Capítulo 25 – Ele foi. O coração ficou

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Trilha sonora: ‘Naquela estação’ – Adriana Calcanhotto

Acho que a vida é muito mal balanceada. As coisas nunca acontecem como esperamos – e na maioria das vezes elas acontecem ao contrário do que gostaríamos.  Nós deveríamos ter uma espécie de sexto sentido, alguma coisa que nos avisasse de que estamos perdendo tempo e que as pessoas ao nosso redor podem ir embora a qualquer momento. Mas geralmente é tarde demais quando tomamos conhecimento.

Leia o Capítulo 24

Este capítulo representa o fim da Parte 2 – A subida

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Claro que o Fernando tem um pouquinho de culpa. Ele sabia da possibilidade de ter de se mudar há muito tempo, mas preferiu nos poupar do sentimentalismo barato. Por que as pessoas sempre resolvem me contar as coisas importantes antes de todo mundo? Elas realmente acham que eu vou saber lidar com o que está acontecendo?

Comecei a sofrer desde quando ele me contou que estava de mudança, não sabia nem sequer para onde seria, para minha esquina ou para a China, pouco importava. No fim não era nem para tão longe, nem para tão perto, mas era irreversível.

 

“Agora ele tinha que voltar para uma terra que não é a dele para reparar esse erro que não foi ele quem cometeu.”

 

O Fernando é filho de pais paraibanos que vieram para cá em busca de uma vida melhor e que, seguindo a manada, não conseguiram muita coisa. Agora ele tinha que voltar para uma terra que não é a dele para reparar esse erro que não foi ele quem cometeu. Na verdade todos agiram melhor que eu. Eu não falei mais nada sobre o assunto depois que recebi a notícia, fingi que não era verdade até o último segundo.

Ontem, porém, às vésperas do embarque, a viagem era o único assunto que imperava, inclusive na minha casa, com a Dani. A V decidiu dar a ele o melhor sábado de todos os tempos, uma maratona que visitou a cidade inteira e que acabou, Deus sabe como, às quatro da manhã em um motel na Candangolândia. O Pedro foi lá em casa buscar a Daniela para resgataram ele e a V do motel e da ressaca. Eu não quis ir, não quis ajudar, queria paz.

No meio da manhã, porém, recebi da Dani uma mensagem no celular: “O Pedro convidou o Fernando pra padrinho. Eu não respondi. O fato é que estava todo mundo fazendo alguma coisa para comemorar, eu só não compreendo o porquê. Estamos perdendo uma parte do nosso grupo, uma parte do que fomos.

 

“Nunca fui boa perdedora e não vou começar agora.”

 

Nunca fui boa perdedora e não vou começar agora. Decidi que não iria até o aeroporto já que não queria ficar chorando. Liguei para o Fernando no sofá da minha casa  e ele não falou coisa com coisa, provavelmente ainda bêbado, e acabei ficando com raiva, desliguei logo. Eu fiquei no sofá, sem nem ligar a TV. Só pensando se eu tinha feito o certo.

Fiquei distraída com meus pensamentos das 8h às 13h, quando eu finalmente percebi que estava errada. Catei a minha bolsa e fui correndo pro aeroporto. Implorei para que meu padrasto me levasse, já não havia tempo para a caridade do ônibus.

Chegamos ao aeroporto em questão de meia hora, mas a pista do terminal em si estava lotada, os carros páreo a páreo com as lesmas. Antes mesmo que tivéssemos feito a curva para entrar no estacionamento, eu abri a porta e saí correndo, coração em disparada, pelos boxes de check-in, já temendo não encontrar ninguém.

 

“Ele decidiu ficar até o último instante possível por que sabia que eu viria”

 

Mas o Fê me conhece bem. Ele decidiu ficar até o último instante possível por que sabia que eu viria. Estavam todos no aeroporto. A escola inteira, até alguns professores. O Fernando sempre foi como um superstar do colégio, uma dessas pessoas que nasce com o dom da popularidade. Todos queriam estar lá para ouvir a última piadinha, ver o último sorriso. Mas nós os amigos mais próximos estávamos todos consternados, com toda a elegância que a tristeza traz.

Ao me ver, o Fernando abriu um sorriso de orelha a orelha e nos abraçamos por longos minutos. O Guilherme, com sua aparição brusca do meio da multidão, que nos separou. O Fê não ligou para a presença intimidante do meu namorado e acarinhou as minhas bochechas.

– Que isso gente! Vamos parar de chorar! Eu não morri, só estou me mudando. Pensa pelo lado positivo: agora vocês têm uma casa na praia. Nós vamos continuar nos falando normalmente. A tecnologia evoluiu foi para isso: celular, e-mail, skype, redes sociais, facebook…

– E desde quando isso é falar normalmente?

Não seja tão dura comigo, Sol.

– Desculpa.

 

“E essa foi a minha última palavra com ele: “desculpa” e um abraço rápido.”

 

E essa foi a minha última palavra com ele: “desculpa” e um abraço rápido. Logo vieram os nossos novos amigos para se despedirem. O pessoal da banda combinando uma gravação via internet, o Guilherme com aquela cara sem graça de quem está ali por obrigação, a Daniela rindo para não chorar. Me afastei quando ele começou a se virar para ir em direção ao salão de embarque, fingi que procurava meu padrasto em meio a multidão.

Na hora em que Fernando ficou de costas, porém, eu morri de medo. As coisas e as pessoas ao meu redor foram desaparecendo como se sugadas por um aspirador de pó gigantesco. Só restaram eu, Fernando e um fundo branco, de um horizonte ao outro, um branco sepulcral. Restava o nada e ele, afastando-se lentamente para virar parte da sengracisse.

 

“E de cada riso que eu conseguia me lembrar, descia mais uma lágrima. O choro se tornou incontrolável, eu comecei a soluçar e me faltou o ar.”

 

Nunca me senti tão desamparada, tão só e tão triste na minha vida. As lágrimas começaram a descer como umas goteiras e logo como torrentes. E foi quando aquele filme que passa na nossa cabeça durante as despedidas entrou em cartaz. E de cada riso que eu conseguia me lembrar, descia mais uma lágrima. O choro se tornou incontrolável, eu comecei a soluçar e me faltou o ar.

O braço de alguém me envolveu e eu passei a chorar ainda mais. O Fernando voltou o olhar muito preocupado para mim. Ele parou, chegou até a voltar alguns passos, mas já devia ter passado da área comum.

Agora era uma multidão que me ajudava e eu sabia que estava sendo ridícula, pra ser sincera nós nunca fomos muito próximos, nunca tinha imaginado que eu sentiria tanto a falta dele. Quanto mais eu tentava ser racional e parar com aquela tragédia grega, porém, mais eu chorava. Mas chorava pelo quê?

 

“Nunca tinha imaginado que eu sentiria tanto a falta dele”

 

Nos conhecemos há muitos anos, mas nunca brigamos, nunca compartilhamos um segredo. Fomos amigos? Não, friamente, tenho que dizer que não. Fomos conhecidos e nada mais que isso.

Alguém me virou e me levou em direção aos banheiros, mas parar de vê-lo não me fez parar de chorar. Depois que muitas lágrimas correram pelo meu rosto, elas foram lavando a minha cegueira branca e restituíram as pessoas a seus devidos lugares.

Consegui ver ao fundo o Guilherme que, ao contrário dos outros, não estava me ajudando. Seus olhos estavam vermelhos, não de chorar, mas de ódio. Sabia que aquilo me causaria muitos problemas. Eu ainda tentei falar com ele, mas não me deixaram. A V não conseguiu esconder no tom de voz a raiva que ela estava dele.

Era ela quem liderava o séquito que me ajudava. Até alguns seguranças do aeroporto estavam auxiliando nos meus cuidados – e também, claro, tratando me manter a louca sob controle. O meu padrasto me levou até em casa, juntos iam V, Pedro e Dani. Não queria, todavia, ter tanta companhia. Estava envergonhada pelo vexame, não sabia explicar o que me ocorrera.

 

“No fundo é sempre assim, não choramos pelo que foi, mas pelo que podia ter sido.”

 

Mas agora acho que sei. Estava arrependida de não ter dado um maldito beijo nele. Queria ter lhe dito o quanto ele foi especial na minha vida. Estava arrependida de não ter tido uma discordância com ele, de não termos aprofundado nada nossa amizade. Lamentava não ter dado nem recebido um ombro amigo. Chorei de não ter participado do melhor sábado de todos os tempos e de não ter tido uma última conversa decente. No fundo é sempre assim, não choramos pelo que foi, mas pelo que podia ter sido.

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