Capítulo 23 – A gente vai levando

Post-Capítulo-23

Trilha sonora: Não existe amor em SP – Criolo

Desculpe a ausência. Eu estou tendo uns dias super atarefados. Reorganizamos a casa para recebermos minha nova… Espera, melhor eu explicar direito.

Na quinta, eu fui embora assim que soube do sumiço da Daniela. Nem precisei procura-la, porém. A V me mandou uma mensagem falando que levava a grávida-fujona para sua casa. Não pestanejei ao embarcar no ônibus para Taguatinga, mesmo com Guilherme me pedindo uma série de informações complementares sobre a história, querendo que eu ficasse. Não havia tempo de explicar a ele todas as nuances, então convidei-o para ir comigo. Ele se recusou e eu não me dei ao luxo de chatear-me.

Leia o Capítulo 22

Cheguei na casa da V menos de uma hora depois e encontrei uma Dani muito diferente da que eu havia deixado no colégio. As forças que ela tinha juntado na noite anterior, que pareciam ter construído uma armadura a seu redor, ruíram por completo. Ela estava abandonada.

 

“As forças que ela tinha juntado na noite anterior, que pareciam ter construído uma armadura a seu redor, ruíram por completo. Ela estava abandonada.”

 

– Soraya… – foi tudo que ela disse antes de voltar a chorar.

Fiz a única coisa que poderíamos fazer: abracei-a. Ela chorou o quanto pode e, mesmo que eu não perguntasse, contou tudo que Pedro lhe disse. É difícil pensar que meu melhor amigo teve coragem de perguntar se o filho era dele mesmo. Há sempre um tom das pessoas das quais gostamos que nos é desconhecido – e a surpresa pode ser boa ou ruim.

Praticamente carregando Dani pelos braços, levei-a de volta a minha casa. A V me ajudou como pode, mas não nos acompanhou. Dani voltou a minha casa com o conforto de uma moradora. Não se opôs a nada e, sem comer ou mesmo lavar as lágrimas, deitou em minha cama e entregou-se à exaustão. Liguei para minha mãe e a avisei que a Dani tinha voltado. Ela pareceu não achar muito bom e deixou isso claro quando chegou em casa.

 

“É difícil pensar que meu melhor amigo teve coragem de perguntar se o filho era dele mesmo. Há sempre um tom das pessoas das quais gostamos que nos é desconhecido – e a surpresa pode ser boa ou ruim”

 

– Eu entendo que ela precisa de ajuda, filha, mas pensa bem. Eu não acho que os pais dela vão deixá-la voltar para casa. Se seguir assim, a gente vai ter daqui a pouco um bebê aqui em casa.

– Não era o que a senhora queria? Vive sugerindo a Solange que ela engravide.

– É muito diferente, você sabe bem.

– Não, não é. – disse Tia Rosa.

Ela entrou na conversa sem fazer cerimônia. Estávamos as três na cozinha e a porta do meu quarto continuava fechada. Minha mãe cortava cenouras e eu a ajudava com os brócolis. Tia Rosa havia acabado de chegar do trabalho. Batendo a sacola de compras no armário, Tia Rosa virou-se e não fugiu do assunto.

– Não nos custa nada ajudar a menina.

– Claro que custa, mana. São mais duas bocas!

– A Solange praticamente não mora mais aqui. Ela não vai se importar de emprestar o quarto, nem usa.

– Rosa, não é assim. A menina tem família…

– Família nem sempre ajuda.

 

“– A menina tem família…

– Família nem sempre ajuda.”

 

Aquela firmeza de Tia Rosa sempre esteve lá ou havia sido criada especialmente por Dani? Minha mãe enxugou as mãos em um pano de prato e, lambendo os dentes, pediu:

– Soraya, vá no seu quarto ver se sua amiga já acordou. Pode deixar que eu termino.

Obedeci silenciosamente. A Dani continuava dormindo, o rosto apoiado nas mãos como se fosse uma dessas esculturas de porcelana barata. Com a porta ligeiramente aberta e o ouvido colado na fresta, tentava entender a sussurrada troca de insultos entre minhas parentas, mas,  talvez já sabendo que eu estava fazendo isso, elas falavam cada vez mais baixo. Só entendi a totalidade de uma frase quando minha tia elevou um pouco a voz e, rasgando a garganta, disse: “eu não estou te pedindo, mana. Eu estou cobrando”.  A Dani quase acordou e eu fechei a porta para não incomodar. Sentei ao pé da cama, morta de curiosidade.

*

 

No jantar, todos sentados nos sofás ao redor da TV – tirando a Solange, mas ultimamente ela nunca está em casa mesmo. Engolia as tiras de cenoura e a vontade de fazer perguntas. Com o garfo a Dani remexia o prato e, embora fizesse vários elogios ao tempero, não comeu nada. A ansiedade durou toda a refeição até que minha mãe se levantou de seu lugar e, a caminho da cozinha, parou ao lado de minha amiga. Com a mão em seu ombro, ela disse: “conte conosco pelo tempo que você precisar, querida”. Ela foi soou sincera e Dani agradeceu entristecida.

Dani até ligou para os pais no sábado, mas eles não atenderam.  O Pedro também mandou mensagens para ela e depois para mim para que eu lesse para ela. Não o fiz, apenas disse que ela estava bem. E, estranhamente, estava mesmo. Ela não estava sorridente, não, mas não chorou mais e, super disposta, lavou o banheiro, a louça e cozinhou sem que ninguém pedisse. No tempo livre, conversamos sobre séries da internet, nada sobre gravidez.

 

“Ela não estava sorridente, não, mas não chorou mais”

 

Solange só apareceu no domingo e realmente não ligou de terem ocupado seu quarto. Parecia até aliviada por ter uma desculpa de não aparecer em Ceilândia. Desejou boa sorte a Dani, prontificou-se a ajudar e, depois disso, partiu para o único assunto que a interessava, o milionário casamento que ela planejava cronometricamente. A escolha de lírios para enfeitar a igreja pareceu encantar Dani, ela era apaixonada pela flor. Tudo parecia bem, até que chegou segunda.

Em sua única folga, que ela tirava de 15 em 15 dias, Tia Rosa foi acompanhar Dani até a casa de seus pais, em um horário em que eles não estavam, para buscar as roupas dela. Planejaram para que fosse tudo o mais rápido possível – a depender, claro, do transporte público. Eu fui para o colégio e o plano era que Dani aparecesse no segundo horário, mas ela não respondeu minha mensagem. No intervalo entre uma aula e outra dei uma escapadinha e vi que ela não estava em sua sala. Preocupada, liguei para minha tia. Ela – nem sei para quê tem celular – não atendeu. No intervalo, porém, lá estava Dani.

– Eu tinha que escrever pelo menos uma cartinha.

– Por que você não me avisou? Eu teria te ajudado.

– Eu queria escrever com o ódio. Não era algo com o qual você pudesse contribuir.

 

“Eu queria escrever com o ódio”

 

Não soube o que dizer e ela não pareceu esperar que eu dissesse alguma coisa. Tampouco houve tempo para que eu digerisse a informação. Eu, V e Fê cercávamos a Dani e a impedimos, inconscientemente, de ver quando Pedro se aproximou.

– Oi.

– Oi. – respondeu ela.

Como se eles fossem vermes contagiosos, nós três nos afastamos o bastante para dar a eles a possibilidade de conversarem intimamente, mas ainda a uma distância segura que nos permitisse ouvir o que estava acontecendo. E interceder, caso necessário.

– Desculpa pela maneira rude como eu te tratei.

– Não foi só a maneira que você falou…

– Desculpa pelo que eu disse.

Dani molhou os lábios e finalmente encarou Pedro.

– Desculpa ter te batido.

– Tudo bem. Você já falou com os seus pais?

Só para minha mãe, mas meus irmãos não deram trégua para ela pensar… Você já sabe o que vai fazer?

– Eu preciso da ajuda do pai para decidir.

– Eu não me vejo como um pai.

– Nem eu me vejo como mãe, mas é a situação que Deus nos impõe agora.

Eu sei que é uma situação tão difícil para você quanto para mim.

– Eu diria que é mais difícil para mim.

 

“– Eu sei que é uma situação tão difícil para você quanto para mim.

– Eu diria que é mais difícil para mim.”

 

– Você seria injusta.

– Eu fui expulsa!

– E eu sou filho de imigrantes, com quatro irmãos e vivi tendo pouco ou nada para comer. Eu sou fruto de uma família enorme e insuficiente, não queria colocar mais gente para participar disso.

– Já aconteceu! Não há o que lamentar agora. E você sabe que eu não faria um aborto, por mais que você não goste, eu sou católica e…

– Eu quero ter a criança.

– O quê?

– É como você disse, já aconteceu. Eu gostaria que não fosse assim, mas já que é, nos resta aceitar.

– Eu não queria que fosse assim, Pedro.

– Eu sei. Eu também não.

– O que a gente faz agora?

– A gente vai levando.

*

 

“– O que a gente faz agora?

– A gente vai levando.”

 

Voltando ao começo: Desculpe a ausência. Eu estou tendo uns dias super atarefados. Reorganizamos a casa para recebermos minha nova irmã. Solange trancou suas coisas no armário e levou o resto. Ficou um colchão no chão e já foi o bastante para abrigar a quem precisa. Os pais de Dani não cancelaram o cartão, ainda falam com ela como se ela fosse um encargo, um trabalho. O cuidado e o afeto ficou por nossa conta. A mãe dela enviou um whatsapp perguntando: “esta viva?”. Ela respondeu: “ainda”. Foi tudo.

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