Capítulo 27 – Um jeito de me deixar maluca

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Trilha sonora do dia: ‘ O meu amor’ – Ivete Sangalo e Caetano Veloso

Embora Guilherme tenha tido a bondade de faltar algumas provas, ainda nos encontramos algumas vezes nas duas últimas semanas de aula antes das férias que se aproximam sendo hoje nosso último flashback. Amanhã não vou pegar boletim. Espero enterrar meu coração nos próximos 20 dias do recesso na mais infértil e árida das terras. Não quero voltar a ser tão fraca quanto sou próxima dele. Tenho de admitir que saí várias vezes de sala só pra não sentir o peso de sua presença próxima.

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Já na segunda-feira após o término nós tivemos a nossa primeira recaída. A primeira de três. Ele pediu pra conversar melhor e eu fui. Quando ficamos cara a cara, porém, não tínhamos nada pra falar. Eu tentei fazer pose de “eu nem me lembro mais de quem você é”, mas o máximo que eu consegui foi “ainda dói muito.” O silêncio constrangedor entre nós tinha um outro tipo de tensão.

 

“O constrangedor era olhar para o outro e não sentir mais aquela liberdade de posse, de poder tocar, beijar.”

 

Não era constrangedor ficar calado, o constrangedor era olhar para o outro e não sentir mais aquela liberdade de posse, de poder tocar, beijar. Era a tensão de amar, mas não ter como expressar. Sem dizer nada, acabamos não resistindo e nos beijando. Aquilo surpreendeu até a mim e saí correndo, larguei ele lá. Essa foi a primeira vez que fui pedir para o diretor Tavares me mudar de sala e foi quando contei a meus amigos que meu namoro estava acabado.

Acabado, mas ativo, como provou o dia seguinte, minha segunda recaída. Eu estava bebendo água durante a aula de educação física e ele veio falar comigo. Ele estava com a regata de finas que era o uniforme do time de handebol. Cavada profundamente nas laterais, a regata azul marinho me dava vontade de mergulhar.

 

“Cavada profundamente nas laterais, a regata azul marinho me dava vontade de mergulhar.”

 

Ele não precisou mais do que encostar em meu pescoço para que eu virasse uma boneca de pano, sem o mínimo orgulho ou amor próprio. Se a Débora não tivesse nos interrompido, provavelmente teríamos reatado aquele dia. E talvez tivéssemos feito algo pior em público. Essa foi a razão da segunda, terceira e quarta vez que tentei mudar de turma – tudo no mesmo dia.

Meus amigos perceberam esse meu vício em Guilherme e se encarregaram de fazer uma barreira entre mim e ele. Durante as aulas, a V gastava mais tempo encarando-o do que fazendo suas provas. Ela só perde para o Salsicha que é implacável. Ele estava ao meu lado todo o tempo durante os intervalos, me telefonava em casa e no celular.

 

“Meus amigos perceberam esse meu vício em Guilherme e se encarregaram de fazer uma barreira entre mim e ele”

 

O Salsicha passou a se referir ao Guilherme apenas como Mr. M e o apelido foi totalmente readmitido como se nunca tivesse saído de moda. Nem no Maracangalha eu esta em paz. Lá além da banda eu estou sobre os olhos atentos de ave de rapina do Pedro – ele conseguiu o emprego de garçom, te disse, né?

Mas nem toda essa dedicação dos meus amigos me impediu de ter a terceira recaída. Hoje. Foi na última da última prova do bimestre. Eu tinha estudado com o Pedro na noite anterior enquanto ele aprendia a mexer na máquina de café, então a avaliação toda me pareceu fácil e terminei em quinze minutos. Saí e fiquei esperando a V. O Mr. M deixou a sala menos de um minuto após eu. Quando ele veio em minha direção, me senti uma porquinha perante o lobo mau.

 

“Quando ele veio em minha direção, me senti uma porquinha perante o lobo mau.”

 

– Prova fácil, né?

– Facílima. – respondi caminhando para trás.

– Soraya, me disseram que você tá tentando trocar de turma? O que foi que eu fiz?

– Como assim? Você fica conversando comigo como se tivesse conversando com uma conhecida qualquer e fica me falando do tempo agradável, da prova fácil… Eu já te vi pelado! Nós somos ex-namorados. E comigo essa história de continuar amigo não existe.

– Por quê? Seus amigos não me acham digno de me infiltrar no círculo deles?

 

“Você fica conversando comigo como se tivesse conversando com uma conhecida qualquer e fica me falando do tempo agradável, da prova fácil…”

 

– Guilherme! Isso não tem nada a ver com os meus amigos. Pelo menos não agora… Não é possível que você não sinta isso!

– Isso o que?  

– Essa tensão, esse desconforto…

– Você tá querendo dizer esse desejo?

Ele, de bobo, não tem nada. Já disse isso me beijando. Usando esse poder de sedução dele de Mr. M. Na manhã de hoje ninguém me impediu. Nem consegui me impedir. Fomos até a última fronteira do beijo. Com os lábios ainda pregados, ele me pediu em namoro em um sussurro. O pedido formal ele ter vindo naquela hora me impressionou. Quase respondi que sim, mas percebi o engodo a tempo. Era fácil demais me seduzir, difícil era apagar as marcas do que havíamos sofrido. Aproveitei o instante em que ele não me amarrava com a sua língua e fugi. Só consegui correr.

 

“Fomos até a última fronteira do beijo.”

 

 

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