Capítulo 31 – O encontro perfeito

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Trilha sonora: ‘Felicidade’ – Marcelo Jeneci

Eu aceitei sair com ele. Nada mais me impede de sair com ninguém. E se há nesse mundo uma pessoa que seja boa companhia, essa é o Salsicha. Combinamos de nos encontrar ontem à noite. Minha proposta era esticarmos a noite depois da apresentação da Band-Aid. Ele, porém, tinha planos muito mais ambiciosos para a noite.

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Ele não quis revelar para onde iríamos e eu entrei no jogo dele. Coloquei uma calça jeans, uma sapatilha e meu casaco verde e peguei o ônibus para Brasília. Havia quatro mesas ocupadas no fim de tarde do Maracangalha. Estava desanimada para me dedicar a uma plateia tão enxuta – sentimento que era compartilhado por toda banda, à exceção de Sal. No fim do show, uma surpresa. Sabendo o tanto que gosto de Marcelo Jeneci, ele abriu uma brecha no nosso repertório oitentista para fazer uma versão bem desajeitada de ‘Felicidade’. Senti vergonha e achei fofo.

 

“Minha proposta era esticarmos a noite depois da apresentação da Band-Aid. Ele, porém, tinha planos muito mais ambiciosos para a noite.”

 

        Assim que terminamos a nossa hora programada de show, no entanto, Salsicha desapareceu. Sem aviso, ele decidiu voltar em casa e me mandou uma mensagem dizendo que era tudo “parte da surpresa”, que voltava em uma hora para me buscar e que eu não deveria jantar. Esperei acompanhada da noite abafada, de uma coca-cola e de Pedro, que deliberadamente deixava de servir as mesas para me fazer companhia.

        Quanto tempo havia que eu não tinha uma conversa decente com Pedro! Pensa que aproveitamos para voltar a nossas terapias? Fomos falar besteira, reclamar da programação da televisão, do rumo que as séries que acompanhamos estão tomando. Pensei até que não seria mal se Salsicha não fosse, tão divertido estava. Sal, porém, foi pontualíssimo. Chegou em altíssimo estilo.

        Apesar da falta de carteira, ele vinha novamente dirigindo. Havia lavado cada fresta do carro da mãe e o interior do veículo cheirava a silicone e perfume de cabaré. O garbo do carro era o mesmo do motorista. Foi a primeira vez que vi Salsicha de cabelos penteados. Para completar ele estava com uma camisa de seda esplendorosa, gravata borboleta e um all-star roxo nos pés.

– Uau! Eu não estou vestida pra isso. Onde nós vamos?

– O onde, ou deveria dizer os ondes, ainda são surpresa. Quanto às roupas, eu imaginava que você não estaria à minha altura – ele riu e fingiu tirar pó do paletó – Então trouxe uma lembrançinha pra você.

Ele me entregou uma sacola de uma marca que eu não conhecia. A sacola, porém, já deixava bem claro o refinamento. Parecia que era ainda melhor escolha do que uma roupa que eu mesma tivesse comprado. Um vestidinho até os joelhos, vaporoso, com uma estampa sutil de flores lilás.

 

“Já te falei que não é só um programa. É o melhor encontro que você já teve na vida.”

 

– Já te falei que não é só um programa. É o melhor encontro que você já teve na vida.

– Prepotente.

– Realista, você verá.

– Devo me trocar aqui?

– Para nossa primeira parada seria melhor você continuar de calças.

Ele acelerou o carro com a mesma pré-disposição à velocidade que ele já havia demonstrado antes. Em questão de minutos chegamos ao Parque da Cidade. Pensei nas várias programações possíveis, incluindo o parque de diversões, mas só me dei conta dos planos ambiciosos quando ele estacionou o carro em frente a um capacete gigante de piloto de Fórmula 1.

– Kart? – evidenciei o meu estupor.

– Kart! Quem ganhar, escolhe a próxima atividade.

Já estava tudo devidamente agendado e alugado. Foi chegar, calçar a fétida balaclava e pisar no acelerador – isso tudo no caso dele. Em meu caso, precisei de explicações do atendente sobre como parar o veículo em caso de emergência. “Moça, acelera quando você pisa ali. Não tem ré. Se o caso for o caso de parar bruscamente, joga o kart pra cima dos pneus.” Tentei argumentar, mas tudo que ouvi foi um “boa corrida”.  Salsicha estava para fazer uma volta de vantagem sobre mim, portanto segui a recomendação e pisei fundo.

 

“Agarrava o volante com tanta força que estava para cravar as unhas no couro sintético – e pisava.”

 

Quando tomei gosto por ouvir o motor atrás de mim metralhando meus tímpanos, pisei ainda mais. Era a primeira vez na vida em que eu tinha um veículo sob o controle de minhas mãos e pés. Agarrava o volante com tanta força que estava para cravar as unhas no couro sintético – e pisava. Eu e Salsicha não tivemos a menor consideração pelo casal de namorados que fazia o percurso junto conosco. Eu dirigia tão focada em vencer que em uma ultrapassagen perigosa eu obriguei o moço a frear usando o método de emergência que me fora ensinado. Me aproximei do Salsicha nas voltas finais (por pura complacência dele), mas a vitória – e o poder de escolha – permaneceram com ele.

– Pronta para a próxima? – perguntou ele antes que eu tivesse tirado meu capacete.

*

Aficionado por carros. Deveria ter imaginado que o próximo passeio imaginado por Salsicha teria a ver com eles. Eu perdi nas pistas o direito a opinar, mas se pudesse escolher, novamente não teria escolhido tão bem. Fizemos a curva a caminho do autódromo, mas desviamos no último minuto para dentro do Cine Drive-In.

O último cinema para carros do meu continente fica a menos de 30 quilômetros da minha casa e eu nunca havia ido lá. A tela era um colosso. De concreto branco, se inclinava sobre o espectador como se fosse esmaga-lo de tanto entretenimento.

Passava Central do Brasil. Acredita que eu nunca tinha visto? Estacionamos perto dos banheiros – eles também com vagas para carros. Na penumbra da projeção, indiquei os banheiros com o dedo e perguntei:

– Devo colocar o vestidinho?

– Agora fica a seu critério.

Troquei de roupas no banheiro deserto. Me via no espelho encardido da pia e não sei se era a iluminação incipiente ou a noite divertida, mas me sentia sexy. Saí do banheiro desfilando como se houvessem holofotes apontados para mim e não como se tudo estivesse escuro. Quando abri a porta do carro, porém, por um alguns segundos a luz interna se acendeu e Salsicha pode ver como a roupa me caíra.

 

“Me via no espelho encardido da pia e não sei se era a iluminação incipiente ou a noite divertida, mas me sentia sexy.”

 

– Você está linda. – disse ele como se estivesse hipnotizado.

– Obrigada, Edson. – respondi, já que não dá para chamar de Salsicha um cara que usa camisa de seda.

Alguns segundos depois, após recobrar a consciência, ele me estendeu um prato de plástico: “Batata frita?” Aceitei prontamente. Enquanto sentia o óleo umedecer a ponta dos meus dedos, me dei conta da incongruência da situação como um todo. Carro e nada de carteira. Gravata e nada de sapato. Vestido e nada de batom. Romance e nada de Guilherme. Libertei o pensamento por uma fração de segundo, mas assim que ele chegou a esse terreno perigoso da memória, tratei de trancá-lo novamente. “Foque no aqui e agora”, dizem as reportagens que li às escondidas de minha sombra sobre como encarar o fim de um namoro. Obedeci.

“Foque no aqui e agora”, dizem as reportagens que li às escondidas de minha sombra sobre como encarar o fim de um namoro. Obedeci.”

*

Saímos do cinema eram 22h. Não fosse período de férias, já deveria estar em minha cama neste horário. Salsicha, porém, guardava ainda uma última programação da melhor noite de todas. Dirigindo como se ainda estivéssemos no kart, ele disparou pelas largas pistas. Acelerava tanto que o celular dele caiu do console e com o impacto a tela se acendeu: 20 mensagens de “Não atender Mãe”. Perguntei se ele queria que eu lesse as mensagens, ele negou peremptoriamente (achei que não ia haver oportunidade de usar esse advérbio!). Questão de dez minutos ele reduziu a marcha quando chegamos a um clube que fica próximo ao lago.

– Hummm! Jantar à beira do lago? – joguei verde.

– De certa forma.

Ninguém veio falar conosco na portaria. Eu reconheci o salão de festas: era o clube da festa que encontrei o Guilherme! Opa, alerta de pensamento perigoso! Desviei a mente no exato momento em que Salsicha desligou o carro. Estávamos estacionados na frente de um restaurante elegante. Desci do carro como se eu fosse a dona dele. Já estava preparando uma entrada hollywoodiana quando em vez de entrar, Salsicha foi em direção ao porta-malas e tirou de lá uma cesta de piquenique.

 

“. Já estava preparando uma entrada hollywoodiana quando em vez de entrar, Salsicha foi em direção ao porta-malas”

 

– Você disse que íamos jantar.

– E vamos.

Segurando a pesada cesta de vime com uma mão, ele me deu o outro braço e me levou pras docas. Fazia um calor sem paralelo com o frio “daquela” noite. Talvez pela temperatura, o píer estava mais cheio e as luzes de mais barcos estavam acesas. Quando pisamos no deck, Salsicha apontou para uma lancha.

– Vamos jantar ali.

– Essa lancha é sua?

– Tecnicamente é um iate.

– Foda-se. É seu?

– Hoje à noite, sim.

Fomos nos aproximando mais. Não demorei a reconhecer o barco, não só pelo seu tamanho, como pelas luzes brilhantes que ele emitia. Era o ‘Rainha do Lago’. Quando chegamos até elas, Sal agarrou nas barras de ferro pintadas de dourado e subiu com a elegância de um marujo. Ele estendeu a mão e pegou primeiro a cesta e depois a mim. Com um puxão, eu embarquei. Vendo minha cara de choque, ele aceitou dar algumas explicações.

– Eu me preparei com certa antecedência.

– Quanta antecedência? Desde a maternidade?

 

“– Eu me preparei com certa antecedência.

– Quanta antecedência? Desde a maternidade?”

 

– Saber como eu fiz isso é mesmo importante?

Não, mas é um bom inicio de conversa.

– Então será também um bom fim de conversa. Primeiro, comamos.

Numa mesa fixa do convés, Salsicha apoiou a cesta. De lá a primeira coisa que tirou foi um copo de requeijão, uma vela e fósforos. Acesa e fincada no copo a luz do romance, ele começou a montar as coisas. Tirou um vinho, que ainda estava gelado por milagre. Taças, guardanapos, pratinhos e guloseimas. Havia comida para o dobro de pessoas. Como toque final, ele tirou da cesta sem fundo um radinho a pilha, carregado com uma seleção de músicas românticas de qual década? Advinha?

Não fosse o Salsicha, teria me sentido desconfortável. Para quebrar o gelo do encontro de um apaixonado e uma depressiva, porém, ele tinha a sua disposição um longo leque de piadas e ironias, disparando sempre uma certeira cada vez que a conversa começava a esmorecer.

 

“. Para quebrar o gelo do encontro de um apaixonado e uma depressiva, porém, ele tinha a sua disposição um longo leque de piadas e ironias”

 

Conversamos sobre uma série de assuntos, mas sempre que o tema desembocava no campo das finanças – e de onde a família dele escondia tanto dinheiro –, Salsicha recorria a uma ironia e mudava de assunto. Isso, porém, só me deixava mais curiosa para saber a história por trás daquilo. Talvez fosse filho de um dono de hotel, já pensou? Decidi que o melhor modo de descobrir alguma coisa seria investigar a lancha por dentro. Levantei e pedi:

– Abre ali para mim? Preciso ir ao banheiro.

– Não dá.

– Não tem banheiro?

– Eu até imagino que tenha banheiro. Eu não tenho é a chave. Eu nem sei quem é o dono do barco.

– Meu Deus! Você me trouxe aqui para roubar um barco, seu escroto?

– Não é roubo já que não saiu do lugar. Mas fica tranquila que esse clube não tem vigilância nenhuma.

– Eu não quero ficar aqui para tirar a prova! Quero é que você me explique que caralho que está acontecendo aqui.

 

” Quero é que você me explique que caralho que está acontecendo aqui.”

 

–Eu sou rico. Meu pai é o maior traficante de coca da América do Sul.

Sério?

– Claro que não! Tá beleza, vou te falar a verdade que eu estou vendo que você tá bolada. Então, minha mãe já foi quase rica. Quer dizer, ela era casada com um cara rico, meu padrasto, e, por consequência, eu tive uma infância mais, como posso dizer… mais abastada que a dos outros. Eu vinha para o clube para ficar explorando o terreno enquanto eles bebiam.

– Resumindo, você rouba barcos e carros?

– Só de quem eu não gosto!

– Mas você rouba até da sua mãe, então você odeia todo mundo?

– Primeiro, eu não roubo nada, eu aproveito oportunidades que me surgem em segundo lugar, eu não odeio todo o planeta. Eu amo você.

Aquilo desarmou a minha indignação. Tão acostumada que estou a ter que implorar para receber declarações, levar na cara uma assim, tão genuína, me tirou os argumentos. Salsicha levantou e aumentou o som do radinho. Ele esticou a mão para mim, me convidando para a dança. Estava tocando Come Dance With Me do Sinatra. Como eu não estiquei a mão para aceitar a dança, foi ele que se aproximou com suas pernas de ema e me içou pela cintura. Enquanto me conduzia delicadamente sobre o diminuto espaço da lancha roubada, Sal sussurrava no meu ouvido.

 

” Enquanto me conduzia delicadamente sobre o diminuto espaço da lancha roubada, Sal sussurrava no meu ouvido.”

 

– Eu não sou uma pessoa confiante como você, Soraya. Sou esquisito, desengonçado e sei que as pessoas me julgam. Por isso eu gosto tanto de viver as experiências que a vida me proporciona, já que eu nunca sei quando ou se as pessoas vão me dar uma nova. Em toda a minha vida a única pessoa que aceitou me dar uma segunda chance foi você. Eu quero fazer por merecê-la.

Eu fui tentar responder, mas ele colocou o indicador nos meus lábios.

– Não fala nada agora. Primeiro, vamos ouvir Sinatra.

Estávamos completamente fora do compasso – e quando foi que eu estive dentro? Ele me abraçou e eu encostei a cabeça em seu ombro largo e ossudo.

– Sinatra é incrível. – ele sussurrou enquanto começava uma outra música dele, mas que eu não pude reconhecer.

        – Eu concordo.

        – E quem discorda?

        – Não. Eu concordo com o seu pensamento. Aqui e agora. Temos que aproveitar as raras oportunidades que a vida nos dá.

        – Você concorda que isso inclui roubar lanchas também?

        – Tecnicamente, não é roubo já que o barco continua onde sempre esteve. – respondi.

– E aí, esse é o encontro mais perfeito do mundo? – perguntou ele mudando de assunto enquanto me fazia rodar em suas mãos.

– Já acabou? Eu gostaria que durasse mais.

Eu o beijei. Apenas encostamos nossos lábios umedecidos de vinho, não foi um beijão de cinema. Nós não temos vocação para o protagonismo. Foi um beijo tolo, tão tolo quanto nós.

– Você tá tremendo?

Não se preocupa. É só nervoso.

– Nervoso? Por me beijar? Ah! Para com isso, eu tô muito mais pra prêmio de consolação do que pra medalha de ouro.

Eu já estava desistindo de você, nunca que uma garota tão mágica ia olhar pra um magrelo esquisito como eu. Até aquele dia no bar que você me beijou. Tudo que eu sentia voltou tão mais intenso que não pude mais aguentar. Mas eu nunca achei que daria tão certo.

 

“Eu já estava desistindo de você, nunca que uma garota tão mágica ia olhar pra um magrelo esquisito como eu.”

 

– Pois somos dois depressivos idiotas! Você não é um magrelo esquisito, é o cara mais legal que eu já conheci.

Sorrimos e nos beijamos longamente, dessa vez um beijo de adulto. À luz do luar, em um iate roubado, de vestido e tênis, dançando Sinatra. Não poderia ser mais perfeito.

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