Capítulo 29 – Tudo que sobra do nada

Post-Capítulo-29

 

Trilha sonora: ‘Gatinha manhosa’ – Erasmo Carlos

No dia seguinte ao meu aniversário a minha vida deu duas cambalhotas no ar e não fez um bom pouso. Acordei moída pelo impacto com o solo. Minha boca estava seca e minha cabeça em Marte. Pisquei até me localizar em meu quarto, mas não conseguia me lembrar direito como é que eu tinha chegado em casa. Mas eu sabia que tudo tinha a ver com álcool – em grande quantidade. Quando me encontrei, percebi que o celular estava ao meu lado, gritando. Na tela excessivamente brilhante vi que eram onze e meia da manhã. Tentei falar, mas o que saiu de minha garganta foi o vácuo seco de uma cripta.

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Leia o Capítulo 28

– Me conta!

– Dani?

– Dani, Pedro, V… Estamos todos aqui!

– Aqui onde?

– Na casa da V. Nós dormimos aqui.

– Humm! Eu tenho que contar o quê?

– Como foi com o Salsicha?

O quê?

– Para de enrolar e contar logo!

– Pra falar a verdade eu não me lembro de nada, bebi tanto que não lembro nem que horas que comecei a beber.

– A hora que você começou a beber eu sei, quero saber é o que rolou com vocês.

 

“– Pra falar a verdade eu não me lembro de nada, bebi tanto que não lembro nem que horas que comecei a beber.

– A hora que você começou a beber eu sei, quero saber é o que rolou com vocês.”

 

– Eu já te disse que eu não lembro… Era pra ter acontecido alguma coisa entre nós?

– Eu esperava que você me respondesse isso. Ele disse que ia te levar em casa, então…

– Nossa, que bons amigos que eu tenho, hein? Deixam um cara me trazer bêbada em casa sozinho? E se minha mãe me pega, Dani?

– Pra falar a verdade, você parecia bem mais empolgada com a ideia ontem. Foi você quem pediu para que eu dormisse na V.

– Eu não faria isso!

– É melhor você ligar para o Salsicha. – disse Dani. Ela desligou.

Passei a mão nos meus cabelos que começavam a crescer e baguncei eles ainda mais. Me arrastando como uma zumbi, fui até a cozinha e tomei um galão inteiro d’água. Tentei equilibrar meu corpo, mas não era a ressaca que me desequilibrava – era a dúvida. Será que eu e o Salsicha tínhamos tido alguma coisa? O Salsicha? Voltando para o quarto na velocidade máxima que meu corpo me permitia, liguei.

 

“Tentei equilibrar meu corpo, mas não era a ressaca que me desequilibrava – era a dúvida. Será que eu e o Salsicha tínhamos tido alguma coisa? O Salsicha?”

 

– Ah! Oi, Sol, eu já ia te ligar mesmo. Você tá bem?

– Na medida do possível. Só com uma ressaca horrível. E você?

– Tô ótimo!

– Muito ótimo?

– Eu diria só ótimo – riu-se.

– A Dani me contou que você me trouxe em casa então eu queria te agradecer…

– Sei… Queria agradecer ou recuperar a memória?

– Bom, se você me ajudar com a memória também…

– Me deixa ver… Do que você lembra?

– De te atacar no palco. Desculpe por isso.

– Não há o que desculpar. Mesmo. Bom… Vou resumir, tá? Depois que você me beijou, você começou a beber. Nós conversamos um pouco e fomos pra uma mesa separada. Eu bebi um pouco, você bebeu muito e inclusive eu vou te mandar a conta, que foi uma facada. É… Você insistiu pra ficar comigo, mas eu sei que era só porque você estava muito bêbada. A Dani me explicou o endereço e nós rachamos um uber. Você vomitou no banco, o que não deixou o motorista nada feliz. Liguei para sua mãe e ela abriu o portão para nós. Fim da história.

– Você chamou a minha mãe?!… Que merda!

– Eu tive que chamar, você tava sem chave.

– Como você sabe que eu tava sem chave? Você me revistou?

– Hummm! Digamos que não tenha sido necessário.

“– Como você sabe que eu tava sem chave? Você me revistou?

– Hummm! Digamos que não tenha sido necessário.”

 

– Meu Deus, agora que me ocorreu! Deve ter custado uma grana de uber.

– É, você me deve um século daquele couvert que a gente recebe.

– Nossa! Eu bebi no trabalho! O José implicou?

– Você foi uma bebum muito comportada.

– Eu não sou bebum!

– Há provas do contrário. – disse ele sorrindo.

– Então não aconteceu nada entre nós?

Não. Eu fui o mais respeitoso que pude.

– Isso foi muito legal.

– Esteve quase além das minhas forças.

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