Capítulo 26 – Amar não basta

Recorte-64

 

– Pelo amor de Deus, Guilherme! Todo mundo tem amigos homens! Você não pode simplesmente fazer essa cara toda as vezes que um cara chegar perto de mim.

– Eu tenho o direito de sentir ciúmes.

– Claro, eu é que não tenho a obrigação de suportar.

 

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Ele ficou passando a mão na cabeça freneticamente. Dava pra ver que ele tava muito nervoso. Ele respirava tão rápido que as narinas ficam de movendo velozes, como turbinas de um navio a vapor.

– Você tá terminando comigo?

– A gente ainda tem alguma coisa?

Ele se levantou do banco. Não disse mais nada, aproveitava a sombra da árvore do pátio da escola para esconder as minhas feições de sofrimento. Eu deveria terminar, aquilo que eu vi no aeroporto não era uma atitude normal, mas pior ainda foi a infinidade das horas sem ter notícia dele, sendo tratada como se eu fosse um objeto de decoração da sala de aula. Eu tive que sair na metade do horário da última aula apenas para espera-lo na porta antes que ele corresse de mim mais uma vez. Se eu não tivesse afogado meu orgulho ele nunca mais falaria comigo? O mais triste é que eu acho que a resposta é sim.

 

“Se eu não tivesse afogado meu orgulho ele nunca mais falaria comigo?”

 

– Sol, você está sendo injusta comigo. Não é bobagem minha. Eu vi a forma com que você olhava para ele, falava dele. E também teve aquele dia em que você saiu de perto de mim pra sentar com ele…

– Guilherme, você realmente acha que eu tinha alguma coisa com o Fernando?

Não sei!

– Eu não acredito que você está me acusando de uma coisa dessas. Ele é meu amigo há anos!

– Eu não acho que você tenha nada com ele, tá bom? Mas você fala dele de um jeito.

– Ele é meu amigo! E ele é mesmo um homem lindo.

– Olha aí.

– Não é por eu namorar com você que todos os homens bonitos da face da terra desaparecem, Guilherme. Eles ainda estão por aí e estarão sempre, mas costumava haver apenas um deles que eu amava.

 

“Os homens bonitos estão por aí e estarão sempre, mas costumava haver apenas um deles que eu amava”

 

– Costumava?

– Eu também já não sei o que pensar.

– Olha, tá bom! Você está certa, eu vou me controlar mais. Eu acredito que você não teve nada com o Fernando.

– Então me explica por que você agiu daquela forma.

Não tem explicação. Foi uma coisa natural, sem pensar.

– Como eu vou me sentir segura ao seu lado agora?

Péra ai! Você não tá pensando que eu sou um desses malucos que aparecem no jornal não, né? Você está achando que eu vou te matar?

Não, mas a V tá.

– Foda-se a V.

– Nossa! Agora você conseguiu me demonstrar toda a sua maturidade e o seu controle. Me sinto muito mais segura.

– Ah! Para de distorcer o que eu digo! Escuta bem: gosto de você. Pronto, basta.

– Basta?

Nós não combinamos em nada. Mas eu gosto tanto dele. Ele não é simpático, detesta apelidos, não gosta das pessoas, não gosta do Brasil e também não gosta dos meus amigos. O que me prende a ele, então?

É só isso? Eu te amo e está tudo lindo? Vá lá, leitor, me responde ao menos uma vez. Toma a decisão por mim, que é difícil demais! Ele nunca foi o Guilherme que eu imaginei, ele sempre esteve mais para o Mr. M. Eu devo continuar namorando um mistério?

 

“É só isso? Eu te amo e está tudo lindo?”

 

– Guilherme, presta atenção! Eu entendo que você sinta ciúmes, mas esse seu comportamento é completamente insano. Eu conheço o Fernando há três anos. Você acha que se eu tivesse alguma coisa com ele nós precisaríamos esconder? Você não acha que isso teria acontecido antes?

– Você quer dizer que isso já aconteceu antes?

– Você é irracional! Você só escuta o que você quer! Se tem alguém aqui com direito de sentir ciúme sou eu, sabia? Afinal você nunca me viu ficar dizendo “eu te amo” para nenhum amigo meu!

– Ah! Esse assunto de novo. Eu que sou o irracional? E quantas vezes eu vou ter que te falar que eu não tenho absolutamente nada com a Débi-Débi.

– Se vocês não têm nada por que você não me contou que ela tava trabalhando com você?

– Você vai mesmo trazer essa discussão agora?

– Ela te ofende? Que ótimo! Eu também me ofendo com suas insinuações.

– Eu não te contei porque você a viu lá na loja, você já sabia.

– Então se eu não tivesse ido lá eu nunca ia saber?

– Eu sabia que você ia reagir dessa forma infantil, ela estava de experiência lá já quando nós nos acertamos, por isso não quis contar.

– Olha, chega. Eu não tô afim de discutir mais. Se você não quer me contar as coisas: foda-se. Se você acha que eu tenho caso com todos os homens ao meu redor: foda-se também. Eu vou pra minha casa.

 

“Foda-se.”

 

– Você não me ama mais, né? É isso!

– Amo, mas, sinceramente, eu acho que gosto de você muito mais do que você gosta de mim. E isso não tá me fazendo bem. Eu não nasci pra viver nessa insegurança e… e…

– Termina, termina sua frase.

– Pra mim não dá mais. Nós não fazemos bem um ao outro.

– Como você pode não acreditar que o que temos não é bom? É por que eu não te dou flores? Por que não ficamos o tempo todo de mãos dadas? É desse tipo de prova que você precisa?

– Não! Eu queria só um homem que prestasse atenção em mim. Você não sabe nada sobre mim.

– Você não diz.

– Você não pergunta! Você sabe quando é meu aniversário, Guilherme?

– Eu acho que é…

Acha. O seu é dia 10 de outubro e eu já comprei o presente.

– O que isso tem a ver com o que nós estamos falando?

– Meu aniversário é daqui duas semanas.

Ele arregalou os olhos e procurou o que dizer. Eu aproveitei o tempo como se fosse um intervalo de uma luta de boxe: enquanto ele pensava nos próximos golpes eu enxugava a cara como campeã.

 

“Enquanto ele pensava nos próximos golpes eu enxugava a cara como campeã.”

 

– Isso não quer dizer nada. Eu só tenho uma memória ruim. Eu sei o que eu sinto e isso é muito, muito forte.

– É mesmo? Você nunca me disse. Fui eu a babaca que jurou casar em um teatro a frente de todo mundo, você lembra? A única vez que eu te ouvi dizer “eu te amo” ou algo ao menos parecido foi pra Débora.

– Eu te amo.

– Agora já é tarde. Infelizmente eu não consigo acreditar.

Falando entre os soluços das lágrimas, minhas e dele, me levantei e peguei minha bolsa, não precisava ficar ali para saber o placar da luta. Eu saía derrotada.

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