noite e caminhávamos pelas ruas mais perigosas do meu bairro. Começava a pensar se aquela surpresa valeria tanto a pena ou se não fora uma idiotice arrastá-lo para longe de casa no meio da noite de um dia de semana. Eu fazia o caminho pelas ruas mecanicamente, olhando para um lado e para o outro, desconfiando das sombras móveis que se escondiam dos esparços postes. Achei que a surpresa era muito idiota. Assim que ele me deu a mão, porém, me senti segura.

        Chegamos à portaria do condomínio do Luís e, para variar, não havia porteiro. Guilherme me perguntou que lugar era aquele, mas eu apenas fiz sinal para que ele se calasse. Passamos ao lado da quadra de esportes e entramos no prédio do meu ex-namorado. Me sentia nervosa pelo lugar, pela companhia e pelo crime. Entramos no elevador e eu não apertei nenhum botão até que ele fechasse os olhos. Para garantir que ele não veria, coloquei minha mão gelada sobre as vistas dele.

        – Não abre os olhos ainda. Cuidado com o degrau… Pode abrir!

*

Era a primeira vez que eu ia àquele terraço naquele ano. Era a primeira vez que eu ia ali sem o Luís. A minha relação com o espaço, porém, nunca esteve ligada a meu ex-namorado. Ele devia estar jantando alguns andares abaixo de mim, mas sua presença era indiferente se comparado ao prazer da vista.

        O prédio era uma torre de 20 andares, o maior da cidade, empatado com seus cinco gêmeos. A torre em si era sem graça até na cor, verde pistache, mas a vista que ela proporcionava era de tirar o fôlego.

        O terraço era cravejado de antenas de televisão, cada uma apontada para uma direção, como o conjunto de armas de uma nave espacial. Havia uma trilha tênue de concreto que ligava a porta à borda do prédio, o resto do ambiente iluminado pela luz da lua era composto por frágeis telhas de zinco. Como um equilibrista, coloquei um pé diante do outro e estiquei a mão para Guilherme para que ele me acompanhasse na caminhada. Relutante, ele me deu a mão.

 

Como um equilibrista, coloquei um pé diante do outro e estiquei a mão para Guilherme para que ele me acompanhasse na caminhada. Relutante, ele me deu a mão.

 

– Que lugar é esse?

– O terraço.

– Que é um terraço eu percebi.

– Não, não é um terraço. É “o” terraço. Meu terraço. Vem.

Caminhamos como bêbados até chegarmos ao parapeito. Havia bosta de pombo em todo ele, mas me apoiei. À custo, me sentei no limite do abismo.

– O que você tá fazendo? Você é louca? Desce daí!

– Senta aqui comigo.

Indiquei um lugar minimamente limpo para Guilherme e ele, vendo que não me demoveria da ideia, deixou de resistir. Eu me ajeitei na mureta, que deveria ter uns vinte centímetros de espessura, e estiquei minhas pernas para fora, fazendo-as flutuarem a cinquenta metros de altura. Apavorado, Guilherme segurou minha mão e manteve seu pé muito bem fincado na viga pela qual havíamos caminhado. Delicadamente me aproximei dele e percebi que era a minha vez de protege-lo. Sem me segurar, coloquei as duas mãos no rosto dele e olhei profundamente em suas pupilas até que me visse refletida nelas. Só quando senti que o peito dele subia e descia suavemente que toquei meus lábios nos dele.

– Aproveite a vista – convidei.

 

Delicadamente me aproximei dele e percebi que era a minha vez de protegê-lo.

 

Lentamente, ele se virou e colocou as pernas para fora. Pontos amarelos e brancos de postes de luz formavam um tapete de civilização que se estendia pelo que pareciam ser infinitudes. A noite torna as cidades uma massa homogênea e impactante, mas mesmo naquele bolo uniforme eu conseguia identificar cada um dos locais da minha vida refletidos. Apontei para a direita e indiquei minha casa a Guilherme. Mostrando a borda leste do horizonte, indiquei a casa da V. Mostrei a ele a escola onde eu estudei o ensino fundamental. A casa onde minha tia Rosa morava. Passeamos pela minha vida história sairmos do espaço ou do tempo.

Com as vistas adaptadas à pouca luz, nos parecia que a lua brilhava soberana como um holofote. Ficamos ali por uma eternidade, os braços entrelaçados, sentados a beira da morte e do amor – qual queda seria a mais perigosa?

        – Uma hora nós vamos ter que descer. – sugeri.

        Ele me apertou contra ele e eu não me importei que ele estivesse pegando nas minhas gordurinhas. Ele desceu da mureta e esticou a mão para me apoiar. Desci e ele aproveitou para me girar e encostar-me de volta no parapeito.  Ali ele forçou seu corpo contra o meu e dessa vez o beijo não foi cândido.

        Ele desceu lentamente a mão que ele apoiava em minha nuca até meu seio. Com mãos calejadas e ao mesmo tempo macias, Guilherme aqueceu pouco a pouco a noite. Não desgrudávamos nossos corpos ou nossas línguas, que após terem dado tantas voltas entre si que pareciam estar atadas em um nó. Sem pensarmos, mas plenamente conscientes, tiramos nossas blusas e penduramos elas em antenas de TV a cabo próximas.

 

Não desgrudávamos nossos corpos ou nossas línguas, que após terem dado tantas voltas entre si que pareciam estar atadas em um nó.

 

        Era o ambiente mais imundo, o local mais impróprio, o dia mais improvável, mas era desejo. O vento frio eriçava a penugem das minhas costas, mas eu estava quente por dentro, como nunca estivera antes. Eu também caminhava pelo seu corpo com meus lábios e mãos, impressionava-me a envergadura das costas dele, fortes e largas como se fossem preparadas para o voo. Os pelos cresciam como um bosque ao redor de seus mamilos e dali desciam em linha contínua até a calça jeans. Sem um pingo de arrependimento, fiz esse caminho ajoelhando-me.

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