Entrecapítulo 29/30

Recorte2a

Luís, lembra dele? Eu praticamente não lembrava, mas ele ressurgiu hoje, de maneira confusa. Ele veio sentar no banco ao meu lado no metrô enquanto voltávamos para casa. Milagrosamente, havia uma centena de cadeiras vagas, mas ele preferiu voltar no tempo um ano e reclinar-se sobre mim. Como estava, continuei: óculos escuros encarando fixamente as paredes que passavam em alta velocidade. Ele tirou os fones como se só então se desse conta da minha presença.

– Sol.

Olhei-o por cima dos óculos, sem responder.

– Olha, eu queria falar com você.

– Você adora escolher as horas mais impróprias para isso. Temos, sei lá, vinte minutos até eu chegar em casa. Será que vai dar tempo de você pedir desculpas?

– Eu não vim pedir desculpa.

– O quê?

– Sol, eu não concordo com essa sua visão de que eu fui o cara mau que arruinou tudo, sabe? Eu também gostava de você e…

– Você é muito babaca. Você vem aqui para esfregar que o fim do nosso namoro foi culpa minha? Pois quem foi que me trocou pela primeira que apareceu?

– Eu não te troquei pela Júlia e também não estou dizendo que a culpa é sua. A culpa é minha também, mas eu não vim aqui pra gente ficar discutindo. O que eu queria falar é que eu ainda te acho massa.

Cheguei até a tirar os óculos escuros. Aquela era a primeira vez que Luís se aproximava de dizer que gostava de mim. Falar de sentimentos era algo impossível a ele, como se ter coração fosse coisa exclusiva de mulheres. Quase dois anos depois do nosso primeiro beijo – o atropelo de bicicleta, devo já ter contado –, finalmente ocorria a ele dizer que eu era “massa”. Era bem pouco, mas representava tanto.

Cheguei quase a ficar comovida, mas então me ocorreu uma coisa.

– Você está tentando fazer uma brincadeira comigo, né?

– Cê acha que eu tou te zoando?

– Está?

– Nossa, mano, te falar: você é mó otária.

Aproveitando que o metrô estava parado na estação, Luís se apoiou na barra de ferro diante do nosso banco e, em um só movimento, se pôs de pé e ganhou impulso para rodopiar para fora do trem. Só entendi o giro quando ouvi o bipe e as portas começaram a fechar. O metrô começou a andar vagarosamente e pude vê-lo na estação, muito longe de sua casa, tirando o boné e bagunçando o próprio cabelo. Conhecia-o bem para saber que aquele era o sinal de que ele estava com raiva. Com raiva de mim.

Da janela pude ver que ele me dava dedo com as duas mãos, mas o metrô se moveu rápido e eu não consegui responder a ofensa. Fiquei inquieta no banco, como se a raiva não me deixasse ficar parada. Lembrava o número de cabeça, mas não tinha sinal para fazer uma ligação. Peguei o celular e escrevi um monte de merda para ele no WhatsApp (não sei mais o que, por que apaguei a conversa logo em seguida). Estava a ponto de chorar de raiva. Eu era massa e otária. E ele, o que era? Um nada. Então eu ri da brincadeira dele, mesmo que não tivesse nenhuma graça.

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