Capítulo 24 – Confissões preguiçosas

Post-Capítulo-24

Trilha sonora:’Monomania’ – Clarice Falcão

A tia Soledad, a mãe do Pedro, esteve lá em casa para visitar sua nora. Família de gente muito simples, clones de diferentes idades e sexos de meu amigo. Me pareceu esquisito que aquele encontro acontecesse pela primeira vez na minha casa, que, na prática, não tinha nada a ver com isso. Ela agradeceu minha mãe em um portunhol que, de tão emocionado, não carecia de tradução.

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Tenho ajudado minha Tia Rosa e a Dani como posso. Me encarreguei de ir no médico junto, ajudar a montar o enxoval fazendo um tour por brechós de Ceilândia, escolher o berçinho e essas coisas muito bonitinhas, mas extremamente cansativas.

 

“Ela agradeceu minha mãe em um portunhol que, de tão emocionado, não carecia de tradução.”

 

Ontem, a minha tia, a V, eu e Dani fomos na primeira consulta oficial ao médico. O Pedro não pode comparecer – ele tem procurado emprego em todos os lugares para sustentar a família que o acaso lhe conferiu. Sua carreira de pesquisador da história pré-colombiana no Brasil foi guardada no armário. Estou até vendo com o José, gerente do Maracangalha, uma vaguinha para ele. Como “apenas” garçom.

*

Do lado relativamente menos dramático da vida, estou eu. Tenho dormido muito mal, então resolvi tomar três xícaras de café pra ver se adianta alguma coisa em me manter acordada. Abri o jornal bem na parte que me interessa: filmes na tevê e horóscopo.

“Câncer: Sol e Marte em tensão anunciam o inicio de um período muito turbulento. Uma breve interferência da lua fará a sua semana mais áspera. O ideal é fazer tudo passar depressa, pois um futuro melhor lhe aguarda.”

 

“Sol e Marte em tensão anunciam o inicio de um período muito turbulento. Uma breve interferência da lua fará a sua semana mais áspera.”

 

Sim. Eu acredito em horóscopo. Não é só por que as coisas tem uma explicação científica que a explicação mística é descatável. Nesse que transcrevi aí em cima, porém, não pude acreditar. Nada pode ser tão terrível. Pode? Pode sim. Tudo de mais maluco, de mais impensado, de mais terrível aconteceu comigo hoje. Não posso reclamar que foi por falta de aviso. Passe a acreditar nos horóscopos.

Aconteceu assim:

Enquanto lia o jornal, lembrei de um dever de português que eu não tinha feito. Dani já estava pronta e decidiu me esperar na parada de ônibus. Fiz ele bem rapidinho e fui no banheiro pra dar aquela última arrumadinha antes de sair de casa. Ao me olhar no espelho, porém, percebi que uma espinha na bochecha tinha inflamado e estava horrível. Estourei, tentei maquiar por cima e só ficou pior. Quando vi, Dani e o ônibus já tinham ido.

Esperei mais vinte minutos por outro ônibus e, enquanto esperava, fiquei mexendo na minha bolsa e lembrei que tinha deixado o dever feito às pressas sobre a mesa. Voltei correndo de novo em casa para buscá-lo e retornei para a parada. Como o ônibus já tinha passado, decidi ir de metrô. Assim que comecei a correr até lá, porém, tropecei numa droga de um buraco na calçada e atirei meu joelho com toda força contra o solo. No embate, fiquei na pior – e com o joelho todo ralado. Tive que ir andando manca da estação até a escola. Cheguei, para variar, atrasada.

No quarto tempo, tivemos uma prova surpresa de biologia. Assunto: répteis. As duplas foram escolhidas por sorteio. Fui obrigada a fazer parceria com o Tito, o que significa que fiz tudo sozinha. Além de meus conhecimentos fracos na matéria, o Tito ainda fez o favor de marcar o gabarito errado. Resultado: recorde da pior nota que alguém jamais tirou.

 

“Resultado: recorde da pior nota que alguém jamais tirou.”

 

Quando acabaram as aulas tive que aturar o Guilherme me criticando por eu não saber que os ovos de répteis têm muito vitelo. Ele ainda resolveu se sentar perto de mim no gramado e ficar fazendo vezes de namorado grudento. Eu detesto. Dei um empurrão nele e fui me sentar com o Fernando. O Fê ainda continuava com a mesma cara fechada dos últimos tempos. Como não tava muito a fim de conversar, era o melhor lugar para eu estar. Passei o braço dele envolta do meu pescoço e fiquei aninhada.

Só quando dei lhe a mão que ele pareceu perceber minha presença. Sorriu e ficou me fazendo cafuné. O Guilherme de longe o fuzilava com os olhos. Só d’eu respirar o mesmo ar que outro homem ele fica todo inseguro e com aquela cara de bunda.

Por puro ciúme, Guilherme foi embora e eu fingi que não me importei muito. Depois, nossos amigos foram indo para a para de ônibus um a um e, preguiçosamente, restamos só eu e Fernando, parados como se a nossa falta de movimento estancasse também o prosseguimento da vida. No fim, quando estavamos à sós, ele se sentou diante de mim e disse:

 

“Restamos só eu e Fernando, parados como se a nossa falta de movimento estancasse também o prosseguimento da vida”

 

– Sol, eu preciso falar um negócio com você.

– Olha, você tem certeza, Fê? Meu dia tá realmente péssimo e eu, infelizmente, não estou com a mínima paciência.

Não dá pra adiar mais. Eu já tentei falar várias vezes.

– Não diga que está apaixonado por mim, por favor.

– Quem dera fosse algo tão bom assim.

 

“Não diga que está apaixonado por mim, por favor.”

 

Eu só reparei direito nele nessa hora. Ele tava com uma cara de ainda mais raiva do que a habitual dele nesse último mês.

– Quê que anda acontecendo com você?

– Eu vou me mudar de Brasília.

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