Capítulo 30 -Fugindo do coração

Post-Capítulo-30

 

Trilha sonora: ‘Beleza’ – Mariana Aydar

Ainda estava envergonhada pelo sei lá o quê que fiz, mas decidi que era melhor ir ao ensaio da banda do que ficar em casa me escondendo dele. Enquanto a escola tivesse fechada para as férias – infelizmente ensaiamos nas férias – decidimos tocar na casa do Salsicha. Eu tinha certeza de que ficaria encabulada, mas fui. Com o endereço marcado no GPS do celular, peguei o ônibus para o Colorado e fui. Eu não sabia onde era o tal condomínio. Desci na parada, caminhei um quilômetro para a direita e nada, mais um para a esquerda e nada. Exatamente na frente da parada estava o condomínio Morada do Sol. Mas não podia ser aquele. Como ia ser aquele? Só tinham casarões lá dentro. Foi quando o meu celular tocou.

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– É você que está na parada de ônibus?

– Estou em uma parada, mas acho que estou na errada.

– Não, não tá. Eu estou te vendo. Olha pra cá. Pra cima. Aqui.

Não menos opulenta que as outras, a casa verde-bandeira tinha uma série de pequenas varandinhas, como se estivesse à beira do mar, não de uma movimentada autoestrada. De uma das varandas Salsicha acenava para mim. Meu nome já havia sido devidamente “anunciado”.

 

“Salsicha me esperava na porta de sua casa, porta essa que deve ser do tamanho da parede inteira do meu quarto”

 

Salsicha me esperava na porta de sua casa, porta essa que deve ser do tamanho da parede inteira do meu quarto. Ao menos para garantir o mínimo de coerência com a realidade que eu conhecia até ali, ele estava de chinelos, bermuda rasgada, camisa suja e olhar de simples simpatia.

– Você assaltou essa casa?

– Não, eu moro aqui.

– Não imaginava. Os meninos estão aí?

– Eles não vieram. Eles cancelaram.

– Uai! Ninguém me disse nada.

– Eu… Eu tentei te ligar.

– Meu celular está funcionando normalmente.

Ele ficou olhando para seus pés cabeludos e apontando para suas costas perguntou:

– Você quer entrar?

– Na verdade não, obrigado. Acho que só vou pra casa.

– Mas ao menos uma carona você terá que aceitar.

– Você dirige?

– Se você for da polícia ou estiver mancomunada com minha mãe, eu digo que não.

– Eu aceito.

 

“– Você dirige?

– Se você for da polícia ou estiver mancomunada com minha mãe, eu digo que não.”

 

Ele sorriu e, sorrindo mais um pouco, falou “tá, pera aí” e entrou correndo na casa suntuosa. Eu fiquei esperando na porta e me senti mais que uma estrangeira: eu era uma ET e das perigosas. Um sedã prateado de vidros esfumaçados, aparência cara e sem nenhuma personalidade parou ao meu lado e buzinou.

Entrei e ele acelerou como se estivesse comandando um jato. Adivinhando a minha desconfiança, ele começou a falar de como se tornou um motorista alucinado. “Era para desafiar minha mãe, ela tem carro e tem medo, eu sou o contrário. Assim que o meu pé alcançou o pedal, comecei. Depois que se passa dos 100 km/h você já não quer mais dirigir abaixo disso”, disse-me enquanto fazia duas ultrapassagens perigosas. Eu estava apavorada como se eu estivesse dentro do cano da arma, não só com ela apontada para minha cabeça. Assustada, só percebi um desvio na rota quando ele já estava consumado.

– Você está indo para pra Rodoferroviária?

– Vai ser rápido. Você gosta de milk shake?

– Gosto.

– Tem uma barraquinha ali que faz um ótimo.

Descemos do carro e fomos até o Shopping Popular – onde há um posto do Detran, reflita – comprar o tal sorvete. Eu estava confusa e ele estava estranho, mas fingíamos que não reparávamos. Ele pagou os dois e fomos andando até a antiga Rodoferroviária com a boca cheia de sorvete para que ela ficasse vazia de palavras.

 

“Eu estava confusa e ele estava estranho, mas fingíamos que não reparávamos”

 

Caminhamos pelo estacionamento que separava os dois prédios e da beira de um pequeno penhasco urbano, admiramos o emaranhado de trilhos abandonado e pouco a pouco consumido pelo mato. Sentia que ele queria me falar alguma coisa, mas tinha medo do que ele me contaria. Depois de se apoiar nas grades e respirar profundamente três vezes, finalmente ele começou a conversa. Para meu desespero.

– Eu não tentei te ligar.

– Oi?

– Hoje. Eu não tentei te ligar hoje para falar que não ia ter ensaio.

– Por que você fez isso?

– Porque eu gosto de você.

– Na verdade, esse seria um motivo pra você me avisar, assim eu não perderia meu tempo vindo…

– Eu tô apaixonado.

 

“Palavras pesadas caem sobre as pessoas, chocam-se contra elas.”

 

Eu engasguei com a minha própria saliva. As pessoas acham que é só sair falando, atiram as palavras ao vento como se elas tivessem o mesmo peso das outras, que leves voam e se perdem. Palavras pesadas caem sobre as pessoas, chocam-se contra elas. Milhões de perguntas vieram à minha mente: Como assim? Por que você não me contou? Onde é que está a câmera escondida? Mas eu consegui resumir todas em uma só:

– Quê?

– Eu sei que isso foi um pouco inesperado, mas…

Não! Isso foi totalmente inesperado! Eu não sei o que te dizer.

– Você não precisar falar, só ouvir.

– Não sei nem se quero ouvir.

O Salsicha gosta de mim? Será que isso é culpa minha? Naquele momento tive a certeza de que havia acordado em uma realidade alternativa. Nada naquele dia fazia sentido, até o céu estava cor de rosa. Onde pode haver uma cor dessas no mundo real? Incoscientemente enquanto eu pensava, levantei e saí andando.

 

” Nada naquele dia fazia sentido, até o céu estava cor de rosa. Onde pode haver uma cor dessas no mundo real?”

 

– Espera! Soraya! Espera! Não adianta sair andando. Você tá na Rodoferroviária, é impossível chegar na sua casa andando. Eu imaginei muitas reações, mas não esperava que você saísse correndo.

– É geralmente assim que eu reajo a qualquer coisa.

– Calma.

– Olha, vamos só embora? Deixa eu pensar um pouco.

– Tá bom. Desculpa, não era a minha intenção te assustar, muito menos parecer um maníaco tarado. Deixa eu pelo menos te levar em casa, eu prometo que não falo mais nada. Esquece o que eu te disse. Foi loucura minha. Vamos voltar para o carro?

Eu não concordei nem discordei. Não queria parecer fria, mas também não queria dar esperanças pra ele. Quer dizer, o Salsicha é um cara muito super, mas nunca passou pela minha cabeça ter qualquer envolvimento com ele. Decidi falar alguma coisa, só pra ele não ficar se sentir mal.

– Dirija devagar, senão você vai tão rápido que o pensamento nem acompanha.

– Prometo – disse ele rindo amarelo.

*

O carro parou na porta da minha casa. Eu agradeci e abri a porta, mas antes de descer peguei no braço dele para capturar a sua atenção.

– Salsicha. Não fica se sentindo mal, mas é que você me pegou muito de surpresa. Você é um incrível, mas eu nunca tinha imaginado nada nesse sentido, entende? Espera eu ter condições de pensar.

Ele fechou os lábios em uma linha e balançou a cabeça afirmativamente. Sorri com sinceridade e bati a unha no copo vazio que carregava.

– Mas milk-shake de morango já é um bom começo.

 

“Eu sei que você pediu um tempo para pensar, mas eu precisei reunir muita coragem para fazer isso hoje e não vou desistir tão fácil…”

 

Ele sorriu sem graça e eu bati a porta. Não tinha nem virado as costas quando a janela do carro abaixou e eu vi a cara determinada dele.

– Soraya? Eu sei que você pediu um tempo para pensar, mas eu precisei reunir muita coragem para fazer isso hoje e não vou desistir tão fácil… Você vai fazer alguma coisa no próximo final de semana?

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