Entrecapítulo 31/32 – parte 2

brecorte1

Quando a gente beija alguém, tocamos saliva e consciência. É como um vírus, pouco a pouco você vai se deixando preencher por aquela pessoa e, quanto mais beijos se trocam, mais a individualidade desaparece. Esse momento em que a fronteira que aparta os corpos cessa ocorre em épocas diferentes para os diferentes casais. Alguns deles precisam de anos para conseguirem se comunicar prescindindo das palavras, por exemplo. Outros, porém, fluem mais facilmente, como se fossem do mesmo lote de fabricação. Vítimas dos mesmos defeitos e da mesma mente. É isso o que ocorre entre eu e Salsicha.

Em uma semana já fui capaz de traçar um mapa grosseiro da personalidade dele, já conhecendo seus limites. Com Guilherme e com Luís foi sempre imprevisível. Quando é que eu vou me cansar de comparar ele aos outros? É difícil não ficar analisando já que ele é um caso completamente excepcional ao meu padrão. Entardecer romântico, dedicação irrestrita, inseguranças aparentes: nada disso faz parte da minha programação para o amor. Estou tendo que reaprender tudo.

Salsicha insinua pedidos para que a nossa relação avance – na verdade, ainda não decifrei se ele quer que vamos mais rápido para o caminho da cama ou do altar. Para mim, porém, nenhuma das propostas é tentadoras e finjo ainda não ter entendido as suas provocações. Não quero, ao menos por hora, andar por aí de mãos dadas com ele. Sei que o Guilherme não merece nenhum respeito da minha parte, mas eu não queria fazê-lo sofrer como eu sofri quando Luís esfregou Júlia na minha cara.

A bem da verdade, no entanto, a situação está longe de ser a mesma. Nem sabia se ele ia sofrer ou não. Ele já está com a Débora há certo tempo, talvez nem se lembre de mim. Ainda assim achei melhor não arriscar a despertar esse ódio nele. Nem para meus amigos contei da relação entre eu e Sal, embora certamente Pedro e Cláudio já tenham descoberto.

Falando na demônia, vejo-a entrar em sala com seus cabelos azulados de tão negros. Como nunca tenho sorte, acabei sendo sorteada nesse semestre para ser da mesma turma que outra atual de um dos meus ex: Débi-Débi. Ela, ao contrário de Júlia, não tem interesse nenhum em mim. Me ignora solenemente todos os dias, como se a minha presença fosse insignificante demais para que ela notasse. Eu também faria questão de não reparar nela, não fosse um detalhe de um metro e oitenta.

Onde há fumaça, há fogo. Onde há Débora, há Guilherme. Fujo dele sempre que posso, evitando encará-lo como se ele fosse uma espécie moderna de medusa. Não consigo, porém, fugir da presença diária dele na porta da minha sala de aula. Ele sempre acompanha Débora até lá, seja para busca-la no intervalo ou quando acabam as aulas, para que vão embora juntos. Sempre que sinto sua presença se aproximar, abaixo os olhos para meus livros e finjo estar lendo algo interessante. Às vezes me sinto tentada a olhar, mas sempre carrego em um lugar de fácil acesso nas minhas lembranças o dia em que ele entrou lá no Maracangalha ao lado dela. É sempre como se eu cravasse uma faca no peito. É sempre bom.

Anúncios