Capítulo 32 – Almas siamesas

post-capitulo-32

 

Trilha sonora: ‘Preciso Do Teu Sorriso’ – Mariana Aydar

– Nossa! Você ainda tem um tamagotchi? – perguntou Dani.

– Ah! É mesmo, eu tenho. Não funciona faz séculos, mas eu não tive coragem de jogar fora.  Nem lembrava mais que ele tava aí. – respondi sem nem mesmo olhar para o aparelhinho em formato de ovo.

Leia o Entrecapítulo 31/32 -parte 1

Leia o Entrecapítulo 31/32 -parte 2

Leia o Capítulo 31

– Eu também tinha um, mas acabou desaparecendo misteriosamente assim como o de todas as pessoas que eu tinha conhecido até agora. – comentou Salsicha.

Salsicha estava fazendo uma vistoria no meu quarto. Com seus braços anormais, ele conseguia abrir as portas do armário ao mesmo tempo em que mexia no móvel do computador – claro que as modestas medidas do meu recanto ajudavam. Fiquei deitada o tempo todo na cama fingindo naturalidade, mas ela não existia. Estava encarando a minha janela circular para não olhar os segredos que ele desenterrava de minhas gavetas. A Dani, interessada pelas descobertas, até desistiu do seu soninho da tarde para ajudar – apesar de sua barriga já em forma de lua.

É compreensível que a pessoa tenha curiosidade de ver suas coisas quando o visita pela primeira vez, mas ele estava passando dos limites. Além disso, era muito esquisito tê-lo em casa. Nunca um ficante meu havia cruzado tão rapidamente do portão como Salsicha. Apesar de sua afabilidade, eu me sentia julgada todo o tempo – não pela curiosidade, mas por sua mera presença. Sal não chega a ser rico, mas tem condições sociais muito mais favoráveis que as minhas e de Dani. Me sinto ridícula, mas toda vez que ele olha para um detalhe específico penso que ele está julgando a minha pobreza. Talvez isso seja um sinal de que eu mesma a julgue.

 

Nunca um ficante meu havia cruzado tão rapidamente do portão como Salsicha. Apesar de sua afabilidade, eu me sentia julgada todo o tempo – não pela curiosidade, mas por sua mera presença.

 

Não foi tão ruim, porém, a investigação minuciosa conduzida por ele. Por debaixo da bagunça do meu quarto se escondem segredos escabrosos dos quais nem eu me lembrava. Encontrar o meu tamagotchi de infância foi bem legal da parte dele, mas outras coisas que ele encontrou me deixaram em estado de alerta – será mesmo que eu já fui a pessoa dona de todas aquelas coisas?

Na parte do meu armário que tem um espelho quebrado, em meio aos livros, ela encontrou uns cinco de dietas mirabolantes tipo “Perca-Duas-Toneladas-Em-Dois-Minutos”. Na gaveta do computador foi Salsicha que encontrou uma discografia da Hannah Montana, mas ele ficou até mais envergonhado que eu e resolveu não comentar nada. Acho que eu não teria ficado tão embaraçada nem se ele tivesse achado material pornográfico por todos os cantos. Até cheguei a começar a me explicar, mas Sal me impediu. “É o tipo de coisa que não tem desculpa”, disse.

Sal continuou a sua ronda e não achou nada mais grave – nem poderia. Percebi que aquela caça ao tesouro das memórias fazia um bem a Dani que não tinha muita explicação. Talvez ela estivesse lembrando das coisas que ela tinha guardadas em suas gavetas na casa paterna – e agora todas proibidas para ela. Embora, para ser justa, os pais dela até a houvessem procurado nos últimos tempos para tentar retomar algo da abalada relação.

No fim, para entretê-la e entretê-lo, resolvi me levantar da cama e ajudar nas buscas. Descobri que me divertia relembrando o meu passado a cada objeto retirado das catacumbas inóspitas das caixas sobre meu guarda-roupas. Me vi na época em que eu era uma pré-adolescente balofa que queria ser igual a Hannah Montana – e veja só o que Miley Cirus virou. “Eu tinha acabado de conhecer a V e naquela época e nós ainda éramos iguais”, comentei.

Éramos iguais em tudo. Inventávamos coreografias para as nossas músicas preferidas, admirávamos a beleza do Tito e até respondíamos os mesmos questionários da revista Capricho. Com o tempo fui moldando uma personalidade completamente adversa daquela e nunca mais tinha conhecido ninguém tão parecido comigo. Até ali. Até conhecer o Edson Gouveia. Eu sou o Salsicha de saias.

Com o tempo fui moldando uma personalidade completamente adversa daquela e nunca mais tinha conhecido ninguém tão parecido comigo. Até ali. Até conhecer o Edson Gouveia. Eu sou o Salsicha de saias.

 

Percebendo o clima de romance que a vistoria estava tomando – as trocas de olhares, as mãos que se demoravam –, Dani decidiu fazer “um bolo”. Eu e Salsicha começamos a guardar as coisas todas em suas respectivas caixas. Enquanto ele mexia nas minhas coisas, eu aproveitava para entrevistá-lo e conhecer mais nossos pontos em comum. Era como um desses programas de perguntas e respostas, tipo pingue-pongue. E ele acertava tudo. Mesmo as perguntas que não tinham respostas prontas.

– Banda preferida?

– Depende do dia.

– Tá bom. Trilha sonora do dia?

– Hoje está sendo o Moldy Peaches.

– Mentira! Eu adoro o Moldy, nunca pensei que outra pessoa conhecesse. Por que nós nunca ensaiamos nenhuma música deles?

– O Cláudio detesta.

– Ah! Deveria ter imaginado… E se tivéssemos um seriado como se chamaria?

Armação Ilimitada.

– Tô falando sério.

– Eu também tô.

– Outro nome, Edson.

– Nossa! Falou meu nome então é bom eu pensar mesmo em alguma coisa. Sei lá! Deixa eu ver… Sal e Sol.

– Não, parece muito surfe.

– Então Soraya e Edson.

– Como você é criativo. – respondi irônica. – Um seriado com um nome desses ninguém ia assistir.

Will e Grace fez sucesso.

– Só você assiste Will e Grace.

Salsicha fez uma cara de falsa ofensa e me deu língua. Ele se levantou estralando os joelhos sonoramente e começou a empilhar meus livros – em ordem alfabética de sobrenome do autor – na parte de espelho do armário.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas

 

– Já leu todos?

– Li poucos. Alguns eu nunca abri. A maioria deles são presentes do meu pai. Meu pai sempre quis fazer de mim e da minha irmã pessoas inteligentes, mas a futilidade já nasceu conosco.

– Ninguém que é capaz de falar “a futilidade já nasceu conosco” pode ser fútil.

Ele deitou no meu colo e começou a ler as primeiras páginas de O Pequeno Príncipe em voz alta e eu fiquei fazendo cafuné nele. Não estou perdidamente apaixonada pelo Salsicha, mas estar com ele me traz uma sensação boa. Uma sensação de conforto, de estar em casa.

– “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” – leu ele antes de me dar um beijo.

Anúncios