Capítulo 33 – O fim da juventude

post-capitulo-33

Trilha sonora: ‘Estratosférica’ – Gal Costa

– Alô?

– Corre, bicha! Arruma as malas!

– V.? O que você tá falando?

– Nós vamos dar uma viajada!

Leia o Capítulo 32

Leia o Entrecapítulo 31/32

Foi com essa ligação que começou a minha segunda-feira. Foi tudo em cima da hora: ontem mesmo, apanhamos o ônibus e fomos para Caldas Novas, só eu e a V. Como isso aconteceu? A tia da V. assina um pacote de viagens do qual ela desfruta pouco. Então, todo ano sobram algumas diárias. Como havia um pacote para vencer, a V. decidiu gastá-lo – e me levar junto. Foi assim que eu ganhei três dias de férias sem pagar nada por isso, a não ser as minhas faltas escolares. Nem pensei em recusar.

 

Foi assim que eu ganhei três dias de férias sem pagar nada por isso, a não ser as minhas faltas escolares. Nem pensei em recusar.

 

– Era essa a surpresa que você tinha para mim?

– Pois é. Isso é só para minha amiga mais especial.

– A Bianca? – provoquei.

Mesmo pelo telefone, soube que a V. fazia uma careta.

Arrumei minha mochila, avisei a minha mãe e pedi um biquíni emprestado para a Dani. “Pode ficar com ele. Nunca vai me servir de novo, mesmo”, disse ela. Meu único custo foi comprar a passagem de ônibus e os biscoitos recheados que comemos no trajeto, feito no início da tarde de ontem.

Mandei uma mensagem breve para o Salsicha resumindo tudo e a V. ficou interessada em saber por que eu estava me justificando para ele. “Desmarcando um ensaio”, menti. Não tinha definido nada direito com ele. Não queria me adiantar daquela vez.

A V. carregava uma mala que tinha dimensões um pouco maiores do que as de um caixão. Eu, racionalmente, levava apenas uma roupa para cada dia – o que cabia perfeitamente em minha mochila do dia a dia. Embarcamos sem atrasos para nossa viagem, que durou seis horas, o que transformou a minha já desfavorecida bunda em uma tábua.

 

A V. carregava uma mala que tinha dimensões um pouco maiores do que as de um caixão. Eu, racionalmente, levava apenas uma roupa para cada dia – o que cabia perfeitamente em minha mochila do dia a dia.

 

Quando chegamos ao hotel, já era fim de tarde. Sem meios para que pudéssemos ir ao centro da cidade para nos divertir à noite, tivemos que arrumar o que fazer ali mesmo. Eu dei a ideia de irmos para o bar com decotes volumosos para competirmos quem conseguia ganhar um drink mais rápido. Ela topou com palminhas. Eu sabia desde antes de fazer a proposta que a V. iria ganhar, mas era pelo menos alguma coisa para ocupar a nossa noite com algo que não fosse assistir à TV.

Sentamos em lugares diferentes do bar-restaurante para que não espantássemos os possíveis pretendentes. A V. foi disparadamente a mais rápida: 5 minutos. Quem pagou foi o próprio garçom, com quem ela estava tendo uma conversa animada. Assim que conseguiu sua taça de espumante, a V. brindou a mim à distância e fez menção de vir sentar comigo. Para mim, porém, o jogo não havia acabado.

Ainda afastada dela, fiz de tudo para conseguir uma bebida para mim. Olhava para todos os senhores que ocupavam as mesas do espaço, mas o hotel familiar recebia muito mais papais e seus filhos do que solteiros cobiçáveis.

Para mim, porém, o jogo não havia acabado.

 

Levei meia-hora para ser cantada – prazo em que a V. já estava em seu segundo pretendente. Digo “cantada” porque fui eu mesma quem pagou pela minha vodca e meu refrigerante. O babaca que me cantou deveria ter uns cinquenta anos, estava de moletom – o que demonstra mais claramente que ele era casado do que se usasse uma aliança – e ainda me perguntou quanto eu estava “cobrando pelos serviços”. Ofendida, mandei ele se foder e me mudei de mesa.

Pensei em ir até a mesa da V., mas percebi que ela já estava no terceiro drink. O pretendente atual era um jovem. Provavelmente, não era brasileiro. Deveria ter uns trinta anos, usava terno e parecia não se preocupar com dinheiro. Boba, não quis atrapalhá-los. Bebi um pouco mais, novamente às minhas custas. Percebi, porém, que a V. estava tentando, sem sucesso, dar o fora no tal cara – e que ele tentava beijá-la à força. Corri até lá.

– Ei, cara! Não tá vendo que ela não tá a fim? Respeita!

– E isso é da sua conta? – disse ele, com forte sotaque e bafo.

– Claro que é! Ela é minha namorada!

A V. ficou ruborizada e abaixou a cabeça na hora. Ele, prejulgando a minha gordura e meu cabelo curto, pareceu se convencer. Achando que a brincadeira dos drinks ficava cada vez mais perigosa, achei que era melhor irmos pro quarto. A V. concordou, ainda envergonhada.

 

***

 

O elevador era apertado e antigo, desses que você abre a porta para fora e que tem uma pequena janelinha de vidro. O botão do 12º andar não acendia, mas o elevador parecia subir. Então, torci para que ele parasse quando fosse a hora. Me apoiei na parede para tirar os meus saltos, que trucidavam meus pés. A V. já estava escorada, cambaleante da bebida. Enquanto soltava a alça de minha sandália, minha amiga deslizou pela parede até mim e me beijou.

A minha amiga! Ela deslizou até mim, como se fosse em câmera lenta, esticando seus lábios com gosto de gloss de cereja e champanhe barato. Tocou em meus lábios com os seus, pressionando meu rosto contra a parede. Não era um tropeço, não era uma reação inconsciente. Era um beijo!

Não era um tropeço, não era uma reação inconsciente. Era um beijo!

 

Assustada, me recolhi ainda mais na parede, praticamente escalando-a, e desviei meu rosto. Magoada, a V. se refugiou no canto oposto e não disse nada. O elevador subia lentamente, devagar como uma múmia de metal. A V. olhava para o chão, assim como eu, cada uma em busca de explicações mudas. O que eu poderia fazer? O elevador chegou e foi a V. quem saiu correndo.

 

***

 

Cheguei ao quarto e ela estava trancada no banheiro. Andei de um lado para o outro, sentei na cama, esperei até que tivesse uma iluminação do que dizer a ela. A iluminação não veio. Então, eu fiz a única pergunta que me ocorreu. Me sentei na soleira da porta e perguntei: “você está bem?”. Ela não me respondeu.

Ela saiu do banheiro apenas uma hora depois, julgando que eu tinha ido dormir, o que não havia acontecido. Eu ainda estava lá, encostada na porta, quando ela se abriu. Me desequilibrei e vi o rosto da minha amiga ressecado pelas lágrimas de maquiagem. Ela jogou os rastafáris coloridos sobre o rosto e, sem dizer uma palavra, saltou meu corpo jogado no chão e correu para a saída. Antes que ela pudesse ir, porém, eu a segurei.

– Espera! Vamos conversar.

– Eu não quero conversar agora.

Ela foi. Eu não a impedi.

Com os pensamentos acelerados como foguetes, tomei um banho para me acalmar. Chorei e não sei por quê. Afundei minha cara no travesseiro e, apesar do cansaço, meu cérebro não me deixava dormir, repetindo como um CD arranhado a memória do beijo, buscando explicações onde só havia uma – que eu recusava aceitar.

 

Afundei minha cara no travesseiro e, apesar do cansaço, meu cérebro não me deixava dormir, repetindo como um CD arranhado a memória do beijo, buscando explicações onde só havia uma – que eu recusava aceitar.

Anúncios