Entrecapítulo 25/26

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Trilha sonora: Eu viro areia – Gal Costa

Uma mosca gira ao redor de mim e decide pousar no outro morto mais próximo, meu celular. A tela funciona como um espelho, refletindo a sombra da mosca, sem acender para nada, sem vibrar, sem gritar. Desde domingo, não falo com o Guilherme. Já que foi ele que me abandonou no aeroporto, esperei que ele tomasse a iniciativa de refazer o contato, mas nada. Cheguei a curtir uma foto dele no Instagram para mostrar minha boa vontade.

Leia o Capítulo 25

 

“Esfaqueada por cada momento que não se realiza”

 

Por fora, o ignoro como ele ignora a mim, mas por dentro me sinto uma fantasma, assombrada pela ideia do momento em que ele voltará a falar comigo; esfaqueada por cada vez que esse momento não se realiza. Para extinguir qualquer possibilidade de contato, Guilherme tem chegado e saído de sala com atraso milimetricamente cronometrado – o bastante para passar dos portões sem advertência, mas também para chegar na sala já com professor. Ele vinha se sentando ao lado de V nas últimas semanas, mas agora voltou a seu lugar na primeira cadeira da fila, como cão de guarda do professor.

Ele não sente saudade,  remorso, respeito? O celular vibra intensamente e assusta à mosca e a mim. Agarro-o desesperada, com o perdão já na ponta da língua, mas é só uma mensagem da operadora me propondo um pacote de dados. Eu queria uma proposta de casamento. Ela não vem e eu viro areia.

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